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A Fórmula 1 perde parte de sua história

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Há uns 20 anos, no aeroporto de O’Hare, em Chicago, estava me encaminhando para o terminal onde embarcaria para São Paulo. Pelo caminho, me chamou atenção alguém solitário, sentado num degrau. Meio de longe, parecia ser Niki Lauda. Disfarcei, passei mais perto e os olhos claros, olhando para o nada, as cicatrizes do lado direito do rosto e o boné da Parmalat confirmaram.

Era o três vezes campeão mundial de Fórmula, aquele que viu e venceu a morte, dono de uma técnica absurda ao volante daquelas “cadeiras elétricas”. Um dos maiores de todos os tempos. Pensei: “que porra esses americanos, que não reconhecem e reverenciam um cara com esse valor”. Cheguei perto e falei respeitosamente: “Hei, Niki”! Ele se espantou de ser reconhecido ali, naquela situação. Fui recompensado com um sorriso e a mão estendida para um aperto. Nunca esquecerei disso.

Agora a Fórmula 1 ficou mais pobre.Nascido em Viena, Andreas Nikolaus Lauda, o Niki Lauda, foi campeão mundial em 1975 e 1977 pela Ferrari e, em 1984, pela McLaren. Em 1976, no entanto, todos o deram como “acabado” (ou mesmo morto) quando sua Ferrari saiu da pista no G da Alemanha, em Nurbürgring, e o piloto sofreu extensas queimaduras de terceiro grau no rosto, que o deixaram desfigurado e o obrigaram a incontáveis  cirurgias. Passou a usar um boné para ocultar as cicatrizes na cabeça, e o acessório tornou-se parte da sua imagem de marca quando regressou às pistas apenas seis semanas depois, depois de ter recebido a extrema unção. Terminou aquela temporada em quarto lugar. O piloto austríaco correu de 1971 a 1979, e de 1982 a 1985. Foram 177 provas, 171 largadas, 25 vitórias, 52 pódios, 24 poles e 420,5 pontos. Sua primeira prova foi o GP da Áustria de 1971 e a última o GP da Austrália de 1985. Guiou para cinco equipes: March, BRM, Ferrari, Brabham e McLaren.

Além da Fórmula 1, onde exerceu vários cargos (foi consultor da Ferrari em 1993 e liderou a Jaguar entre 2001 e 2002), Niki Lauda fundou as empresas aéreas Lauda Air e Niki (ambas extintas) e manteve, até 2018, uma participação na Lauda (subsidiária austríaca da Ryanair). Em 2012 tornou-se executivo da Mercedes, tendo ajudado a trazer Lewis Hamilton para a ribalta da Fórmula 1.

Uma tragédia marcou a vida de Lauda, O voo 004 da Lauda Air , de Hong Kong para Viena, com um Boeing 767-300ER,  caiu na Tailândia em 26 de maio de 1991, devido ao acionamento não comandado do reversor da turbina numero 1 em pleno voo, matando todos os 213 passageiros e 10 tripulantes a bordo. Ele participou pessoalmente do resgate e primeiras investigações, e nunca se recuperou emocionalmente disso.

Nascido em Viena em 22 de fevereiro de 1949, em uma família de classe alta, Lauda contrariou a vontade dos pais e dedicou-se cedo ao automobilismo, chegando à Fórmula 1 em 1971. Casado duas vezes, foi pai de cinco filhos (um dos quais, Mathias Lauda, que foi piloto da Aston Martin no Mundial de Endurance).

No ano passado, fez um transplante de pulmão, órgão que ficou seriamente atingido no acidente de Nurburgring (ele era obrigado a fazer o doloroso procedimento de ter um aspirador introduzido por horas na sua garganta para aspirar a fuligem inalada), mas não se recuperou e teve a saúde rapidamente deteriorada. A sua vida, em especial a histórica rivalidade com o piloto britânico James Hunt, seu amigo, foram retratadas no filme “Rush”, de 2013.

Foi um campeão que honrou a Fórmula 1.


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