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O Porsche 356 de dois motores de Lou Fageol

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O que é fascinante na história da Porsche é quantas descobertas você pode fazer, mesmo quando imagina que já sabe tudo. Quer um exemplo disso? AUTO&TÉCNICA apresenta dois carros únicos e extraordinários, construídos por Lou Fageol, datados dos anos 1950: o Porsche 356 cupê e um carro de corrida com tração nas quatro rodas, o Twin Porsche, com dois motores e suspensões Porsche.


Lou Fageol é um americano que gostava de mexer com carros e, em particular, de instalar dois motores em carros de competição. Essa paixão e conhecimento, que a família carregava desde o início do passado, foram recebidos (para ele e seu irmão William) de seu pai, Frank Fageol.

Estabelecida em San Francisco, na California, desde 1904, a família Fageol atuava na indústria automotiva. Depois de construir uma fábrica em Oakland, em 1915, para fabricar tratores, alguns anos depois eles começaram a construir ônibus e caminhões. Os chassis de grandes caminhões -com baixo centro de gravidade- foram adaptados para fazer ônibus, que se tornaram populares no transporte de passageiros na Costa Oeste dos Estados Unidos.

Mais tarde, em 1927, os Fageolsconstruíram uma nova fábrica em Kent, Ohio, após adquirir a empresa American Car & Foundy, onde os irmãos Fageol haviam trabalhado anteriormente. Esta fábrica tinha como objetivo a produção em massa de ônibus grandes, movidos por dois motores: uma verdadeira revolução! 

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Foi também uma oportunidade de conquistar melhor o mercado do leste dos Estados Unidos. Com a crise do mercado de ações de 1929, eles tiveram que fechar a fábrica de caminhões de Oakland. Curiosamente, Theodore Alfred Peterman comprou os ativos da família Fageol da fábrica de Oakland em 1939 para produzir seus próprios caminhões, sob a até hoje popular marca Peterbilt.

Os ônibus produzidos em Ohio eram bimotores (um na frente e outro atrás) que podiam transportar até 40 passageiros. Eles foram batizados de Twin Coach. Este novo conceito, com um novo desenho, foi um grande avanço no campo do transporte de passageiros. Eles tiveram sucesso com diferentes variações até a década de 1940. Essas variações incluíam veículos militares, bibliotecas móveis e até mesmo agências de correio itinerantes.

A produção da empresa foi retomada em 1952, e o nome Fageol foi assim reconhecido e gravado na mente das pessoas. As atividades se diversificaram com os filhos de Frank Fageol e, em particular, com Lou.

Fageol Trucks Were Their Claim to Fame - Gas Engines Company History - Farm  Collector Magazine

Lou Fageol era apaixonado por velocidade. Morando na Califórnia, ele era bem conhecido e respeitado lá, em particular por algumas conquistas com carros de corrida, herdados de seu pai Frank e de seu tio Rollie Fagel, que haviam criado o Fageol: um carro movido por um monstruoso 6 cilindros de 13.500 cm3 de caminhão.

Ele voltou com sua família para Ohio para continuar fabricando ônibus, mas também outros produtos, como motores e componentes. Rapidamente, ele construiu um império que reunia muitas empresas.

1939 Fageol Supersonic - damn, I love those old art deco cars! : WeirdWheels
Fagel Supersonic 1939

Mas sua verdadeira paixão era mesmo o automobilismo. Ele também se classificou bem na “500 milhas de Indianápolis” de 1949. A partir de 1946, ele construiu alguns carros de corrida de dois motores e os pilotou em corridas. Ele também projetou alguns “dream cars” em paralelo com todas as suas atividades.

Lou Fageol também se destacou na área de hidroaviões e nas corridas de barcos de corrida a partir de 1928. Depois de ganhar vários troféus, ele interrompeu essa atividade em 1955 após um grande acidente no qual saiu ferido.

Fageol

Lou Fageol continuou a fabricar veículos exclusivos, onde sua inovação foi elogiada. Ele foi o precursor de carros com tração nas quatro rodas, como o Audi Ur-quattro ou o Porsche Carrera 4. Os carros tinham tração nas quatro rodas graças ao uso de dois motores: um na frente e outro na traseira. 

A Audi, em 2007, se inspirou nos carros de Lou Fageol para projetar seu MTM TT Bimoto . Para obter mais potência dos motores montados em seus carros, Lou Fageol usou compressores, como veremos mais tarde.

O primeiro Porsche de dois motores, baseado no Porsche 356 1500 Super 1952.


Quando se tornou concessionário Porsche, Lou Fageol teve imediatamente a ideia de usar motores Porsche para os seus primeiros carros de corrida. A Porsche não queria vender a ele motores de corrida, e então ele simplesmente comprou dois Porsche 356 1500 Super Coupé, pegou um dos motores de 75 cv e o instalou na traseira do segundo Porsche 356.

O tanque de combustível normalmente colocado na frente foi instalado no lugar dos bancos traseiros.

Ele também aproveitou a oportunidade para modelar uma nova frente, utilizando uma grade de Packard 1951 e fazendo tomadas de ar no capô, para resfriar o motor. O eixo dianteiro também foi reforçado para suportar o peso e a potência do motor.

O carro adotava um novo desenho, tanto na dianteira quanto na traseira, que recebeu um estepe tipo “continental” recoberto por uma carenagem na mesma cor bege do carro. Os pára-lamas traseiros também foram redesenhados calotas cromadas e os pneus passaram a ser faixa branca.

Para vencer as curvas, o carro tinha que derrapar nas quatro rodas, primeiro apontando a frente do carro para curva e, depois, entregando a potência. O carro era então puxado e empurrado para a curva, dobrando o esforço do piloto para manter a frente ou a traseira na posição desejada.

Para demonstrar a eficácia de suas criações, ele inscreveu este carro, em 8 de agosto de 1953, na prova Seafair, em Payne, na Georgia. Durante a corrida, ele alternou as 4ª e 5ª posições, antes de encontrar problemas de embreagem e abandonar.

Após algumas corridas, o carro foi reformado e vendido a um certo coronel Volpe, da Base Aérea de Wright Patterson.

Um ano depois, em 1953, Lou Fageol construiu nas oficinas da Twin Coach Company um novo carro de corridas, ainda mais radical, novamente com dois motores Porsche.

Seus motores Porsche de 4 cilindros e arrefecidos a ar eram estritamente originais, cada um desenvolvendo 70 cv e equipados com dois carburadores Solex.

Na verdade, Lou Fageol queria mais. Ele então embarcou na construção de um segundo carro, dedicado às competições. Este carro usava suspensão e direção de Porsche 356. Foi feito com componentes de aeronaves da Fletcher Aviation, montados em uma estrutura tubular rígida. Sua carroceria era feito de alumínio. O carro também foi equipado com uma capota rígida móvel com dobradiças na parte traseira, para facilitar o acesso ao interior do carro. O modelo foi pintado primeiro em prata e, depois, de dourado.

Em termos de motor, ele também usou dois motores de Porsche 356 Super 1500, cada um desenvolvendo 72 cv, para impulsionar sua criação. Na traseira, o motor aciona o eixo de maneira convencional. Na frente, ele teve que mostrar engenhosidade para ancorar o segundo motor e para mover as rodas dianteiras por meio de juntas de velocidade Rzeppa, que são particularmente adequadas para transmissão de força.

Com dois motores, você precisa de duas transmissões. Lou Fageol usou as caixas de câmbio manuais de quatro marchas do Porsche 356. A peculiaridade era ligá-las a uma única embreagem e um único acelerador.

O problema de instalar dois motores em um carro é que eles precisam sempre estar bem sincronizados.

Fageol criou assim um sistema inovador baseado, em um único pedal de embreagem e uma única alavanca de câmbio, com um sistema de articulação conectando as 2 transmissões. Ele corretamente afirmou que um motor não poderia funcionar de maneira diferente do outro porque eles estão conectados aos próprios pneus em contato com o piso.

Seu peso era de apenas 726 kg, a distância entre-eixos era de 2,29 m e a altura de 1,30 m.

Para ganhar potência, Fageol trabalhou em diferentes configurações de compressores, até que teve uma ideia brilhante. De fato, durante as primeiras corridas, ele usou correias para acionar os compressores, mas estes quebraram e ele teve que trocá-los de forma preventiva a cada reabastecimento.

Para resolver esse problema, ele equipou as turbinas com ventiladores vindos de motores de motosserra McCullough conectados por correntes para fornecer ainda mais ar comprimido para que os motores tivessem assim mais potência. Ele usou compressores Pepco.

Esses motores de motoserra foram acoplados aos dois motores Porsche, tornando assim o carro numa máquina de corrida com quatro motores.

Os motores principais, Porsche, eram ligados por um único botão. Os outros dois motores de motosserra eram acionados da cabine, por meio de cordas de partida.

O método que Lou Fageol utilizou para as tomadas de curva era a técnica do “punta taco”:  o sistema Flageol tinha um único pedal além da embreagem, que tinha a função dupla de freio e acelerador: para frear era preciso pisar no pedal, para acelerar, era preciso levantar o pé.

O carro poderia chegar aos 210 km/h, mas Fageol planejava em chegar a 240 km/h.

Os pilotos de corrida da Porsche puderam testar o carro, como Huschke von Hanstein, que ficou impressionado com o desempenho de dois motores padrão da Porsche.

Esse carro participou de sua primeira corrida em 1953, na base aérea de Sowega, em Albany, Georgia. O carro terminou em segundo em sua categoria durante as preliminares e a corrida.

Durante as temporadas de 1954 e 1955, o carro participou de algumas provas. Em maio de 1954, o carro estava na liderança em Cumberland até quebrar.

Um mês depois, ela terminou em terceiro lugar, atrás apenas de duas Ferrari, desta vez na base militar de Atterbury, em Columbus, Ohio.

Em junho de 1954, ele terminou em primeiro, com uma nova configuração de compressores na corrida da Base Aérea de Westover, em Massachusetts, pouco tempo antes de se aposentar.

No mês seguinte, o carro terminou a corrida a prova de Giants Despair em terceiro lugar, na Pensilvânia. Em setembro de 1954, o carro venceu em Watkins Glen e, em novembro, abandonou na corrida da Base da Força Aérea em Riverside, Califórnia.

Sua última corrida foi em Pebble Beach, em abril de 1955. O carro foi destruído ali em uma violenta batida em uma curva, onde derrapou e capotou, além de ter sido atingido por outro carro, que também havia perdido o controle. Mais susto do que danos para Fageol, que saiu do carro com alguns ferimentos leves.

Em 1958, ele se aposentou e voltou para San Diego. Participou pela última vez de uma corrida em Pomona, no dia 6 de março de 1960, com um carro de fibra de vidro Devin, movido por um motor Fageol 44 (Crossley) com um transmissão Porsche modificada para ter cinco marchas, eliminando a marcha ré. Durante a corrida, ele outro grande acidente, que o fez parar de correr para sempre.

Fageol morreu vítima de ataque cardíaco em 17 de janeiro de 1961. Suas inovações permitiram o surgimento de novas tecnologias e, posteriormente, deram origem a carros lendários, como o Porsche 959 ou o Audi quattro. Mais que isso, servu de inspiração para o Fusca de dois motores dos irmãos Fittipaldi.


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