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“Fly me to the Moon”: quando a GM visitou a Lua

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Imagine três carros que custaram juntos US$ 38 milhões, foram usados por apenas 10 horas e 54 minutos e percorreram míseros 90,5 km. E depois disso foram abandonados. Agora, acredite que por trás disso está a  General Motors que, entre outras inovações, pode ter em seu currículo o fato de já ter foi à Lua. Estamos falando do Lunar Roving Vehicle, ou LRV (veículo explorador da Lua), pequeno carro elétrico que permitiu aos astronautas de três das missões Apollo se deslocarem para locais um pouco mais distantes da área de pouso dos módulos lunares.

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 Com isso, foi possível realizar observações geológicas, coletar amostras de rochas e de solos e fazer o uso de instrumentos científicos, em vários pontos da Lua. O carrinho foi usado nas missões Apollo 15, 16 e 17, e a GM participou de maneira decisiva desse projeto.

Hoje,  passados quase 50 anos da descida do homem no satélite (Apollo 11, em 20 de julho de 1969), é importante relembrar e  valorizar o heroísmo dos astronautas, ainda mais sabendo que o computador usado a bordo da nave tinha menos capacidade de memória do que o relógio que está no seu pulso hoje. O veículo lunar foi usado pela primeira vez na missão Apollo 15 (o quarto pouso na Lua), trabalhando na exploração de regiões distantes cerca de 5 km do local de pouso.

AS RODAS

Poucas empresas tinham tecnologia no começo dos anos 1970 para participar do desenvolvimento do RLV, trabalho este autorizado em 7 de abril de 1969, três meses antes mesmo da chegada do homem na Lua, e aprovado em 23 de maio daquele ano.

O General Motors Defense Research Laboratories ficou encarregado de uma área vital do veículo: rodas, direção, suspensão e sistema de tração. As rodas eram feitas com uma rede de fios metálicos, reforçados com titânio, sem pneus. Não foi utilizada borracha sólida ou vazada, para economizar peso, pois a Apollo e o módulo lunar podiam transportar apenas uma determinada e reduzida massa fixa, e as rodas constituídas de malhas de metal foram importantes para manter baixo o peso do veículo.

As rodas eram uma estrutura de alumínio, com 81 centímetros de diâmetro e 23 cm de largura, revestidas de uma camada de 0,84 mm de zinco. Hastes de titânio em “V” cobriam 50% da área de contato com o solo, para garantir a tração, e as rodas eram altas para ajudar a superar pedras e buracos da superfície lunar. Paralamas foram montados em cada roda, ara proteger o veículo e astronautas da poeira.

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A tração era elétrica, e cada uma das rodas tinha um motor elétrico Delco, de 0,25 cv a 10.000 rpm, com relação de transmissão de 80:1. As manobras de direção eram feitas por meio de outros dois motores, com diâmetro de giro de apenas 3 metros, comandadas por uma espécie de joystick. A energia era fornecida por duas baterias de 36 volts cada, de prata e zinco, de 121 Ah, não recarregáveis, usadas não só para tração e direção, mas também para alimentar o sistema de comunicação e câmera de TV. Tinha torque elevado e baixa velocidade: 13 km/h, com autonomia de 92 km. As baterias eram revestidas de material térmico, para se manterem a baixas temperaturas e ficarem protegidas de poeira.

DOBRÁVEL

O LRV tinha 3,1 metros de comprimento e 2,3 m de largura. Consistia basicamente em uma estrutura de alumínio de peso total de 210 kg na Terra e 36 kg na Lua. Podia suportar peso máximo de 480 kg (terrestres), sendo que 353 kg distribuídos entre o peso dos astronautas e sistema de suporte de vida (oxigênio, água e alimentos); 45,4 kg para os equipamentos de comunicações; 54,5 kg para os equipamentos científicos e 27,2 kg de amostras de rochas e solos da Lua. Totalmente carregado, o vão livre sob o veículo ficava em 36 cm.

O chassi foi feito de forma a ser levado para a Lua dobrado, sempre por questões de espaço. Media apenas 0,90 m x 1,50 m x 1,70 m dentro do módulo lunar, e sua estrutura era montada em 20 minutos.

Entre os equipamentos, levava giroscópio, hodômetro e computador de navegação, que fornecia a distância do veículo em relação ao módulo lunar. Um dos instrumentos científicos mais importantes que foi transportado pelo RLV foi um gravímetro, utilizado para medir e mapear o campo gravitacional da Lua.

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Os equipamentos de comunicações, bem como duas câmeras de TV eram localizados na dianteira do veículo. Ele podia subir rampas com 25º de inclinação e era fácil de ser conduzido em superfícies irregulares.

O veículo era comandado por uma alavanca em forma de “T”, situada entre os dois assentos, que comandava os quatro motores de tração, os dois de direção e os freios. Para a frente, o veículo se movia reto; esquerda ou direita era a direção e, para trás, era acionado o sistema de freios. Para a marcha a ré existia um botão. Um painel na dianteira indicava ainda velocidade, direção, energia gasta e temperatura das baterias.

MUITO CARO

O custo para o desenvolvimento firmado com a Boeing (que sub-contratou a GM/Delco) foi estimado em US$ 19 milhões, com data de entrega do primeiro LRV em 1 de abril de 1971. Mas o custo final ficou no dobro, em US$ 38 milhões, ou seja, cerca de US$ 9,5 milhões cada um dos quatro jipes lunares que foram feitos (três usados na Lua e um para testes na Terra). Mas foram feitos outros modelos do jipe lunar, como um estático (para ajustar a ergonomia); um de engenharia, para definição e projeto dos sistemas a bordo; dois em escala 1:6, para teste de equipamentos; um para treinamento na falta de gravidade; outro para checar os efeitos do rodar na Lua na estrutura do veículo e um protótipo final, para validação de todos os componentes.

O LRV foi desenvolvido em apenas 17 meses e funcionou de maneira perfeita na Lua. Os incidentes foram as perdas de parte do parachoque e de um paralama. O astronauta Harrison Schmitt, da Apollo 17 disse que “o jipe lunar provou ser confiável, seguro e ágil como veículo de exploração como nós acreditávamos que seria. Sem ele, as principais descobertas científicas das Apollo 15, 16 e 17 não seriam possíveis, e o entendimento da evolução do satélite não teriam acontecido”.

Os LRV foram usados na Lua por seis astronautas: David Scott e Jim Irwin, Apollo 15; John Young e Charles Duke, Apollo 16, e por Gene Cernan e Harrison Schmitt, Apollo 17. O comandante da missão era quem guiava o veículo, ocupando o assento da esquerda. Todos os veículos lunares foram abandonados na Lua após o seu uso, e até hoje descansam por lá.

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AS TRÊS VIAGENS

 Apollo 15

    * Distância total percorrida: 27,9 km

  • Maior distância do Módulo Lunar: 5 km
  • Tempo de uso: 3 horas e 2 minutos

    * Data do pouso na Lua: 30 de Julho de 1971

O primeiro passeio foi em direção ao Canal Hadley e o veículo foi extensamente testado, quando o sistema de navegação se mostrou muito preciso. Durante duas novas incursões com o veículo foram visitados o Monte Hadley e novamente o Canal Hadley. No total foram coletados 76,8 kg de amostras de rochas.

Apollo 16

    * Distância total percorrida: 26,7 km

  • Maior distância do Módulo Lunar: 4,5 km
  • Tempo de uso: 3 horas e 26 minutos

    * Data do pouso na Lua: 21 de abril de 1972

Durante os dois passeios lunares foram visitados as montanhas Stone bem como a cratera North Ray. Durante a partida do módulo lunar da Lua, o LRV filmou a sua decolagem.

Apollo 17

    * Distância total percorrida: 35,9 km

  • Maior distância do Módulo Lunar: 7,6 km
  • Tempo de uso: 4 horas e 26 minutos

    * Data do pouso na Lua: 11 de Dezembro de 1972

O veículo lunar foi utilizado em três passeios lunares pelo Vale de Taurus-Littrow. Durante a partida do módulo lunar, o veículo também filmou a sua decolagem.


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