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TESTE: Renault Kardian Première Edition 1.0 Turbo

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Nos últimos anos, os carros da Renault eram uma espécie de “patinhos feios” do mercado. Não que fossem ruins, mas se diferenciavam dos concorrentes basicamente pelo preço. Era o período em que Logan e Sandero vieram para as ruas em busca de volumes de vendas, trazendo como apelo -além do preço competitivo- o bom espaço interno e robustez. Afinal, eram carros de origem Dacia, romenos, onde resistência é o melhor apelo possível. O Duster, em 2020, trouxe novos ares para a marca e vem evoluindo muito (confira o teste recente que fizemos do SUV aqui). O Kwid é o Kwid, e o Captur não foi um sucesso de vendas. Assim, vai caber ao Kardian a honra de começar a virar a mesa para a marca no Brasil.

por Ricardo Caruso

O Kardian começou a nascer há dois anos, quando a Renault iniciou seus planos para o seu futuro da empresa no Brasil, programando investimento de R$ 2 bilhões para a fábrica de São José dos Pinhais, PR. O esperado SUV compacto que estava no planejamento era justamente o Kardian, que seria equipado com o novo motor TCe 1.0 turbo, da mesma “família” do TCe 1.3 turbo desenvolvido em conjunto com a Mercedes-Benz, e traria embarcada uma boa dose de tecnologia, demonstrando que a marca queria ser reconhecida por modelos atuais e competitivos em alto nível, e não mais pela simplicidade anterior.

AUTO&TÉCNICA avaliou o Renault Kardian na versão Premiére Edition, que marca o lançamento do modelo. Ele é oferecido em outras duas versões, Evolution e Techno. A Premiére Edition, top de linha, custa R$ 132.790; já a Evolution, de entrada, começa em R$ 112.790 e a intermediária Techno, R$ 122.790.

Um SUV compacto ou um hatch avantajado? Na verdade, os dois. Suas dimensões são de 4.119 mm de comprimento (acredite, apenas 6,9 cm a mais que um Fusca!) com 1.747 mm da largura, 1.544 mm de altura sem contar o rack do teto (mais 5,2 cm) e distância entre-eixos de 2.604 mm. Seu peso é de 1.186 kg. Como disse o Bob Sharp certa vez, “todo SUV é hatch, mas nem todo hatch é SUV”. E é aí que o Kardian agrada esses dois públicos. diferentes: parece um hatch médio e tem características típicas dos SUVs urbanos menores.

Sua base é montado na plataforma RGMP (Renault Group Modular Plataform), que traz alguma coisa da MF-B usada no Stepway. A RGMP que agora é aplicada, vai dar origem mais adiante a dois SUVs médios e uma picape para ocupar o lugar da Oroch, os três já cnfirmados pela marca. É notável como a Renault deu um enorme salto adiante com o Kardian e a plataforma RGMP. Tudo evoluiu, em especial suspensões e direção, que trabalham direto na base usada em cada carro. O Kardian mostra modernidade, e além dessa plataforma modular que suporta veículos de 4 a 5 metros de comprimento, chegou com desenho bem cuidado e alinhado com a identidade visual da marca na Europa; excelente dirigibilidade, motor eficiente, câmbio automatizado de seis marchas e dupla embreagem, cuidados com a na segurança (incluindo vários sistemas de auxílio ao motorista) e luzes de LED, entre outros.

A carroceria mistura linhas agradáveis e atuais, com a nova identidade visual da marca sendo a protagonista. É representado pelo logotipo “Nouvel’R” e pelo novo padrão de iluminação característico dos Renault. Incluindo sua altura em relação ao solo e rack de teto (com barras reguláveis), o novo Kardian tem tudo o que se espera de um SUV do segmento.

Suas proporções, graças à distância entre-eixos de 2,60 metros, dão ao Kardian um visual compacto. Diferente do Kwid (que um dia foi taxado de SUV), as referências clássicas dos SUVs são imediatamente reconhecíveis por meio de seu capô plano ou até mesmo seu para-choque, reforçado com protetores. Na traseira, a queda acentuada do teto e a janela inclinada dão dinamismo ao desenho. Os faróis são full-LED e, na traseira, as lanternas são em forma de “C”. 

Por dentro, bom espaço interno, e mesmo sendo um SUV, não te força a uma posição de dirigir alta, algo que não agrada a todos. O Kardian pode acomodar o motorista como num hatch, em posição mais baixa. A nova plataforma oferece melhores possibilidades para a ergonomia, e tudo fica mais fácil com a combinação de ajustes de bancos e volante (em altura e distância). Os bancos são confortáveis e não oferecem a opção de revestimentos com material que imita couro, e sim usa tecido. Traz nessa versão de lançamento pespontos em laranja e apliques com o símbolo da Renault.

O painel é bem desenhado, com instrumentos digitais, e traz uma boa tela central para o multimídia, com oito polegadas e que espelha smartphones por sistema sem fio. O painel de instrumentos tem tela de sete polegadas e oferece leitura fácil das informações, como computador de bordo, velocímetro e assistentes de condução. Junto ao volante é possível acessar o seletor de modos de condução (Eco, Sport e o My Sense). O My Sense configura ajustes nas respostas do motor e câmbio, peso da direção e as luzes internas. Outro botão, no painel, acessa um menu, fácil de configurar, de outras funções do carro. O porta-mals tem 358 litros de capacidade e até 26 litros de capacidade interna de armazenamento, muito bom para o porte do Kardian.

O motor é TCe 1.0 turbo, flex, uma pequena obra de arte. Traz o código H5DT e é basicamente o 1.3 turbo (código H5HT) usado na Oroch e no Duster, mas com um cilindro a menos. Do 1.3 traz como prova da origem as mesmas medidas de diâmetro e curso, e todas tecnologias, de variador de fase nos comandos de admissão e escapamento, até injeção direta e preparação para redução de atrito das partes móveis. Sua paridade com o 1.3 é inteligente, pois facilita a fabricação e reduz custos por conta do compartilhamento de componentes. Trabalha em conjunto com o câmbio automatizado de dupla embreagem e seis marchas, conhecido como DW23. 

Esse não é o 1.0 mais potente do mercado, mas é o que oferece maior torque. Tem 120 cv (G)/125 cv (E) de potência máxima a 5.000 rpm e 20,4 mkgf de torque máximo a 2.000 rpm (G) e 22.4 mkgf a 2.250 rpm (E). Usa duplo comando de válvulas com acionamento por corrente, variação de fase na admissão e escapamento, e atuação direta das válvulas com fingers roletadas e tuchos hidráulicos  A injeção de combustível é direta, e o turbo com intercooler alimentas os cilindros com 1,5 bar de pressão; a válvula de alívio é elétrica com gerenciamento eletrônico. A suavidade de funcionamento impressiona, graças ao uso de volante do motor de dupla massa, mais o bom trabalho da engenharia da marca com os coxins -de motor e do câmbio- para manter sob controle vibrações indesejáveis.

O câmbio DW23 é da Magna-Getrag, vendido com o sobrenome EDC (“Efficient Dual Clutch”). Trata-se de um câmbio automatizado de dupla embreagem, em banho de óleo, que oferece trocas de marchas sempre suaves e muito rápidas. Estas trocas também podem ser feitas de forma manual sequencial, usando os “paddle shifters” (“borboletas”) por trás do volante. Não há alavanca de câmbio e a escolha das marchas é feita por meio de um pequeno seletor elétrico no console.

Quando abastecido com etanol, o Kardian se mostrou econômico, dentro é claro do que se espera de um SUV com motor 1.0 turbo. Ficamos entre 8,7 km/litro na cidade e 10,8 km/litro na estrada. Acelera de zero a 100 km em 10,1 segundos, abastecido com etanol, e a velocidade máxima é limitada em 180 km/h.

O SUV surpreendeu pela boa dirigibilidade. Sua direção eletro-assistida é leve em baixa velocidade e vai ganhando peso conforme o velocímetro avança. A Renault não publicou a relação da direção, apenas o diâmetro de giro, que é de 10,9 metros. Os freios, com discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, estão perfeitamente adequados à proposta do carro, e as suspensões -dianteira tipo McPherson e traseira com eixo de torção— são eficazes, conciliando bem conforto e estabilidade. Para quem gosta de acelerar um pouco a mais, tudo tranquilo: a direção tem sempre respostas rápidas e a carroceria tem baixo rolling (inclinação); o modo Sport, por exemplo, leva as trocas de marchas para rotações mais altas. O Kardian contorna bem as curvas no seco e no molhado, com uma leve tendência a sair de frente, fácil de controlar. As rodas desta versão são de liga-leve, aro 17, com acabamento diamantado. São calçadas com pneus Pirelli Scorpion 205/55 R17V. A distância mínima do solo, de 20,9 cm, deixa o SUV no ponto para enfrentar valetas e lombadas sem dificuldades.

Os sistemas de auxílio ao motorista incluem câmera de ré, câmera multivisão com imagem projetada no multimídia, cruise control, cruise control adaptativo, frenagem autônoma de emergência, limitador de velocidade, monitoramento de pressão dos pneus, repetidor dos piscas nos espelhos, sensores de estacionamento na frente e atrás, sensor crepuscular e sinalização de frenagem abrupta.

CONCLUSÃO

Sem dúvida, o Kardian é o melhor Renault fabricado no Brasil até hoje. É um projeto atual, que o coloca como um concorrente de peso no mercado dos SUVs compactos. Pelo seu jeitão, vai atrair compradores de segmentos acima. Por R$ 132.790, o Kardian Premiere Edition (que com certeza deverá ganhar um nome definitivo para esta versão top de linha), oferece uma boa lista de equipamentos e tecnologias. Na parte mecânica, tudo casou bem e funciona de forma correta. E vale a pena? Com certeza.


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