Pablo Escobar e o Porsche de Emerson Fittipaldi

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Pablo Escobar é um nome associado à criminalidade colombiana, à violência sem limites, ao tráfico de cocaína e ao Cartel de Medellín. A série “Narcos”, da Netflix mapeia sua existência como um temido traficante, talvez o pior de todos. Mas o nome de Escobar não apareceu na mídia colombiana pela primeira vez sob acusação de tráfico de drogas, negociações políticas ou assassinatos. Ele era piloto de competição e até tentou colocar um piloto colombiano na Fórmula 1.

por Ricardo Caruso

Tudo começa com a produção em massa de carros no período pós-guerra, que gerou veículos acessíveis que se tornaram sinônimos dentro de suas respectivas nações de origem. A Alemanha tinha o VW Fusca, a itália o Fiat 500 e a França o Citroën 2 CV e o Renault 4 (lançado em 1961), que fez muito sucesso na Colômbia.

Pois o “Renaulito”, como é chamado por lá, que continua sendo uma boa lembrança do antigo automobilismo local. Foi este modelo, de apenas 24 cv, que iniciou a carreira (sem trocadilhos, por favor) de Escobar no automobilismo, mas também mais tarde apareceria em seu extenso currículo atividades ilegais, campanhas de violência e até gestos de caridade para manipular as pessoas mais pobres da Colômbia.

Escobar estreou na Copa Renault 4 em 1979 (batizada de “Coca Renault”), como muitas categorias monomarca que existiram no Brasil. Os carros deveriam ser de iguais especificações, mas Escobar era sempre muito mais rápido nas retas, sem que alguém tivesse coragem de questioná-lo sobre isso.

Ele terminou em segundo lugar no campeonato, após seis corridas disputadas, e naquela época já tinha sido preso algumas vezes, embora ninguém na imprensa colombiana que cobria automobilismo ousasse sugerir sua verdadeira ocupação para o público. Em 1974, ele foi preso pela primeira vez enquanto dirigia um Renault R4 verde, tal era o seu amor pelo carrinho.

“A equipe de Escobar aparecia nas corridas com dois caminhões de apoio. Ele era o único com esse tipo de operação, e ele chegava para correr em um helicóptero. Mas depois da corrida ele ofereceria a todos refeições luxuosas, com champanhe e mulheres inacreditáveis. Eu me pergunto até hoje se alguém realmente acreditava que ele não vendia droga”? Afirmou um competidor da Copa Renault 4 de 1979.

Don Pablo era um piloto entusiasmado, mas mediano, e não ajudava nada que sua rotina pré-corrida envolvesse fumar maconha para “concentrar sua mente”. Nem todos podem ter a habilidade natural de um Ayrton Senna ou Lewis Hamilton…

A criminalidade paralela de Escobar se infiltraria em suas atividades de automobilismo além de apenas bancar as despesas. Em uma ocasião, no meio da temporada de 1979, ele combinou com a polícia para segurar um de seus rivais a caminho do circuito, para impedi-lo de correr.

A polícia já estava envolvida com o esquema criminoso do piloto-bandido, assim como a maior parte da Colômbia, já que as receitas geradas com o tráfico de cocaína eram maiores do que o PIB nacional. À medida que o império de Escobar crescia, suas ambições em filiar seu dinheiro com o automobilismo também aumentavam. Ricardo Londoño era o melhor piloto colombiano ao longo dos anos 1970, e foi apoiado financeiramente por Escobar no cenário internacional.

Ricardo Londoño, primeiro colombiano da Fórmula 1, ao volante do Ensign em Jacarepaguá.

Os dois eram próximos, e Escobar desafiava Londoño a pilotar o seu carro na Colômbia e apostava em poder terminar no máximo 5 segundos atrás de qualquer tempo que Londoño registrasse. Eles frequentemente aceleravam o Porsche 911 RSR de Escobar nas cercanias de Bogotá e Medellín, mas essas “reuniões” também envolviam planos mais ambiciosos.

Londoño conseguiu uma sessão de testes com a equipe Ensign de Fórmula 1 em 1981, que aconteceu na véspera do GP do Brasil no circuito de Jacarepaguá. Seu ritmo justificava a largada da corrida, ele estava a quatro segundos de Carlos Reutemann, mas mais rápido do que Nelson Piquet e René Arnoux, que estavam em carros que deveriam ter sido mais rápidos que Londoño no Ensign.

Mas o caminho do dinheiro que o levou à Fórmula 1 foi rapidamente rastreado, ligando Londoño ao dinheiro sujo do Cartel de Medellín. Assim, Bernie Ecclestone e outros poderosos que comandavam a Fórmula 1 negaram seu pedido de uma super-licencia, mas na época isso foi justificado por uma colisão com o Fittipaldi de Keke Rosberg na sessão de testes. Eles estavam claramente com medo de colocar o amigo de Pablo Escobar para fora e tornar pública essa quase involuntária conexão da F-1 com o cartel.

Londoño se contentou em fazer carreira nos Estados Unidos e algumas provas de Fórmula 2. Ele viveu até 2009, quando foi assassinado junto com dois guarda-costas na Colômbia, em um incidente ligado a uma disputa entre chefões opositores da venda de drogas. Escobar morreu em confronto com a polícia bem antes, em 1993. Seu currículo como piloto limita-se a quatro anos, mas foi responsável pela morte de pelo menos 6000 pessoas, três candidatos à presidência, queda de um avião comercial e morte de uma das suas amantes, entre outros. Seu envolvimento com o tráfico começou em 1966 e estima-se que ele movimentou mais de US$ 60 bilhões atualizados. Dava não só para colocar um amigo em um dos carros, como para comprar a categoria toda…

GALERIA: O que sobrou da coleção de Escobar

A tentativa de alinhar suas finanças com a Fórmula 1 serviria para Escobar tirar parte de seu dinheiro da ilegalidade e torná-lo legal. Não deu certo, e ele continuou colecionando carros esportivos e de luxo, mantidos ao lado de uma frota de Renault R4. Após sua morte, a maioria dos carros foi vandalizada.

Escobar era um monstro, reverenciado pela população colombiana com a falsa ideia de que tudo o que ele fazia era para o benefício da Colômbia.

Nessa história, surge uma passagem que o une a Emerson Fittipaldi. Ambos foram donos do mesmo Porsche 911 RSR 1974. Isso mesmo, além de ter tido como dono o piloto brasileiro, o carro acabou sendo comprado por Escobar.

Este carro, com pintura original amarela, nasceu para participar na International Racing of Champions (IROC). Foram produzidos 14, e este exemplar acabou sendo adquirido pelo bicampeão de F-1. Este carro acabou não vencendo nenhuma das três etapas, embora tenha conseguido uma pole position.

O Porsche, novamente tocado por mãos dignas.

Depois do mau resultado na IROC, o Porsche foi vendido e acabou participando da “24 Horas de Daytona” em 1978. Depois disso, o 911 RSR mudou de donos várias vezes, até encontrar um lugar na garagem de Pablo Escobar.

Este levou o Porsche para as pistas para disputar quatro provas na Colômbia. Após a morte do “Rei da Cocaína”, ele ficou a salvo, guardado num galpão, antes de ser localizado e levado de volta para os Estados Unidos, onde Roger Penske promoveu uma excelente restauração do carro.

Após o recuperação, o Porsche 911 RSR reconquistou seu visual original, com a pintura amarela de 1974 com a qual competiu na IROC de 1974. Dada a sua incrível “vida dupla”, pilotado por um gênio e por um criminoso sanguinário, o carro apareceu para venda no ano passado avaliado em US$ 2,2 milhões , mas foi vendido por US$ 875 mil. Os interessados ficaram com medo de alguma represália dos ainda existentes seguidores do traficante, mesmo quase 30 anos após sua morte.


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