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E 102 anos depois, a Ford dá adeus ao Brasil

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Recentemente, a Mercedes-Benz encerrou sua pequena produção de automóveis no Brasil. Agora foi a vez da Ford, que anunciou que irá frear a produção de veículos em suas fábricas no Brasil, após um século de atividade. E anote: outras fábricas irão parar a produção no Brasil. A ex-gigante já tinha se desfeito da fábrica de São Bernardo do Campo (SP) e ainda mantinha unidades em Camaçari (BA) e Taubaté (SP) para modelos Ford, e em Horizonte (CE), para os Troller.

A Ford, mesmo carente de produtos (só estava produzindo o Ka e Ecosport np Brasil), fechou o ano de 2020 como a quinta empresa que mais vendeu carros no País, com pouco mais de 7% do mercado.

No ano passado, a Ford vendeu 119.454 automóveis no Brasil, segundo a Anfavea. O resultado representa queda de 39,2% na comparação com 2019, perda maior que a observada em todo o segmento de automóveis.

Por aqui, o primeiro impacto da reestruturação da marca foi sentido em 2019, com o encerramento depois de 52 anos de atividade da produção na fábrica de São Bernardo do Campo (SP). A unidade foi vendida no final de 2020 para a Construtora São José e FRAM Capital.

Com isso, a marca deixou de vender no Brasil o Fiesta, um de seus modelos de maior sucesso, e abandonou o mercado de caminhões na América do Sul. Logo depois deixou de trazer o excelente Focus, que era feito na Argentina. A fábrica do ABC paulista empregava 2.350 funcionários e, apenas 1000, da área administrativa, foram mantidos.

Mas não vai desaparecer de vez, pois continuará comercializando produtos aqui no Brasil. Eles serão importados na maioria da Argentina e do Uruguai. Os problemas com os concessionários serão grandes e são previstas multas milionárias nesses casos. Por outro lado, a Ford afirmou que todos os clientes seguirão com assistência de manutenção, peças e garantia. Todos dizem isso, mas raramente se cumpre.

Das instalações atuais, será mantido o Centro de Desenvolvimento de Produto, na Bahia, além do Campo de Provas de Tatuí (SP), já ocioso, e da sede administrativa para a América do Sul, em São Paulo.

Em carta dirigida aos concessionários, a marca afirmou que “desde a crise econômica de 2013, a Ford América do Sul acumulou perdas significativas” e que a matriz, nos Estados Unidos, tem provido auxílio na composição das necessidades de caixa, “o que não é mais sustentável”.

Por meio de um comunicado divulgado para a imprensa, a Ford afirmou que a decisão foi tomada “à medida em que a pandemia de Covid-19 amplia a persistente capacidade ociosa da indústria e a redução das vendas, resultando em anos de perdas significativas”. Na verdade essa é pelo menos a terceira tentativa da Ford em abandonar a fabricação no Brasil: as duas primeiras nos períodos imediatamente anterior e posterior à Autolatina, e a terceira, agora.

“Essa decisão foi tomada somente após perseguirmos intensamente parcerias e a venda de ativos. Não houve opções viáveis”, concluiu a carta dirigida aos revendedores.

A montadora cita ainda entre a cantilena de motivos, a recente desvalorização das moedas na região da América do Sul, que “aumentou os custos industriais além de níveis recuperáveis”, e citou a pandemia e a linhas de produção ociosas, “com redução nas vendas de veículos na área, especialmente no Brasil”. Claro que para isso contribui a instabilidade política e econômica enfrentada pelo nosso País, sem nenhum alento no horizonte.

A Ford tem 6.171 funcionários no Brasil: em Taubaté, 830 serão demitidos, enquanto a fábrica de Horizonte emprega 470 pessoas, que também irão amargar a fila do desemprego. Aproximadamente 5 mil empregos diretos serão perdidos com a reestruturação da empresa no Brasil e na Argentina. A moderna unidade de Camaçari, onde eram feitos Ka e EcoSport, e a de Taubaté, onde eram feitos motores e transmissões, serão fechadas imediatamente, reduzindo sua produção às peças para estoques. O país vizinho sofrerá ajustes, mas continuará produzindo veículos. Ou seja: já saíram de linha o Ka e Ecosport, que tinham desempenho razoável de vendas. As vendas encerram com o fim dos estoques nas concessionárias. E no final do ano, é a vez do Troller dar adeus.

Assim, a Ford garante que passará a oferecer apenas modelos importados, em especial da Argentina e Uruguai, além de outras regiões fora da América do Sul, como México, Estados Unidos e China. Com o dólar nas alturas, deverão vender apenas em certos nichos; a montadora confirmou mais uma vez a chegada dos novos Transit, Ranger, Bronco e Mustang Mach1.

De acordo com a marca, o fechamento das fábricas no Brasil é outro passo adiante em seu processo de reestruturação global. “A Ford está presente há mais de um século na América do Sul e no Brasil, e sabemos que essas são ações muito difíceis, mas necessárias, para a criação de um negócio saudável e sustentável”, afirmou Jim Farley, chefão da Ford.

O plano de reorganização da empresa também afetou outros países. Foram fechadas unidades de produção na Austrália, após 91 anos de atividades naquele país. Na França, fechou a fábrica de Blanquefort e, na Europa e Estados Unidos, a montadora anunciou em 2019, pesadas demissões.

Em termos racionais, é isso. No aspecto emocional, a primeira fábrica de automóveis do Brasil foi da Ford. Em 1º de maio de 1919, a marca inaugurou uma unidade na Rua Florêncio de Abreu, no centro de São Paulo. Ali era produzido o Ford T, com peças importadas e montagem feita aqui. As memórias e lembranças são muitas para os brasileiros. Uma pena…


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