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Opel Kadett Rallye 4S. Motor Ford ???

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Grandes momentos da história, seja do automovel ou não, têm o poder de muitas vezes fazer com que nós tenhamos a capacidade de preterir injustamente partes ou participantes não menos importantes. Este Kadett é um claro exemplo disso.



Se alguém perguntar qual a ligação entre o lendário Grupo B de rali e o Opel Kadett, com certeza a resposta que teremos, incluindo aí muitos “petrolheads”, será: nenhuma!

O Grupo B de rali foi introduzido pela FIA (Federação internacional de Automobilismo) em 1982, como substituto do Grupo 4 (carros de turismo modificados) e Grupo 5 (carros protótipo de turismo). Durou até 1986.
Por isso, o Grupo B será sempre sinônimo de Audi, Lancia, Ford, Turbo, potências exageradas e protótipos disfarçados de modelos de produção, mas nunca se associa a Opel e o popular Kadett a este histórico período, onde parecia que tudo era possível. Nada poderia ser mais injusto com a marca alemã.

A Opel estava presente nos campeonatos de rali desde o final dos anos 1960. Os seus carros de competição sempre foram construídos com princípios tradicionais comprovados e simples: mecânicas confiáveis, carrocerias leves e fáceis de guiar. Sempre foram competitivos, e com Walter Röhrl a Opel conseguiu o seu primeiro grande triunfo internacional, vencendo o Campeonato Europeu de Ralis de 1974.

O sucesso levou a Opel a sonhar grande e tentar a sorte no campeonato mundial. Mas o fato de não ter um departamento de competição próprio, entregando o desenvolvimento de seus carros a preparadores externos como a Irmscher, afastou a Opel das vitórias.


Para a década de 1980, esse plano teria que ser alterado. Com uma atitude mais séria em relação às competições, a Opel desenvolveu o Manta B 400 Grupo B e o Ascona B 400 Grupo 4. Lançados em 1980, competiram em eventos selecionados no calendário do WRC, e a aposta da Opel deu resultados, com o retorno de Walter Röhrl –que tinha saído para a rival Fiat–  conquistando o título mundial em 1982.

O Opel Ascona 400 de Walter Röhrl.


Apesar do triunfo, estava claro que algo mais radical precisava ser feito para acompanhar a revolução causada pela chegada dos motores turbo e tração integral, iniciada pela Audi. A Opel procurou aproveitar o que havia de bom em termos de ideiais desta, mas sem o peso alto a a distribuição de massas errada do concorrente. E com o regulamento liberal do Grupo B, a Opel podia na prática construir um automóvel especial para competição, desde que produzisse as obrigatórias 200 unidades de rua para efeitos de homologação.

Direita3 – Desportos Motorizados » Opel Kadett 4S



Após experiências, em 1983 e 1984, com o Kadett D 400 –basicamente a mecânica do Manta B 400 na carroveria mais leve e compacta do Kadett D, mas apenas com tração traseira– e protótipo Manta B 400 4WD, a Opel avançou com o projeto definitivo, com base no recém lançado Kadett E, que é nosso velho conhecido.


Apenas a parte intermédia da carroria sobreviveu, com a frente e a traseira substituídas por estruturas tubulares de aço, específicas para receber as novas suspensões e o motor Cosworth 2.4 litros utilizado no Manta e no Ascona, montado na frente e em posição longitudinal, associado a uma transmissão manual de 6 velocidades X-Trac e, claro, tração integral. Com exceção do teto de aço, todos os painéis da carroceria foram construídos em materiais sintéticos para manter o peso baixo, que ficava em 960 kg e que poderia ser reduzido em cerca de 100 kg numa próxima evolução.

O baixo peso era apenas uma parte da equação de desempenho do Opel, e no que diz respeito à motorização, a Opel tinha problemas. Os 270 cv do motor Cosworth eram uma clara desvantagem, quando os adversários já ultrapassavam claramente os 400 cv, e continuavam a aumentar. Inicialmente com a aplicação de um compressor, e mais tarde, de um turbocompressor, os técnicos da Opel conseguiram relativamente competitivos 400 cv, mas isso acabou com a confiabilidade do motor.

Já estávamos em 1985, e a equipe estava sob enorme pressão para apresentar algo que pudesse ser realmente competitivo. Decidiram então usar a antiga tática de recorrer a preparadores externos, para resolver o problema da motorização.

Ao ver o sucesso que a Ford estava alcançando com o auxílio da Zakspeed, encomendam ao preparador alemão a concepção em tempo recorde de um motor para o Kadett. O resultado foi um motor de 1.9 litros capaz de, com confiabilidade, produzir 500 cv.

Na esquerda, o GSI de rua, e na direita, o modelo de competição. Muitas diferenças.


Numa coletiva de imprensa realizada com a pompa que a circunstância exigia, apresentaram o protótipo e anunciaram com orgulho o novo motor. Mas a festa durou pouco tempo. Após alguma pesquisa por parte da imprensa especializada, descobriu-se que o novo motor que a Opel tanto se orgulhava era, na verdade, um motor Ford!



A Opel tentou controlar o estragos ao afirmar que era apenas uma prova de conceito e não seria esse o motor que iria efetivamente utilizar, mas de pouco serviu. O erro acabaria sendo ofuscado por vários acidentes trágicos durante a temporada de 1986, e que conduziriam ao fim o Grupo B.

Com isso a Opel podia voltar a utilizar o seu motor e  preparar o Kadett para o novo Grupo S, categoria destinada a substituir a loucura irrestrita do Grupo B. Para o Grupo S, a potência do motor seria limitada a 300 cv o que permitiavoltar a usar o motor Cosworth 2.4 litros de forma competitiva novamente, e tentar restaurar a reputação destruída.

Opel Kadett E 4S (1986) - Racing Cars


A Opel construiu um carro para testar cada motor: o motor Zakspeed (Ford), o 2.4 aspirado, 2.4 Turbo e 2.4 com compressor. Este último utilizava os emblemas  da Vauxhall e foi inscrito Campeonato Britânico de Rally de 1986, como Protótipo, pilotado por Andrew Wood para atrair o mercado britânico e para continuar o desenvolvimento do projeto enquanto o Grupo S nao era implementado no Mundial.

Pesando cerca de 960 kg e produzindo apenas 340 cv de potência, o carro não estava preparado para lutar contra os monstros sobreviventes do Grupo B como o Ford RS200 e MG Metro 6R4. Mesmo assim, terminou em 4º lugar, dando à Opel esperança para o futuro.


Simultaneamente, a Opel adaptou dois dos carros para competir no Paris-Dakar de 1986. Os carros utilizavam motores 2.4 aspirados, com a potência reduzida para 250 cv, para evitar quebras e sobreviver à terrível qualidade da gasolina africana. Suspensão e chassis foram reforçados em pontos-chave e tanques de combustível de 300 litros foram instalados. As medidas ajudaram os Opel a suportar os rigores do deserto, mas também tornou os carros consideravelmente mais pesados.

Problemas com as suspensões modificadas e com o motor levaram a marca a não conseguir nada melhor que decepcionates 37º e 40º lugar.

No Paris-Dakar: só frustração.


O final da temporada de 1986 trouxe outro revés para a Opel, com a FIA anunciando também o cancelamento do Grupo S. A partir de 1987, o Grupo A se tornaria a categoria principal do WRC.

Com o fim do Grupo S, a Opel encerrou em definitivo o caótico projecto to Kadett Rallye 4S. Uma base pouco competitiva, talvez falta de capacidade inventiva dos engenheiros da Opel e, principalmente, mau timing, fizeram dele provavelmente o maior desperdício de recursos de um fabricante para produzir um automóvel à altura do Grupo B.


Apesar de nunca ter corrido como integrante oficial do campeonato, o Kadett teve um fim de carreira pouco digno. Uma das carrocerias que correu no Paris-Dakar foi vendido ao bicampeão britânico de Rallycross, John Welch. O carro foi adaptado aos regulamentos e exigências daquele campeonato. Welch manteve o motor Cosworth –ainda que reduzindo a sua capacidade para 2.1– mas instalou um satânico turbocompressor do motor BMW M12/13 utilizado na Fórmula Um. O resultado foram selvagens 650 cv.

Vauxhall Astra 4S / Opel Kadett E 4S – Group B & S Prototypes | Rally Group  B Shrine


1986 Vauxhall Astra 4S | | SuperCars.net


No campeonato britânico de Rallycross (acima) o Opel enfrentou os mesmos carros que originalmente foi construído para bater, e esteve à altura dos adversários. John Welch continuaria pilotando o Kadett até 1992 mas não conseguiu outro título com ele.

Parece que o Kadett Rallye 4S esteve desde o início destinado ao esquecimento e, ao que tudo indica, a Opel -no fim de tantas dificuldades- não se importou nem um pouco que isso tenha tenha acontecido.

Vauxhall Astra 4S / Opel Kadett E 4S – Group B & S Prototypes | Rally Group  B Shrine

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