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Eu, o JAC T40 e um mês de “Uber”

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Os transportes por aplicativo -em especial Uber, 99 Taxi e Cabify- são realidade em boa parte do mundo. Auxiliam tanto as empresas operadoras, como seus motoristas-parceiros e, principalmente o usuário. Para isso, oferecem uma excelente alternativa aos tradicionais táxis, com tarifas mais baixas (até 50% menores), maior comodidade, carros quase sempre melhores e praticidade, muita praticidade. No Brasil os taxistas reclamam da concorrência, mesmo comprando carros com descontos exagerados, pagando menos IPVA, não ligando ar condicionado para economizar combustível e raras vezes tentando ser simpáticos…

Mais importante que tudo isso, o transporte por aplicativo é o embrião, a médio prazo, dos carros autônomos. A plataforma usada hoje vai evoluir em breve, e isso será inevitável. O futuro acena com carros elétricos, compartilhados e autônomos, devidamente conectados.

Para conhecer um pouco desse mundo, AUTO&TÉCNICA passou um mês trabalhando como “motorista de aplicativo”. A preparação exigiu alteração na CNH, onde deve constar “EAR – Exerce Atividade Remunerada”. Tem que ir ao Detran ou Poupatempo (SP), pagar uma taxa de R$ 40 reais, fazer exame psicotécnico (mais R$ 100 reais) e aguardar uns dias. Com isso resolvido, você escolhe a empresa, se inscreve e aguarda a aprovação ou não. Optamos pelo 99 Taxi, fomos aceitos e então partimos em busca de um carro. A JAC Motors topou de imediato ceder o carro por um mês, no caso um SUV T40, câmbio manual e na cor laranja.

E assim trabalhamos como motorista de aplicativo de 4 de dezembro a 4 de janeiro. Criamos alguns parâmetros: limites de R$ 50 por dia de etanol, cinco horas trabalhadas direto, 150 km rodados ou R$ 150 de ganho (o que significava R$ 100 de lucro, não contando o desgaste do carro). Há motoristas que fazem R$ 300 por dia, rodando 10 ou 12 horas e invadindo a noite. Outros fazem “puxadas” de 24 horas, uma loucura, para ganhar R$ 600 ou R$ 700. Outra decisão nossa foi jamais trabalhar após as 20 horas, pois o perigo se multiplica e são vários os casos de motoristas assaltados depois que sol se põe. Trabalhamos os 30 dias seguidos, incluindo Natal e Ano Novo, o que significou no final cerca de 600 litros de etanol consumidos (em torno de R$ 1500 reais), 150 horas trabalhadas, R$ 3000 de lucro e 4500 km rodados.

Uma curiosidade. Da mesma forma que goma de mascar virou chiclete, e lâmina de barbear é gilete, transporte por aplicativo virou “uber”, mesmo que seja 99 Taxi ou Cabify. Todos vão te chamar de “uber”…

O CARRO

O SUV T40 com câmbio manual tem motor 1.5 e custa a partir de R$ 59,9 mil. Com câmbio CVT e motor 1.6, custa R$ 10 mil a mais. Nos dois casos, a relação custo/benefício é interessante.

O motor 1.5 tem 127 cv e 15,7 mkgf, e ficou reservado para o modelo manual. É bem equipado, com ar-condicionado, bancos revestidos de couro sintético, computador de bordo, cruise control, faróis auxiliares, iluminação diurna com LEDs, espelho retrovisor anti-ofuscamento, controles de estabilidade e tração, assistente de partida em rampas, monitoramento de pressão dos pneus, câmera de ré e Isofix para cadeirinhas infantis, entre outros.

Com desenho realmente atraente e moderno, e ainda por cima na cor laranja metálico e com cromados nos lugares certos, surpreendeu a maioria dos passageiros. Nenhum conhecia o carro e todos o acharam muito bonito. O bombardeio de perguntas era grande. Rodando cerca de 150 km por dia em trânsito pesado por Campinas/Jundiaí/São Paulo/ Vinhedo/Valinhos/Louveira, causou excelente impressão. Econômico, suportou bem o pára-e-anda do trânsito do dia a dia, sempre  oferecendo conforto para motoristas e passageiros. Teve até quem, no final da corrida, pediu para fazer selfies ao lado do bravo T40.

O T40 fez sua estreia no mercado nacional em agosto de 2017, e abriu uma importante opção ao consumidor verdadeiramente interessado na compra de um utilitário esportivo. O JAC T40 possui aptidões bem específicas para essa configuração, como a altura livre do solo de 18 cm. Não tem 4×4, mas suas suspensões aliam a robustez de uso em off-road leve à performance no asfalto, com sistema McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira. Sobreviveu, por exemplo, à buraqueira de Campinas.

A velocidade máxima é 180 km/h. E pára? Pára bem, com seus discos ventilados nas rodas da frente e discos sólidos na traseira. Um detalhe “esportivo” são as pinças pintadas de vermelhos nas quatro rodas. As medidas são 4,13 metros de comprimento, 1,75 m de largura, 1,56 m de altura e 2,49 m de entre-eixos. O porta-malas tem capacidade para 450 litros.

O SUV chinês se saiu muito bem nesse mês de avaliação, e é uma opção a ser considerada por quem busca um bom produto nesse segmento.

O MOTORISTA

O motorista, no caso eu, sentiu na pele a dura rotina do dia a dia dos motoristas de aplicativo. Mesmo com jornada razoavelmente curta, de cinco horas de trânsito sempre pesado, motoristas ruins ao redor e vias desgraçadamente destruídas, o conforto do carro ajudou na empreitada. Bancos confortáveis, ar condicionado eficiente, direção assistida, multimídia e ambiente agradável ajudaram. O cansaço só batia no início da noite, em casa, ao relaxar. Ficou claro que o desgaste físico é nada perto do mental.

Quanto aos passageiros, há de tudo um pouco. A grande maioria educada, independente da classe social. Alguns arredondam o valor da corrida como forma de gorjeta. Outros discutem música e política e até contam problemas pessoais, como a senhora já de idade que foi traída e ainda por cima levou uma surra do marido. De cara me senti como Carlos Alberto de Nóbrega no banco da “Praça é Nossa”, onde você fica sentado e as histórias passam por você e se vão. Dramáticas são as questões de saúde, que deixam as pessoas desesperadas, como as duas mães com seus filhos bebês internados há meses e que tiveram o fornecimento do leite em pó cortado pela prefeitura da cidade de Valinhos, ou o rapaz que teve a esposa operada e não o deixaram sequer visitá-la na Santa Casa de Vinhedo, além de não fornecerem qualquer informação… Nesse momento você vira um apoio importante, e com uma boa conversa consegue acalmar e dar esperança para as pessoas. Mas também há as “cantadas”, sempre de gays e mulheres em geral desprovidas de qualquer atributo físico, que você contorna com elegância ou fingindo que não entendeu.

A questão primordial é a segurança. A cada corrida, um risco. Em Campinas, por exemplo, há dezenas de favelas e comunidades perigosas. Em alguns casos o aplicativo paga triplicado para o motorista, e mesmo assim ninguém se arrisca a ir buscar o passageiro nessas áreas. Ao receber um chamado, o aplicativo avisa ao motorista se a área é perigosa. Isso de dia, pois à noite tudo piora, e as histórias de assaltos são constantes. E de assassinatos também. Na cidade de Campinas, o motorista de aplicativo se torna alvo fácil, pois a prefeitura local cometeu a insanidade de obrigar o uso de adesivos nas portas com a inscrição “Transporte por Aplicativo”, expondo assim os motoristas. Nessa cidade há ainda a necessidade de ter um cadastro na prefeitura, feito pelo gestor do aplicativo. Mas a própria prefeitura não consegue organizar esses registros, e a todo momento motoristas são multados em blitz “por não estarem devidamente registrados”, ou por “não portarem a identificação nas portas”. Outra bobagem é a seguinte: se você estiver com o tal adesivo e passar em um pedágio, pode ser multado por fazer “transporte intermunicipal de passageiros”.  Melhor foi fazer o que eu fiz, nunca usar o tal adesivo. Assim me tornei menos alvo de assaltantes e de multas…

E vale a pena? Se você transformar isso numa profissão, vale. Mas vai lhe custar 12 horas de trabalho por dia, com ganhos de R$ 6 mil a R$ 9 mil por mês, sem incluir as despesas.  Como fizemos o trabalho com um carro de teste, não havia preocupação com seguro, manutenção, desgaste do carro etc. Tudo deve ser considerado, e não é barato. Muitos motoristas optam por locar um carro para trabalhar, e existem até alguns convênios entre as locadoras e as plataformas dos aplicativos, mas isso vai significar pelo menos R$ 1600 ao mês para um carro básico, sem ar condicionado. Automático com ar já salta para os R$ 2 mil. Com seu próprio caro, o acúmulo de quilometragem será assustador. Faça bem as contas, mas a verdade é que, para quem está desempregado, é uma alternativo. Como complemento de renda, só se estiver disposto a virar 24 horas direto nos finais de semana.

Pessoalmente, preciso registrar que foi uma experiência incrível. O carro surpreendeu, as pessoas surpreenderam e o  fato de fazer 10 ou 15 corridas por dia me expôs um outro lado das cidades e das pessoas. Já estou com saudades. Em tempo: o valor apurado foi entregue para uma instituição de caridade da região.


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