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JLV 1932-2020: o nosso amigo Zé

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Estamos em julho de 1980. Para quem gostava de automóveis por aqui, as opções de revistas eram poucas: “Quatro Rodas”, um pouco “chapa branca” demais, mas muito importante na época, e “Autoesporte”, editorialmente mais interessante, e com foco nas competições, como o próprio nome sugeria. Não existiam outras opções. Mas aí chegou nas bancas o que faltava para um certo público, a revista “Motor 3”, cujo embrião eram as revistas especiais “Status Motor”.

E o que havia de diferente na “Motor 3”? Na edição número 1 já trouxe na capa um Chrysler Lebaron 1927; na edição 2, protótipo do Chevette S/R; na 3, a moto Amazonas e o Miura; depois, na 4, um Chevette Turbo; mais adiante, na 5, lançamentos de carros europeus; na 6 uma prévia do Escort XR3… e assium foi, até desaguar na “gaiola” V8 batizada de Koizystraña (que na verdade deveria ser chamada de “Cadeira Elétrica”), Chepala, muitos test drives, carros antigos, motos, barcos, aviões e histórias. Pronto, o mundo da leitura estava mudado para eu, meu irmão e outros milhares de fanáticos por motores e gasolina.

A abordagem dos textos era primorosa, fugia do convencional e de qualquer manual de redação. Quando se escreve na primeira pessoa, o jornalista irremediavelmente corre risco de se tornar pedante e arrogante. Mas não com o José Luiz Vieira, muito pelo contrário. Seus textos eram únicos e absolutamente fantásticos, inimitáveis. E por quê? Porque ele conseguiu colocar em tudo uma paixão indescritível, que ainda hoje emociona. Para acompanhá-lo, um time de respeito: meus saudosos amigos Expedito Marazzi, José Benedito Mahar, Oscar Nelson Kuntz e Roberto Nasser; o grandalhão fotógrafo Joca, Paulo Facin, Marc Petrier e outros que a memória não trouxe de volta neste momento.

A “Motor” 3 era rara, feita como toda revista de qualquer segmento deveria ser: sem maiores preocupações comerciais e sem limites para a paixão. Na verdade, JLV transcendia o jornalismo e flertava com a literatura refinada. Não era uma receita comercial, mas deu muito certo. Algo como “a revista certa na hora certa”.

Foi mais do que uma divisora de águas. JLV e sua “Motor 3” são referência na história do jornalismo especializado no Brasil. Tudo o que existe hoje veio depois dele. Assim, eu e meu irmão Rubens, que tínhamos uma incontrolável paixão pelos automóveis, encontramos na “Motor 3” tudo o que buscávamos em termos de publicações. A semente do nosso futuro estava plantada: uma revista de automóveis onde prevaleceria a paixão acima de tudo.

Dois anos depois, faculdade encerrada a duras penas, começo a trabalhar no meio jornalístico. Não era fácil, além do diploma você precisava ter bons e influentes amigos. Jornal “Popular da Tarde”, cobrindo esportes amadores e automobilismo, até conhecer o Marcus Zamponi, que me levou para a “Autoesporte”, depois “Diario do Grande ABC”, revista “Oficina Mecânica” onde vivi momentos absolutamente fantásticos, com o Josias Silveira, Bob Sharp, Gabriel Marazzi, Eduardo Viotti e tantos outros, até chegar à nossa própria publicação, AUTO&TÉCNICA. Culpa de quem? José Luiz Vieira. A verdade é que AUTO&TÉCNICA e “Oficina Mecânica” só foram possíveis pela porta aberta pelo JLV. Ambas seguiam a mesma linha, feitas por malucos por carros.

Rapidamente nos conhecemos, ficamos amigos. Eu o chamava de “amado mestre”. Cada bate-papo era uma aula de automóveis, de mecânica e de vida. Viajamos para diversos países, fizemos incontáveis testes juntos, almoçamos e jantamos mundo afora. Para cada carro, ele tinha uma história, e para cada história, ouvintes atentos: eu e meu irmão.

No final de 2018 propus ao presidente da ABIAUTO (Associação Brasileira de Imprensa Automotiva), Antonio Fraga, que fizéssemos uma homenagem ao Zé, meu amigo Zé. Fui atendido na hora, e ele me deu a oportunidade de, em nome de toda a imprensa especializada, agradecer ao JLV pelo carinho, amizade e, principalmente, inspiração. Tudo combinado com a Vera Vieira, sua incansável esposa e protagonista de tantas matérias memoráveis, e assim foi. Garanto que eu estava mais emocionado que ele. Naquela ultima vez em que estivemos juntos, havia um Cadillac conversível exposto no evento. Fomos abraçados admirar o carro: seus olhos brilhavam observando cada detalhe. “Dá para imaginar esse monstro numa freeway da California… sinto até o cheiro da gasolina…”, ele deixou escapar.

Ontem, dia 20 de maio, a missão do José Luiz Vieira, o JLV, o Zé, o Joe, acabou neste plano. Sentei e chorei, como há muito tempo não fazia. Tenho certeza que meu irmão também. A importância direta e indireta do JLV em nossas vidas não tem como esconder. Ele foi o maior jornalista especializado em automóveis que o Brasil conheceu, e não há reposição. Simplesmente porque tinha inteligência brilhante, adorava o que fazia e, acima de tudo, era apaixonado por automóveis. Não temos mais com quem falar de Bel Air, Impala, V8 e Chepala.

A você, que está fazendo carreira nesse setor do jornalismo, uma dica: leia com atenção todos os textos do JLV sobre automóveis. Vale mais que uma pós graduação. E pratique a humildade, como ele sempre praticou.

Gosto de lembrar das pessoas que nos deixam pelas passagens divertidas. Há uns 20 anos, talvez pouco mais, estava em um evento em Miami. O Zé com a Vera, eu sozinho. Combinamos de sair para almoçar, e eu sugeri o Planet Hollywood. Eles não conheciam e se animaram. Ele olhou o cardápio de cima a baixo, e não se entusiasmou. Aí começou a diversão (para mim, pois para ele era sério). Pediu um cheeseburger. Abriu o sanduíche no prato, pediu açúcar, e cobriu tudo com o pó doce, para espanto de quem presenciou. Aí vem o garçom, e pergunta: Vai beber o quê? Refrigerante, água, cerveja…?” A resposta do Zé: “Leite”! Sério. Ele comeu hambúrguer com muito açúcar e tomou leite, com uma naturalidade infantil, espantado com o meu olhar de estranhamento.

Dali em diante, todas as vezes que nos encontrávamos, eu perguntava: “E ai Zé, perdeu aquela mania nojenta”? Ele ria, até que um dia falou:

_”É que você não conhece meu pão recheado”.

_ “Como assim”?

_ “Simples. Pegue vários pãezinhos franceses, tira o miolo, recheia de açúcar e coloca no forno. Uma delícia”.

_ “Você vai ter um coma diabético, pára com isso”. E rimos muito.

E é assim que vou me lembrar de meu amado mestre, meu amigo e inspirador, Feliz, rindo, contando histórias e dando estas receitas absurdas. Ficamos todos órfãos.

Valeu, Zé. Obrigado. Vera, obrigado por ter cuidado tanto e tão bem dele.

Ricardo e Rubens Caruso Junior


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