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WM Le Mans P88: de Peugeot, a mais de 400 km/h!

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Como se estivessem com pouco trabalho para realizar -ou com excesso de tempo livre-, dois técnicos da Peugeot francesa deram um resignificado à expressão “um novo sentido à vida”. Entre um trabalho e outro, Gerard Welter (projetista) e Michel Meunier (engenheiro) criaram a WM Le Mans (“W” de Walter e “M” de Michel) no final da década de 1960. A ideia era ambiciosa: criar uma equipe para Le Mans. Em 1976, a equipe estreou na “24 Horas de Le Mans” com um motor Peugeot GTP. Composta por voluntários e amigos, os carros produzidos pelo pequeno esquadrão se saíram relativamente bem nos anos seguintes. Devido ao envolvimento cada vez maior de outras marcas na prova, a WM lutou para manter a competitividade na era do Grupo C.

Após a edição de 1986 da “24 Horas de Le Mans”, Welter e Meunier decidiram concentrar seus limitados recursos na busca de um único e insano objetivo; quebrar a barreira dos 400 km/h na longa “Reta de Mulsanne” de Le Mans. Como acontece com todos os carros anteriores da WM Le Mans, o novo modelo batizado de “Project 400” foi um desenvolvimento adicional do desenho original que serviu tão bem à equipe.

Conhecido como P87, o carro de 1987 da WM apresentava o conhecido chassi monocoque de alumínio com uma estrutura central chamada de backbone. Para alcançar o ambicioso objetivo, uma nova carroceria foi criada, consideravelmente mais larga do que a original, de modo que uma nova frente e saias laterais (side-pods) tiveram que ser adicionados ao chassi existente. Assim como o chassi, a suspensão independente era bem convencional. Não havia dinheiro para grandes investimentos.

Uma das razões pelas quais Welter e Meunier foram tão bem-sucedidos foi o apoio discreto de seu empregador, no caso a Peugeot, na forma do motor “PRV”. Este V6 foi continuamente desenvolvido e, em 1987, tinha pouco mais de 2,8 litros e foi equipado com dois turbocompressores. Dependendo do nível de preparação, o motor derivado do carro de rua podia produzir até 850 cv.

O V6 PRV era um motor a gasolina, que foi desenvolvido em conjunto pela Peugeot, Renault e Volvo, e vendido de 1974 a 1998; começou como 2.5 e terminou como 2.9 litros. Foi gradualmente substituído após 1994 por outro projeto conjunto PSA-Renault, conhecido como o motor ES na PSA e o motor L na Renault. Foi projetado e fabricado pela empresa “Française de Mécanique” para PSA, Renault e Volvo. O PRV equipou muitos carros, inclusive Dodge Monaco e o DMC DeLorean.

A Peugeot abriu seu túnel de vento aos domingos durante um período de quatro meses para a equipe WM desenvolver o novo formato. O centro do novo projeto foi o aumento da largura, o que permitiu que as rodas traseiras fossem quase completamente recobertas e as dianteiras, de maneira parcial, reduzindo significativamente o arrasto. A equipe também encontrou uma solução interessante para os intercoolers; as entradas montadas na frente conduziam o ar fresco por meio de dutos montados sob a suspensão dianteira.

Os carros do Grupo C eram capazes de velocidades máximas muito altas, pois dependiam da aerodinâmica do efeito solo para produzir o downforce necessário. Para melhorar ainda mais a eficiência do efeito solo, o P87 apresentava distância entre eixos alongada, permitindo “túneis de ar” maiores. O carro apresentava um spoiler dianteiro e uma asa traseira, mas estes eram usados quase exclusivamente como ferramentas de equilíbrio e estabilidade direcional.

Problemas de gerenciamento do motor prejudicaram os preparativos da WM, mas apesar de não ser capaz de dar duas voltas seguidas na pista, o P87 (abaixo) foi cronometrado a 356 km/h durante os primeiros testes em Le Mans. Com os problemas resolvidos, a nova WM chegou a 416 km/h em um novo trecho da rodovia não estava aberto ao público. O carro, com motor Peugeot, parecia pronto para quebrar o recorde em Le Mans.

Infelizmente, a corrida foi muito curta para o WM P87, pois o combustível fornecido era de um grau muito baixo, fazendo com que o motor quebrasse após apenas 13 voltas. O combustível com baixo índice de octanas causou imensos problemas ao motor (pré-detonação e sobreaquecimento). Naquela altura, o carro já havia sido cronometrado a 381 km/h. Ainda estava longe do objetivo, mas já havia estabelecido um novo recorde de velocidade na prova. Curiosamente, de acordo com o próprio radar da WM, o P87 chegou a atingir o pico de 407 km/h. Encorajado pela velocidade mostrada em 1987, o grupo de abnegados construiu um novo carro para 1988, que diferia apenas em pequenos detalhes.

Entre as mudanças estava um motor um pouco maior, agora com 900 cv de potência máxima, e suspensão traseira redesenha para permitir dutos de ar ainda maiores. Ao lado do novo P88 (verde), a equipe também colocou em campo o P87 (azul e branco), equipado com as mesmas atualizações.

Durante a sessão de treinos, o radar de Le Mans registrou o novo carro a 387 km/h, o que ainda parecia meio lento para as pretensões da equipe. Um novo sistema de radar foi instalado, mas os primeiros problemas pareciam impedir ambos os carros de fazer uma nova tentativa. O P87 atualizado foi oficialmente aposentado após apenas 13 voltas com uma falha na transmissão e o P88 sofreu com problemas de gerenciamento do motor e fixação de painéis da carroceria.

Depois de ficar parado por mais de três horas e meia nos boxes, o P88 foi mandado de volta para a pista com Roger Dorchy ao volante. Era o momento do tudo ou nada. Depois de algumas voltas, ele foi instruído a aumentar a pressão do turbo e cruzou o ponto de radar a mais de 400 km/h por várias voltas. Embora a volta mais rápida tenha sido de 407 km/h, por estratégia de marketing o número oficial foi definido em 405 km/h, já que a corrida coincidiu com o lançamento do novo Peugeot 405.

Funcionando na pressão máxima e combinado com os problemas anteriores, o P88 retornou aos boxes logo depois e acabou sendo aposentado depois que os problemas elétricos, de arrefecimento e turbo não puderam ser resolvidos. Desde então, o superaquecimento foi muitas vezes atribuído ao carro por estar rodando com dutos de ar fechados, mas as pessoas envolvidas negam isso até hoje e são inflexíveis, garantindo que a única mudança no carro foi mesmo o aumento do nível de pressão.

Tanto o P87 quanto o P88 foram levados mais uma vez para a edição de 1989 da “24 Horas de Le Mans”, mas vários problemas impediram que os carros sequer largassem na corrida. Esta foi a última ação da WM, já que os dois parceiros se separaram no final do ano. Welter continuou a correr em Le Mans com sua recém-formada equipe WR. Em 1990, duas chicanes foram adicionadas à longa reta, garantindo que o P88 provavelmente manterá para sempre o recorde de velocidade máxima naquela pista.



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