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Escândalo VW: qual o futuro da empresa?

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Quando você corrompe, é corrompido, furta, rouba, frauda ou comete qualquer irregularidade, deve estar preparado e ciente de que o risco de ser pego é muito grande. Isso vale também para a indústria automotiva, sempre sedenta atrás de lucros, muitas vezes a qualquer preço.

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Não resta nenhuma dúvida de que as estruturas da Volkswagen estão abaladas e serão necessárias grandes mudanças após o escândalo das emissões que tem estado na mídia em todo o mundo. Mídia negativa e indesejável, diga-se de passagem.

A marca já esteve envolvida em outros escândalos, regados a bebidas e prostitutas, pagos com dinheiro dos acionistas. Em 2012, por exemplo, uma brasileira sentou no banco dos réus de Wolfsburg. A Adriana Barros, então amante do antigo presidente do comitê da empresa, Klaus Volkert, foi acusada de cumplicidade em desfalque em 26 casos.

Mas nada se compara ao que está acontecendo hoje, pois coloca em risco a estabilidade e saúde financeira da empresa. AUTO&TÉCNICA optou pela cobertura ampla desse escândalo, por considerar extremamente grave e de interesse geral e por envolver um modelo (Amarok) a venda no Brasil. Além disso, respeitamos nosso compromisso de levar informação ao leitor, a base do bom jornalismo.

Algumas perguntas precisam ser respondidas, passados alguns dias do dieselgate ter ganhado o mundo.

Por que VW fraudou os testes nos Estados Unidos?

Segundo especialistas, a causa disso é meramente comercial. Cumprir as regras da EPA não só custaria caro, como iria aumentar os consumos dos motores diesel usados no Golf, Jetta e Beetle, diminuindo o desempenho. E isso é importante nos Estados Unidos. Os carros da VW não são exatamente campeões de vendas naquele país e competem numa faixa do mercado onde baixo consumo e bom desempenho são vitais, pois o diesel não é exatamente o combustível preferido por lá. Se um consumidor aceita comprar um carro a diesel, porque garantem que é mais ecológico, espera consumo baixo que não prejudique o desempenho. Se fossem carros mais caros, como Mercedes, BME e a também envolvida Audi, a exigência em termos de consumo seria menor.

O que a Volkswagen vai vender agora nos Estados Unidos?

Isso vai depender e muito da nova homologação e certificação do motor EA189, o 2.0 TDI. Como será o comportamento desse motor nos testes sem o sistema de fraude? Alguns engenheiros acreditam que passarão sem problemas pelos testes, mas mais beberrões. De acordo com esses técnicos, o motor EA189 possui um filtro de NOx que armazena o óxido de nitrogênio que, depois, é queimado, num ciclo regular. É uma tecnologia conhecida, amplamente usada por várias marcas e que sempre funcionou bem. O BMW X5 que a Universidade da Virgínia testou na “vida real” e identificou a fraude da Volkswagen, estava equipado com esse sistema e passou pela avaliação sem problemas. Portanto, se a VW conseguir passar nos novos testes da EPA e certificar o motor, tudo ficará mais tranquilo nesse aspecto.

Mas não é só uma questão técnica. A sua imagem está irremediavelmente manchada. Até chegar aos níveis normais de comercialização, a VW terá investir muito, mas muito mesmo, em publicidade e treinamento de vendas para manter a confiança do público em seus motores a gasolina. Ou seja, seu pessoal do marketing vai ter que esquecer o diesel e pensar como os norte-americanos: gasolina!

Outra opção pode passar pelos modelos híbridos do grupo VW -como Golf GTE ou o Passat- reduzir drasticamente seus preços e levá-los o mais rápido possível para serem produzidos nas fábricas do grupo no México e no Tennessee e talvez até no Brasil, para exportação. Infelizmente, o “rápido” nesse caso é subjetivo, pois criar uma cadeia de fornecedores e instalar a linha de produção de novos modelos, com novo ferramental, levará entre 18 e 24 meses. E esse tempo a VW não tem.

A tecnologia híbrida é muito cara e os preços altos iriam atingir as vendas da marca. Resta ao grupo VW assumir o prejuízo, mas vender abaixo do preço de custo é crime nos Estados Unidos, e aí ela estaria encrencada de novo. Investir nos modelos da Audi seria um desastre ainda maior, pois a marca vende muito pouco nos Estados Unidos.

Ou seja, o prejuízo está estabelecido por conta da aldrabice alemã, como dizem os portugueses. “Se ficar o bicho pega, se correr o governo dos Estados Unidos come…”.

Vale a pena fazer recall dos modelos e repara-los?

Como a reparação dos modelos equipados com o sistema fraudador vai afetar os carros é algo que não se sabe ainda. A única certeza é que os custos de um recall na dimensão em que está a situação custará alguns bilhões de dólares. Isso mesmo, bilhões. Terá a marca folego para gastar tanto dinheiro e eliminar o programa fraudador desses carros, num momento em que os consumidores europeus e norte-americanos não querem ouvir falar de Volkswagen e nem de diesel? Técnicos garantem que não e que seria  melhor a VW olhar, como  falamos antes, para os seus modelos com motores a gasolina. Vai ser caro e difícil empurrar os carros do Grupo goela abaixo do consumidor norte-americano, mas a única opção parece mesmo focalizar nos modelos a gasolina.

Qual a repercussão desse escândalo para os modelos diesel na Europa?

Nos Estados Unidos, o mercado dos carros a diesel representa apenas 3% da totalidade das vendas, mas na Europa significa 53%. Não é exagero afirmar que a Volkswagen liquidou os carros a diesel nos Estados Unidos. Sem contar a contribuição negativa para o meio ambiente e para sua própria imagem, temas levados a sério pelos norte-americanos. Se os Estados Unidos se preocupam com o NOx, a Europa se incomoda com o CO2. Por isso, é provável que não haja repercussão na Europa na mesma proporção que está acontecendo nos Estados Unidos. Mas tanto de um lado do Atlântico quanto do outro, os lobbies políticos que lutam contra o diesel ganham argumentos de peso.

Em termos de emissão de CO2, os motores a diesel são melhores, mas existem muitos outros gases que são emitidos por esses motores que são cancerígenos, mas que não preocupam os europeus. Isso porque a preocupação é apenas com a emissão de CO2, com valores exigidos para homologação que beiram o ridículo. Pão-duros notórios, os europeus apenas se preocupam com o quanto vão economizar na hora de abastecer e no maior número de km/litro indicados nos computadores de bordo. É o famoso tiro no pé a longo prazo…

Estarão os motores a gasolina da VW também fraudados?

Essa é uma pergunta ainda sem resposta. Por enquanto foram raros os casos de fraudes com motores a gasolina de qualquer marca, e talvez nenhum tenha este tipo de dispositivo, a não ser para melhorar índices de consumo. Há 20 anos a Fiat foi pega de calças curtas no Brasil fraudando emissões. A época era mais “maleável” e a empresa se safou pagando uma multa de US$ 10 para cada um de seus 300 mil carros adulterados. Hoje a história seria diferente. É natural que o escândalo VW faça as autoridades de vários países sérios incrementarem o nível de investigação sobre todos os motores, independentemente do combustível. No Brasil espera-se a investigação da pickup VW Amarok, que usa o motor fanfarrão. O Ibama já colocou a empresa sob suspeita.

Existe fraude nas homologações no Euro6?

O sistema  de software fraudador usado pela VW era antigo e fala-se que surgiu em 2007. Hoje a sofisticação tecnológica torna sem sentido um sistema daqueles. Mas é bem possível que a VW ou outra fábrica tenha criado outros dispositivos para conseguir homologar seus carros no Euro6. Os departamentos de pesquisa e desenvolvimento de cada construtor que quer vender carros na Europa tem se empenhado em retirar a maior energia possível de cada gota de combustível, celebrando cada grama de CO2 reduzida. Por isso, com certeza autoridades europeias irão reforçar os procedimentos para os testes de homologação.


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