Quem lembra do injustiçado Audi A2?

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Pouquíssimas unidades chegaram ao Brasil, mas na Europa -quando foi lançado- provocou grande impacto. Trata-se de mais um carro injustiçado, talvez prematuramente nascido: o Audi A2, que foi lançado em 1999, todo em alumínio. Era concorrente direto da também interessante Mercedes-Benz Classe A (W168), que viu a luz dois anos antes, mas não seria correta essa comparação. O A2 era muito mais que isso.

por Ricardo Caruso

O Audi A2 era uma coletânea de tecnologia e desenho bem cuidado, com muitos o colocando como o resumo do carro do futuro (o século XXI estava chegando). Era um futuro onde os automóveis seriam mais leves e, consequentemente, mais econômicos, com níveis elevados de aproveitamento de espaço (permitindo carros de dimensões compactas), fruto dos avanços em equipamentos, aerodinâmica e materiais.

Foi o primeiro veículo compacto moderno a ser construído totalmente em alumínio, solução que na época apenas tínhamos visto no A8, o top de linha da marca alemã, e no Honda NSX… Nos anos 1950, o Panhard Dyna já era feito de alumínio.

O alumínio foi um dos elementos de destaque do A2, com o outro sendo o seu desenho, baseado nas leis da aerodinâmica (traseira curva tipo Kamm) e Cx de apenas 0,28. Acompanhando sua estética, a Audi mostrou um cuidado excepcional com as suas linhas e superfícies. Era um carrinho conceitualmente brilhante, como o primeiro Classe A, mas o A2 revelava um nível de construção que o seu rival de Stuttgart apenas podia sonhar. O Audi A2 não era apenas um automóvel, era uma pura declaração de intenções.

A sua construção toda em alumínio (chamada de Audi Space Frame) tornava-o bastante leve. Praticamente todas as versões estavam abaixo de uma tonelada, com as mais leves -o 1.4 (gasolina) e o super-econômico 1.2 TDI 3L- abaixo dos 900 kg. O baixo peso ajudava a manter o rendimento dos motores, modestos em potência mas ainda assim em níveis decentes, com consumos sempre baixos.

A carroceria estilo microvan e o excelente projeto eram sinônimo de muito espaço, prático e versátil para ocupantes e bagagens, superando facilmente os carros pequenos da época e até mesmo alguns de hoje em dia. Isto apesar das dimensões compactas, com apenas 3,82 metros de comprimento e 1,67 m de largura; o porta-malas de 390 litros era superior aos 380 do Audi A3 atual, por exemplo.

O interior era tipicamente Audi. Rigoroso no desenho, nos materiais e na construção; este não era um carro pequeno feito para ser barato ou popular. Era um Audi como os outros, mas em escala menor.

As analises da imprensa especializada logo chegaram, e todas elas positivas, tendo como pontos fortes o espaço, conforto, comportamento dinâmico e economia de combustível. No entanto, o entusiasmo dos jornalistas não transbordou para o mercado.

A estrutura em alumínio do A2, ou como a Audi chamava, Audi Space Frame (ASF)

Ao longo dos seis anos da sua existência (1999-2005) foram vendidos quase 177 mil unidades. Um fiasco comparado com o seu maior rival, o primeiro Classe A, que vendeu 1,1 milhões de unidades! As perdas para a Audi foram enormes, na casa de US$ 1,5 bilhões. As razões por trás do fracasso foram várias, desde o seu desenho — apesar de avançado e bem executado, nunca foi consenso e muitos não o consideravam apelativo — mas, principalmente, o seu preço.

O desenvolvimento de um carro do zero para um dos segmentos mais disputados do mercado -e portanto mais sensível ao preço- com materiais e técnicas de construção que só eram encontrados em carros de luxo e esportivos, não podia custar barato. O Audi A2 tinha custos de produção acima de um Volkswagen Golf, o que se refletia também no preço de venda ao público, algo difícil de justificar para o consumidor.

Outra questão era a sua carroceria de alumínio. Reparos de funilaria, mesmo simples, podiam custar pequenas fortunas; hoje em dia, com a desvalorização, as seguradoras dariam ao A2 perda total diante da necessidade de reparar um simples para-lama danificado.

No entanto, quem conservou seu A2 na Europa não quer abrir mão do carrinho, por conta do conjunto de características que o definem, que são tão relevantes ainda hoje como eram no final dos anos 1990: um carro único, compacto, espaçoso e super-econômico, com uma qualidade de construção que garante a ele vida longa. Difícil de resistir e, sem dúvida, a caminho de se tornar um futuro clássico.

Olhando para o cenário automotivo de hoje, em nível europeu, com os requisitos cada vez mais apertados na questão de emissões e, consequentemente, consumos, carros como o Audi A2 seriam a melhor resposta para superar estes desafios, mas o consumidor errou e escolheu a direção contrária. Os carros cresceram e as ruas foram invadidas por SUVs de todos os tamanhos, filosofia que não poderia estar mais afastada de tudo o que determinou a concepção do A2.

Apesar do fracasso comercial e de toda a aura de experimentalismo que o A2 trouxe, não só continua a ser um projeto relevante, como foi determinante para estabelecer a Audi como uma potência tecnológica e a mais séria rival às já estabelecidas Mercedes-Benz e BMW.

O A2 daria lugar ao mais convencional e derivado A1, que encontrou maior aceitação no mercado e também nas contas da Audi. No entanto, o A2 não foi esquecido pelo construtor alemão. Em 2011 apresentou um conceito que recuperou o nome A2 e suas premissas, mas transportou-as para um futuro que há 11 anos se imaginava elétrico. Em 2019 e já com o foco na condução autônoma, a Audi apresentou o AI:Me, que apesar do desenho muito mais expressivo, fez com que muitos vissem nele um futuro novo A2.

Audi A2 Concept 2011 e, abaixo, o AI:ME 2019, também conceito, mas elétrico.

No entanto, o carro que hoje mais se aproxima do conceito que determinou o A2 não é um Audi, e sim uma BMW. A BMW i3 também quis responder aos desafios do futuro, apostando em novos materiais (fibra de carbono) e novos métodos de construção, para reduzir os efeitos do excesso de peso dos veículos elétricos -culpa das baterias-, que prejudicam a autonomia.

Adota igualmente uma forma monovolume, mas tem estilo bem mais expressivo, longe da austeridade do A2, mas como o Audi, longe de ser consenso. As semelhanças continuam no seu alto custo de produção, preço e fraco desempenho comercial, longe de serem os ideais. E tal como o A2, que acabou de sair de linha sem ter um sucessor direto.


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