Pão-duro: o Corsa que fazia 33 km/litro

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Neste ano, o Corsa comemora o seu 40.º aniversário (veja aqui), é interessante relembramos o projeto Corsa Eco 3, da Opel, que deixa claro mais uma vez que a busca incessante por automóveis mais eficientes e econômicos é quase tão antiga como a própria história do automóvel. E traz, mais uma vez, a questão do “carro certo na hora errada”. Era conhecido como o “Corsa 3 litros”, não que tivesse um motor de 3.000 cm3 de cilindrada (o que seria maravilhoso…), mas sim porque precisava de míseros 3 litros de diesel para rodar 100 km. Por isso o nome Eco 3.

por Ricardo Caruso

Opel Corsa Eco 3
O interessante desenho das rodas deixa claro as preocupações com o desempenho aerodinâmico. Os pneus, nas medidas 155/70-13 eram bastante estreitos, para reduzir a resistência ao rolamento.

Lançada em 1993, a segunda geração do Corsa (a mesma que foi produzida no Brasil com estrondoso sucesso) continua sendo a mais bem sucedida de todos os tempos, com suas quatro milhões de unidades vendidas. E parte do seu sucesso, em especial no mercado europeu, deveu-se às versões equipadas com os motores Diesel da Isuzu, ainda hoje reconhecidas pela sua simplicidade e durabilidade. O Brasil não conheceu o Corsa a diesel por impedimentos de legislação.

Opel Corsa Eco 3

Mas para os engenheiros e técnocos da Opel, era possível ir mais longe neste quesito de eficiência e economia de combustível, dando assim o rumo a ser seguido com o Corsa Eco 3.

Opel Corsa Eco 3
Apesar do objetivo do Corsa Eco 3 ser o consumo reduzido, os novos componentes aerodinâmicos conferiam ao carro um visual esportivo até mais interessante que o do Corsa GSi.

Contudo, o desenvolvimento do projeto Eco 3 não era algo daquele momento, pois a Opel; a Opel já o vinha fazendo estudos e testes há vários anos, sempre à procura de reduzir o consumo de combustível dos seus automóveis. Em 1991 já havia apresentado o Eco 2, um protótipo baseado no então novo Astra F, que consumia até menos 27% de combustível do que um motor a gasolina semelhante, fixando-se nos 20 km/litro de gasolina.

Opel Corsa Eco 3
Os bancos dianteiros eram Recaro e pesavam apenas 21 kg; o banco traseiro foi mantido, pois não havia como economizar peso nele.

Em 1993 a marca alemã apresentou o primeiro Corsa Eco 3, ainda com base na primeira geração do Corsa, e mais ambicioso nos objetivos: 25 km/litro. Esta meta foi alcançada, reduzindo os consumos em 22% diante dos face aos 19,6 km/litro do Corsa 1.5 TD no qual era baseado.

Estes estudos culminariam, em 1995, com a exibição do Corsa Eco 3 no Salão de Frankfurt, agora com base na segunda geração do carrinho alemão. Foi o mais ambicioso de todos, pois o objetivo era o de chegar aos 33,3 km/litro.

Opel Corsa Eco 3
Para economizar peso, os amortecedores e componentes do sistema de freios foram produzidos de alumínio.

O “33,3 km/litro”, mais que uma meta, era um objetivo de marketing de muitas marcas, afinal era um número impressionante. O Corsa Eco 3 acabou por conseguir atingir esta meta em grande parte.

Mas como o conseguiu fazer isso? Alguns dos ingredientes para conseguir níveis de consumo mais baixos são antigos conhecidos da indústria automóvel, mas são caros e nem sempre as empresas querem investir nisso. Um deles é o de reduzir a resistência aerodinâmica, para que menos energia seja necessária para vencer o ar.

Mas tendo como ponto de partida o Corsa B, cujo coeficiente de penetração aerodinâmica (Cx) de 0,37 não era grande coisa, ao contrário do que se pode imaginar (pior que a maioria dos SUV de hoje) , seria sempre um desafio conseguir que vencesse o vento de forma mais eficiente.

Com a aplicação der apêndices aerodinâmicos (capô mais arredondado, novo para-choque dianteiro, spoiler na tampa traseira e saias laterais, com generosos defletores nas rodas traseiras), para permitir um fluxo de ar mais contínuo. Assim, o objetivo foi alcançado. O Corsa Eco 3 ficou com o Cx de apenas 0,295, valor excelente para a altura e, sobretudo, para um carro hatch pequeno; este valor só foi melhorado na categoria pelo pelo Audi A2, em 1999.

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As saias laterais foram importantes itens no quesito aerodinâmica

O resultado final foi um modelo cuja resistência aerodinâmica foi melhorada em 20% comparado com os os modelos de série e que, ao mesmo tempo, dava ao Corsa Eco 3 um visual mais esportivo e atraente.

O outro ingrediente fundamental para consumos mais baixos é a velha receitinha de Colin Chapman: o de reduzir o peso do veículo. Era obrigatório cortar cada quilo extra, e a Opel não olhou a planilha de custos para conseguir isso.

Nas portas, capô, tampa traseira e “alma” dos para-choques, o aço deu lugar à fibra de carbono. Ao fazer isso, foi possível poupar 80 kg em relação ao Corsa de produção. Já a substituição dos vidros usados nos faróis e nas janelas, por policarbonato, permitiu cortar mais 17 kg.

As rodas de aço foram trocadas por outras de magnésio, mais frágeis porém mais leves (menos 9 kg), a carcaça da caixa de câmbio era feita do mesmo material , e o alumínio foi abundantemente usado no sistema de freios e suspensão. Até a direção assistida foi deixada de fora.

Calculadora na mão, no final o Opel Corsa Eco 3 acusava na balança apenas 720 kg, o que significava que a dieta significou a poupança de 225 kg, deixando muito claro que o regime custou caro mas foi bem sucedido.

Se hoje recorre-se à eletrificação parcial do motor de combustão para também baixar os consumos e emissões, na década de 90 os motores Diesel eram a solução para se percorrer mais quilómetros com menos gasto de combustível.

Para alegrar o Opel Corsa Eco 3 havia um motor 1.7 l turbo diesel com injeção direta e 16 válvulas —motores multiválvulas eram pouco comuns na época, ainda mais nos diesel—, com 63 cv de potência máxima e 14 mkgf de torque máximos já disponível a 2000 rpm. Além disso, usava um sistema “Start/Stop”, já conhecido na Europa desde 1982, mas que só se popularizou neste século. Esse motor prometia consumos recorde. E cumpria suas promessas.

Enquanto o Opel Corsa B 1.5 TD anunciava médias de 18 km/litro de diesel, o Corsa Eco 3 conseguia melhorar muito esse valor, anunciando médias tão baixas como 29,4 km/litro. Quem avaliou este protótipo 100% funcional, confirmou que, numa condução mais recatada e em velocidades constantes, era possível alcançar os 35,7 km/litro. Em trânsito urbano, marcava fácil 25 km/litro cidade. Em comparação com os Corsa B normais, a redução do consumo de combustível foi de 38%.

O simpático Corsinha podia ser uma espécie de rei do consumo, mas não era um campeão nas saídas dos semáforos. Apesar da peso reduzid, os 63 cv do 1.7 TD garantiam ao Corsa Eco 3 aceleração de zero a 100 km/h em 15 segundos, enquanto a velocidade máxima fixava-se nos 150 km/h, mais ou menos o mesmo desempenho do Corsa Wind 1.o nacional.

Na lista abaixo, podemos verificar a escalada da economia de combustível em cada ponto e como cada solução contribuiu para reduzir o consumo do Corsa Eco 3:

  • 21,73 km/l com aplicação da injeção direta no motor 1.7 TD, que fazia 18,18 km/l;
  • 22,72 km/l com as melhorias aerodinâmicas;
  • 25 km/l com redução de peso;
  • 27,02 km/l com comportamento dinâmico melhorado;
  • 28,57 km/l com nova relação final de transmissão;
  • 29,41 km/l com sistema Start/Stop.

Apesar da produção do Opel Corsa Eco 3 ser totalmente possível, este modelo nunca passou da fase de protótipo. A razão é simples: o preço de venda final ao consumidor seria muito alto, por conta dos materiais sofisticados usados para reduzir o seu peso, como a fibra de carbono, alumínio ou o magnésio.

Pelas contas da Opel, caso o Corsa Eco 3 tivesse chegado aos concessionários, seu preço seria idêntico ao de um Mercedes-Benz Classe C da época, e assim seria muito difícil convencer alguém a dispender tanto dinheiro por um humilde Corsa? A economia de combustível seria quase impossível de ser amortizada…


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