A última corrida dos irmãos Renault

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A corrida entre as capitais de França e Espanha (Paris e Madri) não foi a primeira grande prova de estrada que ocorreu na Europa. Mas ao contrário das anteriores, esta competição de três dias e 1400 km de extensão por estradas que raramente tinham visto algum veículo motorizado, era mesmo uma cansativa maratona radical. Ainda mais quando, em 1903, os precários automóveis já atingiam velocidades consideráveis, sem serem equipados com sistemas eficientes de suspensão ou de freios.

Louis et Marcel Renault


 
De modo surpreendente, para aquela corrida houve 315 inscritos, dos quais alinhariam na largada 275 concorrentes, divididos entre automóveis (em duas classes) e motos. A primeira etapa, entre Paris e Bordeuax tinha 547 km, reunindo ao longo do percurso cerca de três milhões de espectadores, distribuídos por duas quase ininterruptas filas humanas que ladeavam as estradas.

Apesar do governo francês ter sérias dúvidas sobre as corridas de estrada, devido à sua crescente periculosidade, e o fato de surgirem diferentes características de cidade para cidade, o automóvel clube francês continuou insistindo na fórmula devido ao sucesso popular. A corrida de Paris até Madrid foi dividido em três etapas: a primeira, indo até Bordeaux, depois indo pela costa até Biarritz, e, a terceira, partindo de Vitória, já em terras espanholas, até à capital, Madri.

Se a primeira etapa parecia fácil, devido às longas retas, as outras duas eram mais sinuosas, com a agravante de as estradas espanholas não serem tão largas como as francesas -pelo contrário- e repletas de curvas.
A organização pediu e conseguiu a autorização do Rei Alfonso XIII da Espanha e, munidos dela, o automóvel clube francês tentou convencer o governo, liderado pelo primeiro-ministro Émile Combes, afirmando que se as estradas eram públicas e a população queria as corridas. Depois de uma aturada pressão, a 17 de fevereiro, Combes cedeu, e a prova foi marcada para começar a 24 de maio de 1903.


 
O primeiro concorrente a chegar a Bordeaux foi Louis Renault, com o Renault de número 3, que aproveitou bem a estrada limpa para fazer o percurso à impressionante velocidade média de 100 km/h.
 
Para se compreender o significado desta velocidade em estradas projetadas para carroças, recordemos que em 1899 um veículo eléctrico denominado “La Jamais Contente” tinha batido o recorde mundial de velocidade, ultrapassando pela primeira vez a barreira mágica dos 100 km/h. Agora, quatro anos depois, a média de 100 km era alcançada num percurso com mais de 500 km em estrada aberta! Mas logo em seguida, Louis Renault cairia para o segundo posto quando chegou ao final da etapa: o Mors Dauphin, de Fernand Gabriel, tinha cumprido o percurso à média de 104 km/h vencendo assim a etapa. E depois a corrida, como veremos adiante.
 
Estas velocidades inéditas tinham um preço a cobrar, que se traduziu por 10 mortos entre pilotos e espectadores, aos quais se somaram ainda algumas dezenas de feridos. Tudo isto só na primeira de três etapas!
 
Um dos mortos foi Marcel Renault, cujo Renault (foto colorizada abaixo)) tinha o #63, que correspondia ao 63º carro a ir para a estrada. Muito rápido, Marcel vinha ultrapassando todos os concorrentes à sua frente, aproximando-se dos primeiros carros que aforam para a prova, indiciando que estaria muito bem classificado no final. Mas em seguida veio a tragédia.

A última corrida dos Renault


 
Quando rodava na RN 10 perto da vila de Payré (entre Poitiers e Ruffec), Marcel encontrou a nuvem de poeira levantada pelo Decauville #4 de Leon Théry. A partir desse ponto, as versões divergem. A primeira defende que, devido à poeira, Marcel não pode ver a bandeira amarela que anunciava uma curva perigosa e passagem de nível à frente. Desse modo, teria entrado demasiado rápido na curva, perdeu o controle do carro, bateu duas rodas no meio-fio e bateu contra uma árvore.

Louis Renault


 
A segunda versão, que parece mais razoável analisando as fotos do carro após o acidente, defende que Marcel teria caído com duas rodas numa vala quando seguia a poeira do Decauville, que pretendia ultrapassar, tendo capotado em seguida, ferindo mortalmente os dois ocupantes do Renault, Marcel e seu mecânico.

Marcel Renault


 
O certo é que Marcel ficou caído na terra, sendo levado mais tarde para o hospital, onde morreria dois dias depois, sem nunca ter recuperado a consciência. Era o dia 25 de maio e ele tinha 31 anos de idade.


 
Chocado com a morte do irmão, Louis Renault nunca mais voltou a pilotar um carro de corrida.
 
Quanto à prova, uma reunião de emergência do Conselho de Ministros em Paris decidiu pela parada da corrida em Bordeaux, com os carros sendo encaminhados para um trem sem sequer serem autorizados a colocar os motores em funcionamento. O vencedor oficial seria o carro mais rápido da primeira etapa, o Mors-Dauphin de Fernand Gabriel, um modelo esportivo de carroceria aerodinâmica, equipado com um motor de quatro cilindros e 11,559 cm, capaz de desenvolver uns expressivos -para aqueles tempos- 70 cv .

Louis morreu em 24 de outubro de 1944, na cadeia, acusado de ter colaborado com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Aguardava julgamento na França libertada no final de 1944 e sua morte aconteceu em circunstâncias incertas. A empresa foi nacionalizada pelo governo provisório da França, embora ele tenha morrido antes de ser julgado; suas fábricas foram as únicas expropriadas permanentemente pelo governo francês.
 
 


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