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CARROS HIBRIDOS: UMA NOVIDADE COM 120 ANOS!

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— Renato Pereira, especial para AUTO&TÉCNICA

A tendência chegou, e chegou com força! Na era do ecologicamente correto, a novidade que vem impactando o mercado automotivo são os carros híbridos, a salvação contra a poluição, aquecimento global, esgotamento das fontes de petróleo e tantas outras explicações que a mídia cria a cada novo modelo que chega ao mercado. Chevrolet Volt, Toyota Prius, BMWi8, Ford Fusion Hybrid, Porsche 918 Spyder, Honda Accord… A lista não para de crescer dia a dia. Bacana, o mundo anda mesmo precisando de novidades que ajudem a humanidade a ter uma vida melhor. Mas, espere: novidades? onde? Como sempre dizemos, na indústria automotiva nada é efetivamente novo desde a invenção do automóvel, no máximo temos projetos requentados empregando novos materiais e tecnologias, e os carros híbridos não fogem a regra. Vamos conferir? 

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O conceito HEV –Hybrid Electric Vehicle (Veículo Elétrico Hibrido)– é um veículo que combina um ICE –Internal Combustion Engine (Motor de Combustão Interna)– convencional (gasolina, diesel ou etanol) com um EPS, Electric Propulsion System (Sistema de Propulsão Elétrico). Isso nós já sabíamos, certo? Assim como também sabemos que o objetivo de se unir duas tecnologias distintas em um mesmo powertrain, termo que descreve o sistema que move um veículo. No caso as baterias, o motor a combustão, o motor elétrico, a transmissão e o KERS (Kinetic Energy Recovery Systems, ou Sistema de Recuperação de Energia Cinética, que converte a energia cinética gerada pelos freios do veículo em energia elétrica para carregar as baterias são elementos do powertrain dos carros híbridos. Tudo muito técnico? Então estamos no lugar certo, afinal esta matéria é para a AUTO&TÉCNICA!

Pois é. Todo esse conceito, todo esse sistema é muito bacana, muito bonito, muito interessante e muito, muito antigo. Nada do que foi explicado até aqui é atual, pelo contrário, lá se vão 120 anos desde que o Armstrong Phaeton 1896, o primeiro veículo realmente híbrido, foi produzido. E isso quatro anos antes do Lohner-Porsche Mixte Hybrid “Semper Vivus” de 1900, que utilizava motores elétricos montados em cada cada cubo de roda, alimentados por um motor a gasolina que gerava a carga das baterias. Não bastasse o Armstrong ser o pioneiro neste sistema de propulsão, ainda trazia, de quebra, o primeiro motor de partida elétrico (16 anos antes do Cadillac), o primeiro sistema de transmissão semi-automática (com a embreagem acionada eletricamente) e o primeiro sistema de recuperação de energia dos freios!

O Armstrong Phaeton 1896 nasceu assim: Harry E. Dey era um apaixonado por motores elétricos e iniciou o projeto de seu carro, em conjunto com a Rogers Motors Carriage Company, importadora de carros da França que queria fazer engenharia reversa e montar seus próprios modelos nos Estados Unidos (é, essa tática industrial também não é novidade…), porém mantendo o motor a combustão. Implacável, Dey forçou a motorização elétrica, e o resultado foi a mistura dos dois mundos. Desenvolveram um motor bicilindrico a gasolina com 6,5 litros acoplado a um dínamo multifuncional alimentado por baterias. Parado, o sistema elétrico servia, entre outras coisas, como motor de partida, eliminando a manivela de acionamento do motor a gasolina; em movimento, o sistema elétrico funcionava como um gerador, carregando as baterias e proporcionando a ignição, energia para a iluminação, regenerava a energia nas frenagens e era capaz de impulsionar o carro sozinho, em distâncias limitadas. Um solenóide controlava as válvulas de admissão do motor a gasolina, auxiliando a partida, e uma impressionante embreagem eletro-magnetica acionava a transmissão de três marchas para a frente e uma a ré.

O chassi tubular também servia como escapamento dos gases do motor, e o silencioso era um elemento estrutural transversal da parte traseira. Para construir o carro, a empresa escolhida foi a Armstrong Manufacturing Company, em Bridgeport, Connecticut. Assim foi fundada em 1869 a Horseless Carriage Company, e chegou ao mundo, então, o único Armstrong (em homenagem ao fabricante) Phaeton (Phaeton é a designação de uma carruagem aberta esportiva, popular no final do século XVIII e início do XIX, para ser puxada por um ou dois cavalos, com carroceria pequena e leve, montada sobre quatro rodas enormes). Estas características faziam com que a carruagem fosse muito rápida e perigosa, batizada como Phaeton em referência ao filho de Hélios, que quase colocou fogo na Terra ao “pilotar” sua Carruagem de Sol na mitologia), que atingia impressionantes 35 km/h. E ficou por aí, uma vez que o final do século 19 foi extremamente tumultuado, havia muito pouco dinheiro e as portas da empresa foram fechadas.

Harry E. Dey ficou sem seu Armstrong Phaeton 1869, mas não desistiu de suas ideias, fundando a Dey Eclectric Corporation em sociedade com Charles Steinmetz, oriundo da General Eletric de John P. Morgan, e produziram carros elétricos entre 1917 e 1919, ano em que construiu outro híbrido, com um motor a gasolina arrefecido a ar com 3 cv de potência, cuja função era recarregar as baterias de acionamento do motor elétrico de 2 cv de potência.

Este motor a gasolina podia ser retirado do carro e utilizado como uma unidade estacionária para a alimentação da iluminação da casa, por exemplo. Sim, foi um projeto revolucionário, atualmente batizado como Plug-In, que na época não deu em nada porque um tal de John D. Rockfeller estava empenhado em usar seu petróleo para dominar o mundo (e conseguiu por mais de um século…), fazendo com que o conceito do carro elétrico entrasse em declínio. Ninguém queria ouvir sobre híbridos e só agora as atenções da indústria automotiva se voltaram para este sistema. Com um século de atraso. E dizendo que é tudo novo.


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