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Marzal, as duas vidas de uma Lamborghini única

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Desse carro só se produziu um exemplar, em 1967. Mesmo assim, impressionou tanto que mereceu até uma miniatura da Matchbox. E aconteceu apenas uma aparição pública oficial, mais precisamente no GP de Mônaco daquele ano, quando o príncipe Rainer conduziu a sua mulher, a princesa Grace, numa volta de honra ao volante.

Chama-se Marzal e é um carro com história única. Este Lamborghini nunca chegou a ser fabricado em série. Nasceu da necessidade de Ferruccio Lamborghini ter no seu portfólio um esportivo de quatro lugares. Mas era avançada demais até mesmo para o chefão mais obstinado da indústria automotiva.

Quem dedicou alguma atenção ao GP Histórico de Mônaco, não ficou indiferente a um dos momentos mais interessantes do evento: uma volta do Lamborghini Marzal pela pista, brilhante como há 51 anos.

Ao volante que, em 1967, foi ocupado por Rainer III, sentou-se o seu filho, o príncipe Albert, algo que aconteceu graças ao trabalho de restauração efetuado pelo Lamborghini Polo Storico, o departamento da marca italiana dedicado à preservação e à recuperação do seu patrimônio histórico, bem como ao apoio ao crescente número de colecionadores.

 

Contada assim, a história deste protótipo parece simples. Mas nada na vida da Lamborghini é algo que se conte em meia dúzia de palavras. E muito menos a história deste protótipo. De 1967 a 2018, passou pelo esquecimento, inspirou miniaturas que alimentaram a imaginação de toda uma geração, foi vendido em leilão pela Bertone a um milionário suíço e ainda voltou para casa, em Sant’Agata Bolognese, para ser restaurado pelos especialistas da Lamborghini. Nada mau para um automóvel que ninguém quis produzir.

 

 

Pode parecer óbvio nos dias de hoje, mas há 51 anos, pensar num grande carro GT, com quatro confortáveis lugares e toda o dsempenho em estado puro de um Lamborghini era, no mínimo, sonhar alto. Mas Ferruccio Lamborghini –aquele apaixonado que lançou a sua marca por achar que era preciso algo mais completo que um Ferrari– sabia ser persistente quando tinha a certeza que estava no caminho certo.

Em 1967, Ferruccio estava tão embalado quanto os seus carros: o Miura tinha sido apresentado um ano antes e a marca decolava, fruto do sucesso daquele que rapidamente se tornou um dos GT mais cobiçados pelos milionários da época, daa Côte D’Azur a Hollywood. Com o Miura e o 400 GT seguindo seu caminho comercial em boa velocidade, Ferruccio queria um terceiro modelo, um Gran Turismo com quatro verdadeiros e confortáveis lugares (o 400 GT era, na verdade, um 2+2).

Tal como no Miura, Ferruccio voltou-se novamente para o seu amigo Nuccio Bertone para pedir ajuda em mais um novo desafio. E, também tal como naquele GT de dois lugares, ambos concordaram em dar liberdade ao jovem designer Marcello Gandini, então com 28 anos de idade. Gandini já havia assinado o Miura (dizem que o entusiasmo era tanto que o bom e velho Nuccio o mandou de férias e terminou ele mesmo o desenho…) e o seu talento era inquestionável. Só paa registrar, estamos a falar de Gandini, que viria a assinar projetos como os Lamborghini Countach e Diablo, o primeiro BMW Série 5, Lancia Stratos, Fiat X1/9, Bugatti EB110, Citroën BX e o pequeno Innocenti Mini, entre outros.

O Miura foi, de resto, a base para o projeto Marzal. A começar pelo motor, de seis cilindros em linha montado na traseira, que era nada mais do que metade do 4.0V12 do Miura. Colocando transversalmente atrás do eixo posterior, liberava assim mais espaço para o habitáculo. O fato de os radiadores serem montados na traseira fazia com que o compartimento dianteiro oferecesse espaço para uma porta-malas e para o tanque de gasolina.

Gandini recorreu também ao chassi do Miura, que foi bastante modificado e com a distância entre-eixos aumentada em 120 mm para acomodar os dois lugares extra. Como o comprimento total era relativamente reduzido, o designer optou por duas amplas portas tipo “asa de gaivota”, dando acesso às duas filas de bancos. Esta opção marcou o carro: o designer da Bertone não economizou nas ideias e decidiu pela ampla superfície vidrada, desde o teto até às portas propriamente ditas. No total, eram 4,5 metros quadrados de vidro, produzidos especialmente por uma empresa belga, a Glaverbel, o que colocava n projeto desafios tão particulares quanto a engenharia específica para todo o sistema de ar condicionado, que foi desenvolvido pela própria Bertone.

 

Todo o visual do carro demonstra até que ponto Marcello Gandini buscava liberdades para criar naqueles tempos. Foi o seu primeiro trabalho sem a presença do mentor, Giorgetto Giugiaro –que em 1966 trocara a Bertone pela Ghia– mas foi, acima de tudo, um traço que nasceu em plena “corrida espacial”, entre EUA e URSS, e um ano antes da Apollo 11 levar Neil Armstrong para a Lua.

Todo o desenho exterior e interior do Marzal é, ainda hoje, um testemunho da criatividade futurística dos anos 1960, mas nem mesmo Ferruccio, conhecido pelo seu arrojo, se mostrou muito convencido na época. É famosa a sua opinião quando se referiu àquelas portas todas envidraçadas: “Não oferecem privacidade: as pernas de uma senhora ficam expostas, à vista de todos”.

O Marzal é uma obra de arte dentro da história do automóvel. Não há como explicá-lo de outra forma e nem vale a pena complicar aquilo que se pode afirmar da maneira mais simples: é uma obra de arte e pronto. Daquelas que, mesmo num pedestal, deixam a sua marca e inspiram tudo à sua volta, exatamente da mesma forma que este protótipo da Lamborghini, que apesar de não ter passado à produção, deixou um legado imenso.

Sant’Agata Bolognese foi o primeiro lugar onde se manifestou a criatividade de Gandini: em 1968, surgiu o tal GT de quatro lugares que Ferruccio Lamborghini tanto desejava, agora com linhas mais contidas, mas nem por isso menos impactante para a época: chamava-se Espada, um dos modelos que deve muitas das suas linhas ao Marzal. É verdade que não tinha aquelas portas de nave espacial de vidro nem aqueles bancos prateados, mas a traseira forte e abruptamente cortada, o longo e afilado capô e a ampla superfície envidraçada denunciam as reminiscências do protótipo.

O Espada, produzido durante 10 anos e também desenhado por Marcello Gandini, foi um sucesso para a Lamborghini, tendo sido o carro da marca mais vendido até à chegada dos modelos da era moderna, agora sob controle da Audi.

E existe outra herança menos notada, mas presente na Lamborghini até aos dias de hoje: a profusão de padrões de desenho hexagonais, estreados no Marzal, em especial no interior e na tampa traseira que dá acesso ao motor. Observe os modelos atuais, especialmente o Huracán, e repare como aqueles hexágonos de Gandini estão por todo o lado, seja nas grades, nos detalhes dos para-choques ou, naturalmente, nas coberturas dos motores.

O legado não fica por aqui e surge ainda e sempre de onde menos se espera. O protótipo fez tanto sucesso na sua época, que vários fabricantes de miniaturas produzirem exemplares deste Lamborghini. Entre os mais famosos, encontramos os da Matchbox, na escala 1/64. A marca produziu três séries diferentes desta miniatura, entre 1969 e 1970 (marrom com janelas amarelas), de 1971 a 1974 (rosa ou laranja) e ainda em 1985, com uma série especial (Super GT, menos valorizada e sem o acabamento das duas precedentes, espécie de “carro popular” das miniaturas). 

 

Depois daquela volta mítica perante os ricaços no GP de Mônaco, o Marzal foi guardado nos galpões da Bertone e por lá foi ficando, com apenas algumas saídas para exposições. Até que, em 2011, a marca italiana decidiu leiloá-lo. Coube à Sotheby’s vende-lo pela bagatela de US$ 1,7 milhões.

Podia ter acabado mal sua história, nas mãos de um excêntrico para coleção restrita mas, felizmente, o comprador sabia o que tinha em mãos. O feliz proprietário, o suíço Albert Spiess, entregou o Marzal ao Lamborghini Polo Storico, em Sant’Agata Bolognese, onde foi feito um dos mais cuidados e demorados trabalhos de restauração já efetuado pela divisão especial da marca italiana.

Foi só em 2017 que o Marzal ficou pronto para a sua segunda vida, numa ocasião devidamente celebrada em maio recente, no GP Histórico de Mônaco. O Marzal desfilou pela pista ao lado um exemplar do Espada –que celebrou os seus 50 anos– com a mesma aura de atrevimento que exibiu em 1967.

Há coisas que nunca mudam, mesmo quando se vive duas vezes.

(SIVA newsroom)


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