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Linea Diamante: como um arquiteto via o futuro em 1953

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O Linea Diamante foi a proposta de Gio Ponti, conhecido arquiteto italiano, para um carro mais avançado do que os que existiam no início da década de 1950. Não chegou a ser produzido, mas inspirou algumas marcas.

 

Muitas vezes, a resposta para um problema pode vir de onde menos se espera. É o caso do Linea Diamante, projetado no início da década de 1950, pelo multimídia Gio Ponti (1891-1979). Ponti, italiano, é mais conhecido pela vasta obra deixada como arquiteto —mais de 100—, mas foi também desenhista industrial, designer de móveis, artista, professor e até editor; foi ele quem fundou a revista Domus em 1928, publicação ainda existente dedicada à arquitetura e design, que presidiu praticamente durante toda a vida e onde deixou um legado de mais de 600 matérias publicadas.

Uma personagem influente na sua época? Sem dúvida. O seu interesse em múltiplas áreas criativas acabaria também por cruzar com o automóvel.

 

Gio Ponti Linea Diamante

Na verdade ele não apreciava os automóveis da época. Ele os criticava pelo tamanho exagerado, pela sua grande massa e pelos “absurdos espaços vazios no interior”. Os radiadores eram muito altos (frentes altas), as janelas muito pequenas pequenas e os interiores escuros. Certamente existiam melhores soluções para serem encontradas.

Em colaboração com seu sócio Alberto Rosseli, imaginou e projetarou um carro com desenho revolucionário, cujo projeto seria finalizado em 1953. Deram a ele o nome de Linea Diamante, em função da sua forma básica, geométrica e facetada, como um diamante lapidado.

O projeto teve como base uma Alfa Romeo 1900 de 1950, mas não podia ficar mais diferente, até no que não se via. A estrutura era mais rígida, mas também mais leve, recorrendo a tecnologias inovadoras naqueles tempos, mas o destaque vai mesmo para a sua forma, no sentido de responder às questões que Gio Ponti apontara.

Alfa Romeo 1900, 1950
Alfa Romeo 1900, 1950, que serviu de base para o Diamante.

A carroceria de três volumes do Alfa Romeo 1900 deu lugar a uma de dois volumes (hatch), com suas curvas dando lugar a superfícies planas. A linha do capô foi bem inclinada e a grade tornou-se bem mais discreta, passando a ser simples aberturas localizadas abaixo do pára-choque dianteiro. O destaque na lateral são o vidros de generosa altura, e com isso o interior ganhou iluminação e a visibilidade de dentro para fora, tanto por parte do motorista como dos passageiros, foi incrementada consideravelmente.

A carroceria de dois volumes permitia maior versatilidade de uso. O porta-malas, grande em capacidade, podia ser acessado pelo interior, graças aos bancos traseiros rebatíveis —características familiares dos carros de hoje em dia—, podendo também ser removíveis. O estepe tinha compartimento próprio, separado do porta-malas.

Gio Ponti Linea Diamante

Uma das principais particularidades deste revolucionário automóvel estava nos pára-choques, desenvolvidos em conjunto com a Pirelli e feitos de borracha. Não só circundavam toda a carroceria, muito diferente dos pára-choques metálicos da época, como na frente e traseira estavam montados com molas para melhor absorver os impactos.

O Linea Diamante antecipava com grande nível de fidelidade o carro do futuro. Fosse em nível de carroceria (hatchback) como estético (superfícies planas e generosa área envidraçada), é uma espécie de “elo perdido automotivo” para compreender o surgimento de carros como o Renault 16 ou o primeiro Volkswagen Passat, 10 ou 20 anos mais tarde, com a sua influência se estendendo até à década de 1980, em carros como o Saab 9000.

No entanto, o Linea Diamante nunca passaria do papel. Gio Ponti negociou originalmente com a Carrozzeria Touring para desenvolver o projeto, mas esta acabou recuando. Estando em Itália, a gigante Fiat foi também abordada por Ponti, mas a marca achou o projeto demasiadamente radical e geométrico (os anos 1950 foram marcados por curvas), e o fato do chassi considerado ser de um Alfa Romeo, naqueles tempos um construtor independente, também deve ter ajudado à decisão negativa.

Por outro lado, na Europa, em 1955 seria apresentado o Citroën DS, apesar de mais futurista que alguns concepts em aspecto e tecnologia, era um carro de produção; e em 1959, seria mostrado o eficiente Mini, cujo layout “tudo à frente” com motor transversal, tornou-se -após uma evolução deste conceito por parte da Fiat, introduzida no Autobianchi Primula e Fiat 128- na arquitetura mais usada pelos automóveis que conduzimos hoje em dia.

O modelo (não funcional) do Linea Diamante que vemos nas fotos foi construído apenas cem 2018, 65 anos após o trabalho original por Ponti. O projeto “O Automóvel por Ponti” foi iniciado pelo professor Paolo Tumminelli e foi um esforço colaborativo entre a FCA, Pirelli e Domus.

Roberto Giolito, o diretor da FCA Heritage, liderou a equipe de projetistas que consultou os desenhos e especificações originais de Gio Ponti para conseguir construir um modelo em escala real o mais fiel possível aos planos originais. Foi apresentado no ano passado na exposição “Gran Basel”, na Suíça, e depois pode ser visto no Salão de Genebra deste ano (2019) no estande de uma revista especializada italiana.


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