Por que as pistas de arrancada medem 1/4 de milha?

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Não há nenhuma explicação oficial para que a distância das corridas de dragster (arrancada, no Brasil) seja de 1/4 de milha (402, 34 metros). O fenômeno das corridas de arrancada começou de forma ilegal e, por isso, eram livres de qualquer regra. Mas é uma longa e interessante história.

por Ricardo Caruso

Drag Racing

Vamos recuar até à década de 1930, época em que as planícies do lago de Bonneville, um enorme deserto de sal no Estado do Utah, Estados Unidos, era o Olimpo dos amantes da velocidade.

As corridas em Bonneville ganharam importância tão grande que logo surgiu a necessidade -e o interesse financeiro, claro- de organizar melhor os eventos e dar a eles algum formato mais profissional. Foi criada assim a SCTA (“Southern California Timing Association”), entidade que ficou responsável por organizar as corridas que ali aconteciam. Entre os membros da direção da associação, estava um jovem chamado Wally Parks. Foi ele que em 1937 fundou a sugestiva “Road Runners Club” (algo como Clube dos Corredores de Ruas…).

Wally Parks
Wally Parks , o “pai” das corridas de dragsters.

O Road Runners Club era, antes de mais nada, um grupo de amigos que se juntava para disputar “rachas” lado a lado, característica que viria a definir as provas de dragster ou de arrancada. Vamos voltar a falar de Parks mais adiante.

Em 1945, depois de seis anos de conflito, o mundo saía finalmente de um dos períodos mais negros e deprimentes da sua história. Terminava a II Guerra Mundial, Adolf Hitler estava derrotado, o Japão bombardeado por artefatos atômicos e os Aliados restabeleceram a paz. Na verdade, um feito que teria sido impossível sem a intervenção dos Estados Unidos.

Quando os soldados americanos regressaram da guerra para suas casas, para muitos não foi fácil voltar a ter uma vida normal e reconquistar uma rotina. A paz e o crescimento econômico do pós-guerra era tudo o que ambicionavam, mas faltava algo. Faltava a adrenalina, cheiro de gasolinba e fortes emoções.

Com o crescimento econômico assustador vivido naquele período, ninguém queria saber dos carros usados, a maioria anteriores a 1940 (durante a Guerra poucos carros foram fabricados ou atualizados, em detrimento do esforço de guerra). Todos tinham dinheiro e queriam os extravagantes carros novos. Todos, menos os jovens, muitos deles ex-combatentes vindos da guerra.

hot rod história drag racing

Agora, basta juntar a esta conta o crescimento econômico imenso, pleno emprego, carros baratos e conhecimentos mecânicos adquiridos no exército. Foi a mistura perfeita! Bastava pegar um carro bem antigo, colocar nele uma mecânica menos antigas e tínhamos um “hot rod” na garagem. E o que fazer com eles? Simplesmente correr.

Por todos estes motivos, a cultura dos “Hot Rods” teve naquela época seu período de glória. E como era de se esperar, a sua dimensão cresceu de maneira tão rápida que logo deixou de ser um brinquedo exclusivo para os rachas e para disputas no lago de Bonneville. Nos Estados Unidos, em pouco tempo, os “hot rods” estavam por toda parte.

Já não se tratava apenas da preparação e transformação dos carros. Era muito mais do que isso. Era um estilo de vida, uma afirmação pessoal”.

As corridas ilegais começaram a ser cada vez mais frequentes (na verdade, nasceram quando o segundo automóvel foi fabricado e desafiou o primeiro…). Algumas vezes de forma organizada, outras vezes de forma espontânea, bastava dois “hot rods” se encontrarem num sinal vermelho, que o resultado era aquele que sabemos. Mas também haviam corridas organizadas em pequenos aeroportos, mais seguras.

Como vimos, as corridas de arrancada nasceram de forma ilegal, sem qualquer regra a não ser acelerar quando o farol abrisse. E por que 1/4 de milha? 

Naquela época a distância média de um quarteirão nos Estados Unidos era de 201 metros (1/8 de milha). Como a maioria dos semáforos costumavam ser separados por dois quarteirões, as corridas acabavam sendo disputadas numa distância de 1/4 de milha (402,34 metros), até fechar o próximo sinal.

Mas há outros motivos. O fato da distância ser relativamente curta e rápida favorecia outros fatores importantes para a popularidade desta atividade fora da lei:

  • Competitividade. Se a distância fosse maior, ganharia sempre o carro mais potente. Com corridas curtas, era premiado o talento e agilidade do motorista.
  • Espetáculo. Os 400 metros permitem a quem assiste ver o início e o fim da corrida.

Voltando ao jovem Wally Parks de quem falamos antes. Parks é considerado o “pai” das corridas de dragsters, tal como Santos Dumont é considerado o “pai” da aviação e Chubby Checker o “pai” do twist

Em 1950, Parks esteve envolvido na construção de uma das primeiras pistas de arrancada, a “drag strip” de Santa Ana, na California. No ano seguinte, aproveitando a visibilidade que a revista “Hot Rod” lhe dava —onde era editor— Parks criou a “National Hot Rod Association” (NHRA), estabelecendo os primeiros regulamentos técnicos para as provas de arrancada. Esse passo foi dado com o apoio total das autoridades e da policia, pois era uma forma de tirar as corridas da rua.

A corrida de dragster é a combinação de muitos fatores. Hobby, diversão, negócios, engenharia, desafio e superação”.

Dos rachas ilegais, as corridas de dragsters herdaram quase tudo: os tais 400 metros (ainda que sejam disputadas também em outras distâncias), um semáforo para a largada e a partida com os carros parados. Preservou-se o tradicional “quarter mile” pelas razões que apontamos antes e também por questões econômicas. Distâncias maiores resultam em velocidades superiores, que exigem espaços de frenagem mais longos, o que significa mais asfalto e mais custos.

Pistas mais longas significam mais asfalto e custos maiores”.

Top Fuel Drag Racing
Atualmente, os dragsters das categorias superiores, como os Top Fuel, são capazes de vencer o quarto de milha em pouco mais de 4 segundos, atingindo nesse curto espaço mais de 500 km/h de velocidade máxima.

Wally Parks morreu em 2007, teve uma vida longa e sempre ligada aos automóveis. Além de “pai” das corridas de dragsters, foi também um dos fundadores da revista “Road & Track”, uma das referências de AUTO&TÉCNICA desde sempre.

Questionado numa entrevista sobre o que o motivou a desenvolver esta modalidade, a sua resposta foi clara e apaixonante: “simplesmente eu não queria crescer”.

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