Classic Cars

OLDSMOBILE “88” E SEU MOTOR ROCKET

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Foram 106 anos de existência, desde sua fundação por Ransom E. Olds, em 21 de agosto de 1897, até que a marca fosse extinta, em 29 de abril de 2004. A Oldsmobile foi uma das marcas mais tradicionais não só do mercado americano, mas de todo o universo do automóvel, e nesse mais de um século de atividade, entregou aos consumidores acima der 35 milhões de unidades. Hoje a centenária Olds não mais existe, mas será lembrada para sempre como uma das marcas que fizeram a grandeza da GM.

Dois produtos ajudaram a celebrizar a marca. O belíssimo modelo 88 (Eighty-Eighty) e o motor Rocket. O Eighty-Eighty durou 50 anos, e foi o carro mais popular da marca de 1950 até 1974. Foi lançado em 1949, na euforia do pós-guerra. Usava a plataforma “A”, do modelo 76, era menor que o 98, e recebeu um potente motor 5.0V8. A GM nomeou o motor como Rocket (foguete). Foi desenhado por Gilbert Burrell e tinha válvulas nos cabeçotes, com comando de válvulas central, 135 cv de potência  máxima e torque de 36,3 mkgf, alimentado por um carburador de corpo duplo. Foi o primeiro motor GM nessa configuração de válvulas feito depois da Guerra.

Esse motor Rocket (no Brasil se celebrizou como “roquéte”, e por muito tempo qualquer V8 era assim identificado) tinha o diâmetro de cilindros maior que o curso dos pistões (superquadrado), o que privilegia a potência em rotações mais altas. Burrell queria usar taxa de compressão altíssima para a época, algo como 12:1, mas a gasolina daquele final de anos 1940 permitiu apenas 7,25:1.

MUITAS OPÇÕES

O 88 era oferecido com carrocerias cupê, conversível, sedã e wagon woddy (com parte da lateral em madeira), e tinha o estilo dos Chevrolet da época, com linhas simples e arredondadas, capô mais alto que os pára-lamas dianteiros e teto elevado. Não era um carro muito pequeno, com 5,19 metros de comprimento e 3,08 m de entre-eixos.

A disposição mecânica era a comum, motor e câmbio na dianteira, eixo rígido na traseira, tração traseira, câmbio automático Hydramatic de duas marchas (Powerglide) e suspensão dianteira independente.

O sucesso foi tão grande, que a Oldsmobile pulou de 172.500 carros produzidos em 1948 para 288.000 em 1949 e 408.000 em 1950. Sinal de que a combinação havia dado certo. O slogan do 88 era, “Make a Date with a Rocket 88”, e inspirou a música, “Rocket 88”, considerada uma das primeiras gravações da história do rock’n’roll. Com isso, em outubro de 1950 a marca anunciou o fim do 76, que usava motor de seis cilindros em linha, apostando tudo no 88.

O motor Rocket ganhou fama pela potência e confiabilidade. Por isso, a Oldsmobile passou a usar em 1950 um foguetinho estilizado como logo do modelo. Era a época “espacial” -com turbinas, astronautas e alienígenas povoando os pesadelos dos americanos- que forneceu elementos para muitos carros, como a traseira do Cadillac 1959 ou os foguetinhos do capô dos Bel Air 1957.

HOLIDAY

O 88 de 1950 ganhou uma versão de carroceria chamada Holiday, cupê hardtop, e novidades como pára-brisa inteiriço e câmbio manual de três marchas. Em 1951, o 76 saiu de linha e deixou o 88 o carro mais acessível da marca, todos com motor Rocket V8. Veio ainda uma versão mais imponente, o Super 88,  luxuoso e com carroceria maior, a plataforma “B”, com 3,10 m de entre-eixos.

A carroceria curta do 88 sumiu em 1952, ficando disponível apenas a Super, com versões batizadas de 88 e 88 Super. O 88 usava carburador de corpo duplo e tinha 145 cv e 38,7 mkgf, enquanto o Super tinha um quadrijet, 160 cv e 39,1 mkgf. Outras diferenças eram na grade, lanternas traseiras e parte interna. Para 1953, o mais simples recebeu o nome de DeLuxe 88, com mais opcionais disponíveis: ar-condicionado, direção hidráulica e servo-freio.


Os Chevrolet mudaram de estilo em 1955, mas um ano antes a Olds lançou a segunda geração do 88. A carroceria era mais baixa, grade e pára-choques maiores e vidros envolventes. O tamanho quase não mudou, e as carrocerias ofertadas eram sedã, cupê, cupê hardtop e conversível. O nome DeLuxe sumiu, sendo o carro chamado de 88 apenas.

E se a carroceria não cresceu, o motor aumentou. Passou a ser 5.3V8, carburador bijet, 170 cv e 41,5 mkgf no 88, ou 185 cv no Super 88 quadrijet, mantendo o mesmo torque; o sistema elétrico foi de de seis para 12 volts. Tudo no carro merecia elogios, menos a direção hidráulica, que tinha quase seis voltas de batente a batente.

MAIS MUDANÇAS

Para 1955, o 88 tinha grade, frisos cromados e lanternas traseiras modificados, além de mais potência e torque. Eram 185 cv e 44,2 mkgf no 88 normal, e 202 cv e 45,9 mkgf no Super 88.

Na linha 1956, de novo mudanças na grade, lanternas e frisos e… tome mais potência! O Rocket passou a ter 230 cv e 47 mkgf no 88 e 240 cv e 48,4 mkgf no Super. A grade era bem futurista e os pára-lamas foram mudados. Passou a ser usada a transmissão automática HydraMatic Jetaway de quatro marchas. O freio de estacionamento passou a ser por pedal e o velocímetro ficou ovalado.

O 88 básico voltou a ganhar um nome em 1957: Golden Rocket 88, o mesmo de um “dream car” apresentado em 1956. Na busca pela maior potência, o motor passou a ser 6.1V8, com 277 cv e 55 mkgf, e todos usavam quadrijet. Como opcional, o “pacote J2”, conjunto de três bijets, com dois só entrando em ação depois de 75% de abertura do acelerador. Tudo para chegar aos 300 cv e 57,5 mkgf, com zero a 100 km/h em pouco mais de 10 segundos. Surgiu a wagon Super 88 Fiesta quatro portas, com ou sem coluna central. As wagons da marca não existiam desde 1950.

Para o final dos anos 1950, as mudanças de estilo foram grandes. Em 1958, os quatro faróis circulares estavam alojados em molduras que passavam pelas laterais e iam até as portas dianteiras. O 88 ficou bem mais largo e baixo e encorpado, estilo batizado de “Mobile Look”. A versão mais simples foi rebatizada de Dynamic 88, e o painel e volante eram novos.

Existia o interessante rádio Sportable, que podia ser retirado do painel (precursor das famigeradas gavetas) e, com baterias, antena e alto-falante portáteis, usados fora do carro. Era o iPod dos anos 1950.

ROCKET

O motor Rocket manteve a cilindrada de 6.100 cm3, mas com três níveis de desempenho: bijet, 265 cv e 53,9 mkgf no Dynamic; quadrijet, 305 cv e 56,7 mkgf no Super e três bijets, 312 cv e 574 mkgf no Super 88 com “pacote J-2”.

Em 1959, a GM trocou o Mobile Look pelo Linear Look, com desenho mais longo e baixo, e linhas mais limpas. A quarta geração do 88 tinha quatro faróis na grade, pára-choques menores e frisos laterais. Os sedãs com coluna central tinham três janelas de cada lado; e os cupês Holiday eram quase fastbacks.

Pela primeira vez, motores com cilindradas variadas equipavam os 88. O Dynamic 88 mantinha o 6.1V8, com 265 ou 300 cv conforme o sistema de alimentação, mas o Super 88 teve o Rocket aumentado: 6.5V8 com quadrijet, 315 cv e 60,1 mkgf. Foi a maior marca de potência e torque dos 88 até então.

Só estava disponível o câmbio automático de quatro marchas, e as carrocerias continuavam as mesmas. Outra novidade era a direção hidráulica mais pesada.

Grade e dianteira foram alterados para 1960, assim como o painel, enquanto a versão Dynamic estava “amansada” (240 cv e 51,8 mkgf) por conta da taxa de compressão menor.

1974: fim de linha para a série 88.

Os 88 de 1961 chegaram mais curtos e estreitos, e com o mesmo entre-eixos, mas usando o novo chassi Guard Beam. O desenho ficou mais simples. As carrocerias eram as mesmas, e a suspensão passou a usar molas helicoidais no lugar dos feixes de molas semi-elípticas. O motor 6.5V8 se tornou padrão, e os carburadores e taxa de compressão é que faziam a diferença.

POTÊNCIA

O Dynamic 88, com corpo duplo e taxa menor, tinha 250 cv e 56 mkgf; o Super, com quadrijet e a Ultra High Compression marcava 325 cv e 60,1 mkgf (era opcional para o Dynamic). A transmissão usava a caixa automática HydraMatic Roto de três marchas, menor e mais leve, opcional à de quatro velocidades.

Pouco depois foi apresentado o Starfire, luxuoso conversível esportivo. Derivado do Super 88, tinha bancos dianteiros individuais, console central com a alavanca de câmbio e comandos elétricos para os vidros e banco do motorista. Nessa versão, o motor de compressão mais alta tinha 335 cv e torque de 60,8 mkgf.

Mudanças menores aconteceram na linha 1962, como grade, pára-lamas, lanternas traseiras e o teto do cupê hardtop, que mais parecia a capota de um conversível. Os motores foram modificados de novo: 280 cv e 59,4 mkgf no Dynamic; 330 cv e 60,8 mkgf no motor Sky Rocket do Super 88, e 345 cv com o mesmo torque no Starfire, o top. Este último tinha 10,5:1 de taxa, a maior usada num Rocket.

No ano seguinte o desenho mudou, com linhas retas, a tendência dentro daquela década. Com os mesmos motores de antes, o Dynamic e o Super 88 tinham mais opcionais, como “cruise control”, rádio AM/FM e volante ajustável em seis posições. Mudanças de estilo, como grade e lanternas, vieram nos 1964, junto com a estreia do Jetstar 88, mais simples e barato. A idéia era combinar a carroceria da linha 88 com componentes mecânicos do F-85, o compacto da marca: motor 5.4V8 e 230 cv, caixa automática de duas marchas e freios mais simples.

COCA COLA

Para 1965, o Super 88 deu espaço para o Dynamic 88 Delta, que apresentava mais uma renovação de estilo, mas mantendo o entre-eixos. O capô e grade mudaram, e os pára-lamas traseiros eram no estilo “Coca Cola bottle”. No cupê Holiday, o teto continuava fastback, enquanto o Starfire tinha o vidro traseiro côncavo

E assim foi até o final dos anos 1980, quando o espaço para a Olds estava diminuindo. De marcas acima de um milhão de exemplares por ano, estava despencando para 671 mil em 1987 e menos de 500 mil em 1990. O problema estava, provavelmente, na falta de identidade da divisão dentro da própria GM: os modelos eram muito parecidos com os da Buick, e compartilhavam componentes e mecânica. Começaram então a cogitar o fim da Oldsmobile, antes mesmo de seu centenário. A verdade é que a marca ficou conservadora demais com o passar dos anos, e criou público avesso a novidades.

Com pouco menos comprimento (5,09 m), largura e altura, a última geração do Eighty-Eight foi apresentada em 1992. Já usava motor V6, a carroceria ganhou linhas curvas e os pára-choques eram pintados na cor do carro; as colunas dianteiras pretas simulavam um pára-brisa envolvente e ligado aos vidros laterais.

Nas duas versões -Royale e Royale LS, ambas quatro portas- o motor era o Buick 3.8V6, com 170 cv e 30,6 mkgf, que três anos depois passou a 205 cv. Freios com ABS e airbag para o motorista estavam disponíveis, assim como painel de instrumentos digital.

COM MOTOR V6

Alterações na dianteira e traseira o deixaram parecido com o Aurora em 1996, e as versões eram básica e LSS (Luxury Sports Sedan), com supercharger no V6 para chegar aos 240 cv, 35 a mais que o básica. Com a extinção do 98,  a Olds lançou em 1997 o Regency, um 88 com grade e pára-lamas dianteiros do descontinuado 98 e interior luxuoso, com bancos elétricos e de couro, ar-condicionado automático de duas zonas, controle de tração e suspensão traseira com nivelamento automático.

Esse Regency durou apenas dois anos, pois o legendário 88 já estava com os dias contados. A versão básica e a LSS chegaram ao fim de produção em setembro de 1998 com a série limitada “50th Anniversary Edition”, que comemorava justamente os 50 anos do modelo. O tradicional carro deixou a linha de montagem de Lake Orion, no Michigan, pela última vez, em janeiro de 1999. O então mais atual Aurora foi seu substituto até 2003, quando foi anunciado o fim da marca.

O FIM

Foram 50 anos de história, e o Oldsmobile 88 -como outros inesquecíveis carros da GM- por pressão do mercado, passou de destaque e objeto de desejo a desfrutar de importância secundária dentro da montadora. Foi ganhando tamanho e potência, para mais tarde perder esses atributos. Terminou seus dias como só mais um modelo conservador para clientes idem. Mas deixou uma legião de admiradores.


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