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BLOG DOS CARUSO: BELLOF, AQUELE QUE ENFRENTARIA SENNA…

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Na Fórmula 1 existem incontáveis histórias de pilotos que não tiveram como exibir seu talento. Ou por estarem em equipes erradas na hora errada, ou por serem vítimas de tragédias. José Carlos Pace, Tom Pryce, Tony Brise… Mas o maior exemplo disso é o alemão Stefan Bellof, que morreu no dia 1 de setembro de 1985, numa prova do Mundial de Marcas. Foi o maior talent perdido da história da Fórmula 1, sem dúvida alguma. Um adversário digno de enffrentar Ayrton Senna, talvez de igual para igual.

Stefan Bellof nasceu em Giessen, Alemanha, em 20 de novembro de 1957, e iniciou a sua carreira no kart. Estreou no Campeonato Junior em 1973, e correu nessa categoria até 1980, obtendo os títulos da Taça Internacional de Kart em Luxemburgo, em 1976, e o Campeonato Alemão Senior, em 1980.

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Em 1979, estreou nos monopostos, obtendo um segundo lugar em Hockenheim numa prova de Fórmula Ford 1600. No ano seguinte, obteve sete vitórias na Fórmula Ford alemã, que lhe valeu um convite para disputar a Fórmula Ford 2000 e a Fórmula Ford Internacional, categoria na qual obteve seis vitórias e o título.

NA FÓRMULA 3

Já em 1981 passou para a Fórmula 3 alemã, obtendo três vitórias e o terceiro lugar na classificação final do campeonato, e isso chamou a atenção do empresário Willy Maurer, que passa a cuidar de sua carreira. Logo no ano seguinte passou para a Fórmula 2 européia, pilotando para a equipe Maurer-BMW. Bellof conseguiu a proeza de vencer suas duas primeiras corridas na categoria, em Silverstone e Hockenheim. Mas os motores BMW não rendiam tanto quanto os Mugen, e Bellof obteve apenas mais um segundo lugar, em Enna Pergusa, e um terceiro lugar em Hockenheim, terminando o campeonato na quarta posição.

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No mesmo ano, estreou na Esporte-Protótipos, disputando o “1000 km de Spa-Francorchamps”, com um Porsche. Apesar de não terminar a corrida, impressionou positivamente os chefes de equipe pela velocidade e constância. Após a boa estréia em Spa, Bellof assinou contrato para a temporada de 1983 com a equipe Rothmans-Porsche, para disputar o Mundial de Esporte-Protótipos, ao mesmo tempo que correria na Fórmula 2 européia pela equipa de Willy Maurer, onde a sua melhor classificação foi um segundo lugar em Jarama.

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Nos protótipos, porém, venceu o “1000 km de Silverstone”, e ainda nas pistas de Fuji e Kyalami. Para coroar a temporada, estabeleceu o recorde de volta definitivo no antigo circuito de Nurburgring, e terminou o campeonato na quarta posição.

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Em 1984, iniciou a temporada da Esporte-Protótipos como um dos favoritos ao título, pilotando para a  equipe Brun-Porsche, e confirmou isso ao vencer as corridas de Monza, Nurburgring, Spa-Francorchamps, Ímola, Fuji e Sandown Park. Com mais um quarto lugar em Mosport Park e um quinto lugar em Brands Hatch, sagrou-se campeão mundial ao final do ano, causando espanto pela rapidez com que atingiu tal nível de competitividade, correndo contra pilotos consagrados como Jacky Ickx, Derek Bell, Hans Stuck e Jochen Mass.

TESTE COM SENNA

O desempenho de Bellof na disputa do Campeonato Europeu de Fórmula 2, aliado às vitórias obtidas pela Porsche no Mundial de Protótipos, valeu um convite de Ron Dennis para testar uma McLaren de Fórmula 1 na pista de Brands Hatch, juntamente com outros estreantes, entre eles Ayrton Senna e Martin Brundle. Nesse teste, impressionou Ron Dennis, pois marcou tempo de volta apenas um décimo inferior ao obtido por Senna, mesmo correndo com uma versão mais antiga do motor Cosworth, ou seja, em desvantagem diante do piloto brasileiro, que utilizou um motor mais novo.

Bellof, com Senna e Brundle.
Bellof, com Senna e Brundle.

Mais adiante, Bellof chegou a ser inscrito em três GPs: Inglaterra e Alemanha, pela ATS, e Europa, pela própria McLaren, mas acabou não participando das provas. Para 1984, o piloto alemão assinou contrato com Ken Tyrrell para disputar o Mundial de Fórmula 1 pela sua equipe. Ali, o seu desempenho no único carro equipado com motores aspirados, com defasagem de mais de 200 cv diante dos motores turbo dominantes na categoria, atraiu a atenção dos jornalistas especializados. Obteve seu primeiro ponto na Fórmula 1 ao terminar em 6º lugar o GP da Bélgica, disputado em Zolder, e conseguiu ainda um 5º na corrida seguinte, o GP de San Marino, em Ímola.

Seu grande desempenho aconteceu no GP do Mônaco, o mesmo que consagrou Ayrton Senna. Mesmo largando na 20ª e última posição e sob chuva forte, o alemão realizou uma corrida repleta de ultrapassagens, incluindo uma  manobra antológica sobre a Ferrari de René Arnoux, no mergulho da curva Mirabeau, e já se encontrava na 3ª posição, aproximando-se dos primeiros colocados, Ayrton Senna -da Toleman- e Alain Prost -da McLaren- ambos com motores turbo, quando a prova foi interrompida, na 32ª volta, em virtude da chuva. Ainda assim, o pódio dividido com Senna exibia ao mundo as novas estrelas da categoria.

SEM EQUIPE

Bellof ainda teve destaque em Detroit, quando estava em 2ª lugar e sofreu um acidente. Porém, um desastre: após essa corrida, a análise do carro do seu companheiro de equipe, Martin Brundle, que terminou a prova em 2º lugar, detectou várias irregularidades, tais como a utilização de lastros e a mistura de componentes proibidos na gasolina utilizada. Desse modo, em uma medida inédita, a FIA suspendeu a tradicional equipe Tyrrell da temporada, desclassificando os seus pilotos de todas as corridas anteriormente realizadas. Bellof, então, passou a se dedicar exclusivamente aos Protótipos.

FIA World Endurance Championship

Ken Tyrrell, desde a morte de François Cevert em 1973, preocupava-se ao extremo com seus pilotos, e não gostou muto dessa história. Stefan Bellof conseguiu convencer Tyrrell a deixá-lo correr no “1000 Km. de Spa”, para enfrentar Jacky Ickx. Era uma pista onde o talento do alemão compensava a menor competividade do Porsche particular da equipe Brun. Por isso Bellof viu nesta participação a oportunidade de lutar pela vitória, algo que na F-1 ainda estava fora do seu alcance, devido às limitações da Tyrrell.

Mas a sua idéia era também derrotar o belga Jacky Ickx na pista e em seu próprio terreno. O mesmo Ickx que, segundo consta, foi o principal responsável pela saída de Bellof da equipa oficial da Porsche, pois o alemão era muito rápido, fora Campeão do Mundo e o belga não aceitava ser relegado ao segundo plano, fazendo valer sua influência junto aos executivos da marca alemã. Naquele dia, a dupla Bellof/Boutsen, do Porsche da Brun, faz grande recuperação, saindo na 23.ª posição e chegando ao segundo lugar, graças ao desempenho do genial piloto alemão. Só faltava a ultrapassagem em cima do grande rival Jacky Ickx.

O FIM

Bellof ousou então a manobra mais arriscada da sua carreira e tentou a ultrapassagem na temida curva Eau Rouge. Ickx recebeu bandeiira azul e mesmo asism mudou a trajetória, deu uma fechada em Bellof e os dois carros tocaram-se. Bellof bateu de frente no muro de retão a mais de 200 km/h. E ali terminou sua história, no dia 1 de setembro de 1985.

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Seu Porsche, depois da fechada de Ickx: morte instantânea.

Stefan Bellof já tinha sido considerado o maior talento perdido da história da Fórmula 1 há alguns anos, em votação promovida pelos jornalistas especializados. Mais recentemente, numa votação em que participaram mais de 200 ex-pilotos de F-1, Bellof obteve o 35.º lugar do ranking dos melhores pilotos de F1 de todos os tempos. Mas, talvez ainda mais significativo seja fato de que, na opinião de mais de 70% dos ex-pilotos que votaram e deixaram a sua opinião, Bellof merecia uma posição ainda mais alta no ranking dos melhores pilotos da história. E isso tudo sem ter tido tempo para ganhar um único GP e tendo como melhor resultado oficial um quarto lugar no GP dos EUA, disputado em Detroit em 1985.

Bellof, por dentro, vai ultrapassar Ickx. Segundos depois, o acidente fatal.
Bellof, por dentro, vai ultrapassar Ickx. Segundos depois, o acidente fatal.

Bellof tinha tudo para ser o primeiro campeão almão da Fórmula 1, muito antes de Schumacher. Foi o único piloto a vencer as duas primeiras corridas de F-2 em que participou. É dele até hoje o recorde do circuito de Nurburgring, onde consta que bateu Keke Rosberg em um carro idêntico por cerca de 30 segundos. Na classificação para o “1000 Km de Silverstone”, colocou 2 segundos nos seus adversários, sendo um deles Jacky Ickx. Enfim, poderá existir até mesmo exageros em alguns dos feitos atribuidos a Stefan Bellof, mas o que ninguém pode negar é o seu enorme talento. Seria um adversário e tanto para Ayrton Senna.

NA HISTÓRIA

Quando estava ao volante, Bellof mostrava o mesmo tipo entusiasmo de pilotos como Jochen Rindt, Ronnie Peterson ou Gilles Villeneuve. O seu estilo de condução era realmente rápido, espetacular de acompanhar. Como Villeneuve, tinha coragem sem limites, mas sabia respeitar os limites do carro muito mais que o canadense. No seu primeiro teste com um F-1 foi em 1983, Senna foi ligeiramente mais rápido pois andou com um motor uma geração mais nova, e Bellof andou com um bastante rodado. Pelos cálculos da McLaren, considerando as diferenças entre os motores, Bellof foi mais impressionante do que Senna, e ambos foram mais rápidos do que Brundle, outro jovem de grande talento.

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Bellof causou espanto na F-1 pela forma como pilotava o Tyrrell, sempre no limite, e pelas corridas de recuperação que fazia com um carro que não usava motor turbo. A história mostra que nem Ayrton Senna resistiu a várias manobras de ultrapassagem do alemão.

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A grande corrida da sua vida foi naquele GP de Mônaco, onde a chuva permitiu ao alemão e a Senna mostrarem-se ao mundo. Quando preparava-se para discutir a vitória com Ayrton Senna e Alain Prost, Jacky Ickx resolveu salvar o francês (muito mais lento do que os jovens estreantes) de uma derrota certa e humilhante. Segundo a equipe Toleman, a suspensão do carro de Senna estava no limite, por causa de um erro do piloto na chicane, quando perseguia Rosberg. Por isso, a vitória na pista seria de Bellof. Mas a história não quis assim. Ironicamente, como os Tyrrell foram desclassificados do campeonato de 1984, a atitude de Jacky Ickx teve efeito contrário ao pretendido e Prost acabou perdeu o campeonato por meio ponto para Niki Lauda, pois os pontos do GP de Mônaco foram contados pela metade, e fizeram fallta ao francês.

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Em 1985, quando Senna venceu pela primeira vez, Bellof alcançou um sexto lugar em Estoril, piotando quase toda a prova com um Tyrrell desequilibrado e sem a asa dianteira. Em Detroit terminou em quarto lugar sem a parte dianteira da carroceria. E o resto é história…


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