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Fórmula 1: garagem histórica da Tyrrell está salva

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Depois de 70 anos, o pequeno galpão de Surrey, na Inglaterra, que foi a primeira fábrica de carros de Fórmula 1 da Tyrrell, está salvo e de mudança para Goodwood.

Ken Tyrrell e seu galpão: dali saíram carros campeões da Fórmula 1.

A partir de um pequeno galpão de madeira, na zona rural de Surrey, na Inglaterra, alguns engenheiros criaram carros de Fórmula 1 que conquistaram Nürburging, Silverstone, Mônaco, Monza e tantas outras pistas, levados pelas mãos de nomes como Jackie Stewart, François Cevert, Ronnie Peterson, Patrick Depailler, Jody Scheckter e tantos outros. 

A fábrica, em seu lugar original, ainda ostentava os portões azuis.

Para os mais jovens, a Fórmula 1 de hoje -um interminável e cansativo show para a televisão- já foi diferente, competitiva, com muitos nomes que fizeram a história do automobilismo internacional. Tudo diferente do que acontece nos dias atuais, onde meninos imberbes surgem pilotando e desaparecem como mágica.

A estrutura protegida, pronta para ser desmontada e levada para Goodwood.

O humilde local de nascimento dos primeiros carros vencedores de GPs de Fórmula 1 de Ken Tyrrell, história que genealogicamente chega até a atual equipe Mercedes, é um lugar histórico. Permaneceu exatamente onde está por mais de 70 anos, apenas ostentando as marcas do tempo. Foi usado como uma antiga instalação do exército, depósito de madeiras e a base da equipe Tyrrell F1. A Tyrrell Racing Organization foi comprada pela BAR, virou Honda, depois Brawn e, finalmente, Mercedes. Ken morreu em 2001 aos 77 anos.

Recentemente foi anunciado que o galpãozinho seria demolido. Mas não deixaram isso acontecer, e logo começaram os trabalhos cuidadosos de desmontagem da garagem e sua transferência para Goodwood, missão de resgate que salvou o galpão histórico da ameaça de demolição. Ele será restaurado e ficará em um ponto de destaque próximo ao circuito, e espera-se que desempenhe um papel importante em eventos históricos.

Ken Tyrrell observa uma de suas criações mais fantástica: o carro de seis rodas.

Embora esteja sendo acomodado longe de sua localização original, vai evocar um período da história da Fórmula 1 em que os “garagistas” eram apenas isso, enfrentando e derrotando as poderosas Ferrari e Lotus.

No carro de seis rodas, a ideia era, com os pneus menores na frente, reduzir a área frontal, com ganhos na aerodinâmica, e também melhorar a aderência dianteira e capacidade de frenagem.

Eram outros tempos, românticos. Cinco anos depois da Tyrrell ter participado em seu primeiro GP do Campeonato Mundial de Fórmula 1, ela conquistou o título de construtores. “Isso foi um grande feito”, disse Stewart, “e ainda mais quando você considera que a equipe era dirigida a partir de um pequeno galpão”.

Todos os carros de Fórmula 1 da equipe Tyrrell.

Quem passou por lá recentemente percebeu que já havia andaimes cercando o galpão e mantendo a estrutura intacta, que recentemente foi usada como depósito para uma empresa de artigos para festas, mas ainda atraía regularmente fãs de todo o mundo.

Cevert e Stewart, o dream team da Tyrrell.

Onde antes circulavam Stewart e Cevert, e o projetista Derek Gardner liderou a construção do carro vencedor do campeonato mundial de Stewart em 1971, caixas de pratos de papel, chapéus de festa e balões preenchiam o espaço sombrio. Merecia mesmo uma mudança nessa história.

Jackie Stewart no grid com Jo Siffert e Jacky Ickx em 1971 F1 Questor GP
Jackie Stewart

Ainda sólido e com seu portão azul (blue Tyrrell), mas com partes da madeira claramente deterioradas, restavam muitas pistas sobre sua vida anterior: buracos para exaustores nas paredes e – inconfundivelmente – as portas frontais duplas que se abriam para o mesmo espaço onde Tyrrell e Gardner desenvolveram suas criações.

Suas dimensões de 30 m de fundo x 8 m de frente desmentem as conquistas monumentais que produziu. Mais do que uma pequena citação na história da F-1, é um raro lembrete de como a categoria foi moldada por abnegados grupos de engenheiros em pequenas oficinas, dando vida às suas ideias inovadoras e depois enviando-as ao redor do mundo para os maiores palcos das corridas. Exatamente como foi o trabalho de Wilsinho Fittipaldi com o início da Copersucar.

Na verdade, o pequeno tamanho da equipe, composta por apenas sete engenheiros, era uma vantagem, de acordo com Ken Tyrrell. “Não estamos envolvidos na briga política em que as grandes empresas se envolvem”, disse ele. “Nosso objetivo é vencer corridas e podemos nos concentrar nisso”.

Quando começaram a circular notícias de que tudo seria destruído, fãs do automobilismo tentaram se cotizar para salvar o edifício, mas o custo de US$ 130 mil para remover a garagem (metade disso devido ao seu grande e frágil telhado de amianto) estava se revelando um obstáculo intransponível. Até que a história chegou ao Duque de Richmond, que interveio para oferecer um novo lar permanente ao edifício histórico em sua propriedade em Goodwood. Ele planejou reconstruí-lo na área externa da pista, e apresentar tudo pronto ainda neste mês de abril

Trabalho dentro do galpão da Tyrrell F1 em 1971
Em 1971…
Casos dentro do galpão da Tyrrell
… e recentemente, como depósito.

Para Ross Feeney, diretor do Club Green, que era o fornecedor de material para festas e dono do local, é provável que a mudança marque o fim de um fluxo de visitantes internacionais que chegam, durante todo o ano, em uma espécie de peregrinação ao galpão.

François Cevert, Ken Tyrrell e Jackie Stewart.

“Toda semana tínhamos pessoas que chegavam aqui dar uma volta lenta no estacionamento ou que batiam à porta perguntando se poderiam ver o interior do galpão”, disse. “Os fãs vinham de toda a Grã-Bretanha e Europa, bem como da Tailândia, Austrália e Estados Unidos. Todo mundo queria tirar fotos em frente aos portões azuis”.

Stefan Bellof, 1994.

A história do galpão começa muito antes da criação da Tyrrell Racing Organization, pois foi usado durante a guerra pelo Women’s Royal Army Corps. A família Tyrrell o comprou por cerca de US$ 60 para servir como galpão para armazenar a madeira que era vendida em seu depósito de material de construção em Ockham.

Jean Alesi, 1990.

A madeira estocada foi despachada para outro lugar quando Ken montou sua equipe de Fórmula 2 na década de 1950, e tornou-se a sede da equipe de Fórmula 1 uma década depois. Embora a equipe tenha se expandido com mais funcionários e edifícios na década de 1970, o galpão permaneceu como parte central da fábrica, hospedando departamentos de soldagem, fabricação e acabamento dos carros durante a década de 1980.

O brasileiro Ricardo Rosset, no último ano da Tyrrell.

À medida que a nova fábrica, construída ao lado, aumentou, ela voltou a ser um galpão de armazenamento para carros de Fórmula 1 e equipamentos de box entre as corridas.

Mark Blundell, o último pódio da Tyrrell, em 1994.

Mais adiante, os dias de glória de Tyrrell haviam acabado. Ken nunca se recuperou da morte de Cevert, em 1973, e seu último lampejo de genialidade foi a Tyrrell de seis rodas, a P34. Alguns pódios de Jean Alesi, Stefano Modena e Mark Blundell na década de 1990 indicaram ser estertores da grandiosa equipe, que foi vendida para a British American Racing em 1997 e transferida para Brackley. Por meio da Honda e da Brawn, evoluiria para a poderosa equipe da Mercedes. Se existe DNA em carros, a Mercedes recebeu um belo legado…

Portas azuis do galpão da equipe Tyrrell F1
Portas famosas, que se falassem contariam muitas histórias, mas hoje apenas mostram sinais de desgaste


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