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Buick Reatta, o incompreendido

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Se na música os anos 1980 não foi um período nada memorável, na indústria automotiva foi pior ainda, afinal nada de muito proveitoso foi criado naquela década, nem em música e nem em carros, com honrosas exceções. Quase nada se tornou clássico naquele período.

A boa sequência de carros inesquecíveis nos Estados Unidos começou no pós-guerra com o delicioso exagero dos anos 1950, se desenvolveu nos anos 1960 e só parou na crise do petróleo dos anos 1970. Depois disso, até Detroit passou a fabricar carros pequenos.

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Mesmo assim, foi a época em que surgiu o interessante Buick Reatta, desenhado por Chuck Jordan e lançado em 1988, que foi o primeiro modelo da marca com dois lugares desde 1940, quando foi apresentado o Buick Model 46. O Reatta também foi o último dos Buick com essa configuração. Se os anos 1980 não foram clássicos, pelo menos deram vazão a várias idéias criativas, que não se tornaram sucesso de vendas e nem entraram para a história.

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O Buick Reatta relançava o conceito que existia por trás da linha Riviera, ou seja, marketing baseado na sofisticação e exclusividade, apontando direto para o que os norte-americanos entendiam por “personal luxury” (luxo pessoal). Se o Riviera, que havia sido lançado em 1963, já tinha perdido seus atributos e até dividia carroceria com o Oldsmobile Toronado e o Cadillac Eldorado, o Reatta chegava esbanjando exclusividade entre os Buick.

DO CONCEPT

O projeto do carro começou junto com a década de 1980, e era norteado por um carro mais esportivo e ousado que o Regal. A base do trabalho foi o concept car Wildcat, de 1985. O nome já era tradicional na GM, pois havia sido usado em dois outros conceitos, o Wildcat I (1953) e o Wildcat II (1954), além de um modelo de série feito de 1962 a 1970.

Wildcat Concept, de 1988.
Wildcat Concept, de 1988.

O concept tinha frente e pára-brisa bem inclinados, o que não foi usado no Reatta, mas apresentava detalhes de estilo que foram aproveitados, como os faróis retangulares bem estreitos, o perfil da carroceria e a inclinação das colunas traseiras com seu vidro envolvente.

O Reatta não poderia ter a porta de clara inspiração aeronáutica do Wildcat, que ocupava toda a porção central do carro. A carroceria também não seria de fibras de vidro e de carbono, por razões de custo. Já o motor V6 de 230 cv, tração integral permanente, câmbio automático de quatro marchas e freios a disco ventilados nas quatro rodas eram mais razoáveis. A Buick pesquisou o carro entre executivos na faixa dos 40/50 anos para finalizar o projeto.

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A pesquisa indicou que a idéia do Reatta, com aparência esportiva, ágil e bem acabado, agradou, mesmo não sendo o modelo um exemplo de desempenho. Visual, exclusividade, conforto e segurança ganharam destaque, em detrimento de velocidade máxima e acelerações espantosas, que sempre pesaram mais. E assim o Buick foi lançado, no começo de 1988, focado no bom acabamento e na exclusividade. O modelo conversível ainda não estava pronto.

DETALHES

O nome Reatta veio do espanhol “laço” ou “nó. O carro tinha lanternas grandes e horizontais na frente, faróis escamoteáveis, alguma semelhança com o concept nas colunas dianteiras recobertas pelos vidros, enquanto as traseiras eram convencionais. Na traseira, o conjunto ótico era estreito e atravessava toda a área de maneira  horizontal. Acima das lanternas, o nome “Buick”. Tudo muito equlibrado e futurista. O carro tinha traços simples e atuais, lembrando alguns modelos japoneses.

O painel do Wildcat era revolucionáro, mas o do Reatta não. Era exatemente o mesmo do Riviera. O volante era de três raios e o grupo de instrumentos tinha o avançado para a época Electronic Control Center, tela touchscreen que controlava o som, ar condicionado e outras funções.

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Banco traseiro? Nem pensar, nem mesmo para compor o estilo 2+2 dos esportivos. Ali, na traseira, estava apenas algum espaço para bagagens. Uma tampa dava acesso ao porta-malas a partir do interior do carro. Poucos opcionais eram disponíveis, como bancos com acionamentos elétricos para o motorista, bancos de couro e teto solar elétrico.

O Reatta tinha 4,65 metros de comprimento,  1,85 m de largura e 1,30 m de altura. A plataforma era a mesma do Riveira, com tração dianteira e entre-eixos reduzido para 2,50 metros; o carro era pesado, com 1.525 kg. O motor era o 3.8V6 com comando de válvulas no bloco, 165 cv de potência máxima e torque máximo de 29 mkgf. Usava ainda injeção multiponto sequencial e eixo de balanceamento, para dar a suavidade de funcionamento que seus compradores esperavam. O câmbio era automático de quatro velocidades.

CONFORTO

As suspensões também eram convencionais em certos aspectos e avançadas em outros. Usava sistema McPherson na frente e, na traseira, um feixe de molas transversal de material sintético, herança dos Corvette. Os freios eram a disco nas quatro rodas, com os dianteiros ventilados, mais ABS. O conjunto de rodagem trabalhava com rodas de alumínio de cinco raios aro 15 e pneus 215/65.

O carro fazia de zero a 100 km/h em 9,8 segundos, muito bom para a época. Era macio, confortável e fácil de dirigir. Apesar de boas caracterítsicas, as vendas não foram um sucesso. A GM esperava vender 20 mil carros no primeiro ano, mas apenas 4.708 Reatta deixaram as concessionárias naquele primeiro ano.

No ano seguinte, 1989, os bancos passaram a ser oferecidos apenas revestidos de couro, e o travamento das portas passou ser remoto. Mais um ano, e em 1990 o Reatta conversível foi lançado. Fazia cinco anos que a Buick não tinha um conversível em catálogo. Esse novo modelo custava 25% a mais que o cupê. A capota de tecido tinha abertura manual e vidro traseiro com desembaçador elétrico. Airbag para o motorista entrou na lista de opcionais, o volante mudou e a tela touchscreeen deu lugar a comando convencionais. Os instrumentos foram reprojetados e passaram a ser digitais, mas imitando os analógicos.

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A Buick estava feliz da vida e apostava que metade das vendas do Reatta seriam de conversíveis. Errou de novo. Em 1990 foram 8.515 carros somando os dois modelos, dos quais apenas 2.132 eram conversíveis.

O FIM

Para 1991, mais 5 cv no motor, câmbio com controle eletrônico para maior suavidade de funcionamento e rodas aro 16. Não adiantou nada. O Reatta conversível custava mais do que dois Mazda Miata, então um sucesso no mercado norte-americano. Por isso, foi o ano final do modelo.

Até maio de 1991, quando o Reatta saiu de fabricação, foram vendidos apenas 21.850 unidades, 10% delas conversíveis. Para uns, foi só mais um fracasso de vendas, para outros, erro da área de marketing, que tentou inventar um nicho de mercado na hora errada.

Para os fãs da marca, nada importa. Para eles o Reatta merece um lugar na história, por ter pelo menos tentado romper os padrões da época, os sonolentos anos 1980. Pela exclusividade, baixa produção e raridade, o último dos Buick de dois lugares pode estar com destaque em qualquer coleção, como símbolo de criatividade numa época que deixou pouca saudade.

 


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