Auto&Técnica | Desde 1995, 23 anos de boas notícias.

O Renault que descansa com o Titanic no fundo do mar

Compartilhe!

Um tragédia  nunca vem sozinha. Ela é só o final de uma sequencia de coincidências ou fatos que levam ao desastre. Além da romantização associada ao fenômeno Titanic, este naufrágio acontecido há 108 anos marcou o mundo de forma inquestionável. Ainda antes da sua viagem inaugural, o Titanic era já um sucesso. No período de glória das linhas transatlânticas, época em que a aviação era apenas uma curiosidade, várias empresas de navegação competiam pela supremacia dos oceanos!
 

 Os navios, no início dos anos 1900, eram o exemplo máximo da capacidade tecnológica da nossa civilização. Junto com os trens, eram o único meio de transporte de pessoas, bens, divisas e sonhos sobre o oceano,  conectando continentes.

Longe de qualquer previsão da catástrofe que iria acontecer em breve, o Titanic recebeu grande número de passageiros, que levavam as suas famílias rumo ao sonho americano, ou regressavam de uma viagem de negócios, ferias ou simples curiosidade. Um dos ricos a bordo era William Carter, que morava nos Estados Unidos, dono de uma fortuna considerável, vinda da exploração de carvão e ferro. Ele viajava junto da sua esposa e dois filhos pela Europa. Antes de embarcar na viagem, William adquiriu um carro muito especial, e o embarcou no navio rumo à América. O automóvel, na época muito moderno e sofisticado, é hoje um clássico: Renault 1912 Type CB Coupé de Ville.
 

 
Possivelmente encantado com as linhas refinadas e acabamento luxuoso, o seu feliz proprietário tinha à sua disposição um belo exemplar da indústria automotiva europeia. Equipado com motor de 2,6 litros, este clássico era categorizado na potência fiscal francesa como 12 cv, tendo portanto qualquer coisa como 25-30 cv e a capacidade de alcançar os 50 km/h.

Dentro de algumas curiosidades sobre o Renault, consta que o radiador se encontrava posicionado atrás do motor, permitindo um desenho mais inovador da frente, com visual mais esportivo. Outra característica era a transmissão às rodas traseiras; ao contrário da tradicional correia ou corrente da época, o Renault tinha um eixo cardã.

Apesar de ser descrito como um cupê e ter linhas que indicam isso, este clássico respeitava a longa tradição aristocrática, ou seja, era conduzido por um motorista (o “chauffeur”). Este motorista, Augustus Aldworth, foi o ultimo a dirigir o carro, levando-o para o porto de Southampton, de onde partiu a viagem em 10 de abril de 1912.  Carter embarcou na Primeira Classe, junto com sua mulher, dois filhos e uma empregada. A família usou as cabines B96 e B98, e mandou para uma cabine de Segunda Classe o motorista e outro empregado.

Quatro dias depois, em 14 de abril, às 23:40, o navio se chocou com um iceberg e afundou. Carter conseguiu espalhar sua familia e os empregados em botes salva-vidas, mas os dois funcionários morreram. Infelizmente o Renault Coupé de Ville desapareceu na imensidão do oceano junto com mais de 1500 pessoas, estando sepultado junto com o Titanic a quatro quilômetros de profundidade.
 

Tempos depois, Carter pediu indenização de US$ 5.000 (mais de US$ 100 mil atualizados), mais US$ 300 pelos dois cachorrinhos da família que morreram. Os US$ 5.000 eram suficientes para comprar pelo menos 10 Ford novos. Não há registro de outros carros embarcados no navio.
 
Semelhante clássico foi leiloado em 2008, atingindo a marca de US$ 269.500 mil, conferindo a este modelo um estatuto de importância considerável. Tudo isto remete imediatamente à inevitável pergunta irracional e inocente:, E se fosse recuperado do fundo do oceano, como aconteceu com tantos outros objetos? Quanto valeria? De alguma forma, a natureza pouco sintética dos seus materiais não deixa duvidas sobre a sua condição, sendo que, várias tentativas foram já realizadas para tentar identificar o seu estado de conservação, mas sem sucesso.
 

 
Uma equipe parece ter conseguido uma foto parcial de uma roda e um pára-choques, mas sem identificação possível de que se trata dos restos do Renault. Durante muitas décadas esta história ficou esquecida, sendo recuperada por ocasião das filmagens do filme “Titanic”, que estreou em 1997, quando foi revista a lista de carga do navio. Este fato, junto com o pedido de indenização que Carter fez à White Star Line, dona do Titanic, dão credibilidade à presença do automóvel nos escombros no Titanic.
 

 
Assim, com alguma sorte e privilégios para quem viajava de Primeira Classe, William Carter garantiu a segurança da sua esposa e dois filhos a bordo de um bote, andou pelo Titanic e acabou embarcando num bote salva-vidas perto do fim do naufrágio, junto com Bruce Ismay, diretor da W.S. Line. Salvando-se assim da morte certa, a mesma sorte não teve o motorista, que como o Renault, desapareceu sem deixar rastro, na história trágica que marcou o afundamento da embarcação que todos julgavam inafundável até mesmo por Deus
 

 
A presença do Renault como parte integrante do filme, pode ter agregado valor ao automóvel, sendo que pode ser apreciado logo no início, sendo levado para o porão dianteiro do navio.  Embora esta cena passe despercebida no vai e vem do porto e da corrida para entrar no barco dos sonhos, há também a cena onde DiCaprio e Kate Winslet partilham o protagonismo com o próprio Coupé de Ville. A cena, imortalizada pelos vidros embaçados, junta estas três estrelas num momento de descontração e sensualidade.

Embora não haja nenhuma fotografia do automóvel que embarcou em 1912 no Titanic rumo a nova York, ficará para sempre no imaginário de muitas pessoas a imagem do carro vermelho, da paixão que nele foi consumada e da curiosidade em saber em que estado se encontra hoje.

 

Compartilhe!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *