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Cupê-cabriolet: criação de um dentista herói de guerra

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Olhe bem para a foto abaixo e responda: de onde saiu esse carro?Ao contrário do que se pode imaginar, a origem dos cupês-cabriolets, recurso batizado de Eclipse, não foi no departamento de desenho da Peugeot, muito menos na oficina de um “carrozziere” italiano. Esse modelo nasceu na garagem de um dentista, chamado Georges Paulin. Foi lá, no começo dos anos 1930, que Paulin aproveitou seu tempo livre -entre uma boca aberta e outra- para trabalhar num sistema inovador de teto retrátil e elétrico. Uma inovação que virou moda décadas mais tarde, no início do século XXI.

Peugeot Eclipse: O coupé-cabriolet dos anos 30



Ao constatando que as capotas de tecido dos cabriolets e conversíveis não ofereciam as melhores garantias de impermeabilidade e resistência, Paulin, projetou e concebeu um sistema que permitisse andar de cabelos ao vento no calor, sem perder as virtudes de uma carroceria fechada nos dias de chuva. O resultado foi apresentado a Marcel Pourtout, que realizou um primeiro protótipo deste teto baseado num Hotchkiss, em 1933.

Emile Darl’Mat, concessionário Peugeot, acreditando no potencial de tal sistema, enviou alguns chassis de 301, 401 e 601 para as oficinas de Pourtout. Mas, foi no Salão de Paris de 1934 que o sistema começou a ganhar notoriedade, com a apresentação dos modelos 401 Eclipse e 601 Eclipse, entretanto integrados na linha Peugeot.


Até o escritor e cineasta, Marcel Pagnol, seduzido pelo conceito, encomendou um 601 Eclipse, mas com estilo único e particularmente moderno para a época, graças à integração dos para-lamas na carroceria. Tal como o teto retrátil, as linhas inovadoras e exclusivas do 601 Eclipse eram da autoria de Georges Paulin, que se tornara cada vez menos dentista e cada vez mais designer.


Em 1935, o novo Peugeot 402 inaugurava um novo estilo aerodinâmico (“Fuseau Sochaux”), inspirado no Chrysler Airflow, e cuja principal característica era a colocação central dos faróis dianteiros, atrás da grade. O sistema Eclipse correspondia bem à filosofia futurista do estilo do 402. Assim, além das versões mais comuns, a Peugeot oferecia ainda uma versão Eclipse. Consciente do preço particularmente elevado desta versão, a Peugeot acabou por substituir o sistema elétrico por um sistema manual, mais barato.

O 402, inspirado no Chrysler Airflow.


Mas com a Segunda Guerra Mundial, as fábricas foram reconfiguradas para a economia de guerra e produção de material militar, interrompendo-se assim a produção do 402 Eclipse, depois de 580 exemplares construídos, dos quais apenas 80 com sistema elétrico de acionamento do teto.

Georges
Georges Paulin, 1902-1942.



Depois da guerra, o sistema Eclipse ainda foi adoptado em alguns automóveis americanos, na década de 1950, mas foi sobretudo no início deste século que o recurso ganhou novo fôlego, pois os tetos já se dobravam e desdobravam de várias maneiras, tornando-os mais adaptados às dimensões dos automóveis atuais.

O Mercedes SLK, ainda em 1996, atualizou o conceito, o Peugeot 206 CC democratizou-o em 2000, e pouco tempo depois, a maioria das marcas já tinha o seu cupê-cabriolet. Hoje em dia, a moda já passou, equipando apenas o Ferrari Portofino no mercado.


Por seu lado, Georges Paulin viu a sua carreira de designer “eclipsar” (desculpe o trocadilho) a sua carreira de dentista. E se as relações com a Peugeot azedaram, devido à redução de pagamento de royalties após o lançamento do 402 Eclipse, a parceria de Paulin com Pourtout continuou, originando modelos como o 302 Darl’Mat, o Bentley Corniche Vanvooren e, em especial, o Delage D8-120 Sport (abaixo), um dos mais belos exemplos de obra de arte automotiva. Nada mal para um desenhista amador. Um trabalho seu pouco conhecido é o Lancia Belna (um Lancia Augusta fabricado na França), que também se beneficiou do sistema Eclipse, a partir de 1934, ainda antes do Peugeot 402.

Delage D8-120 Sport


Infelizmente, a promissora carreira de designer de Georges Paulin, foi igualmente interrompida pelo conflito mundial. Inconformado com a ocupação alemã da França, Paulin abriu um consultório dentário, que na realidade não passava de uma fachada que escondia uma rede de resistência contra os nazista. Acabou detido e torturado pela Gestapo durante quatro meses, durante os quais se recusou a fornecer qualquer informação.

Foi fuzilado em 1942, aos 40 anos de idade. Com o regresso dos tempos de paz, foi condecorado com títulos póstumos: a Croix de Guerre e a Médaille de la Résistance, do governo francês.

COACHBUILD.com - Pourtout Lancia Belna Eclipse 1934
Lancia Belna 1934



Assim, o sistema Eclipse ganha ainda mais importância na história do automóvel, por ter sido inventado não por um simples dentista, mas sim por um herói.

Ici vécut Georges Paulin: Ingress portal



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