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Salsicha, prostitutas e futebol: a cultura do desperdício na Volkswagen

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Concertos de rock, patrocínios milionários, parques de diversões, turismo sexual e até uma fábrica de salsichas. O império da Volkswagen vai muito além dos carros. Com o maior escândalo de todos os tempos na história da indústria automotiva, alguns desses luxos e supérfluos com certeza vão desaparecer.
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Wolfsburg, a cidade ferroviária com cerca de 125 mil habitantes, sede da Volkswagen, é o epicentro do escândalo de manipulação de emissões poluentes que afeta pelo menos 11 milhões de carros em todo o mundo. A Volkswagen precisava disso? Não. Fabrica alguns dos melhores carros do planeta, tinha boa reputação, sonhava alto, mas foi consumida pela ganância a qualquer preço, a luta desesperada em busca da última moeda de lucro. É quase certo que não está sozinha nisso, devendo logo ser acompanhada de outras marcas. Outros impérios podem ruir do dia para a noite. Ao permitir que seus executivos praticassem a fraude, a Volkswagen se escorou na própria arrogância, tendo certeza de que não seria flagrada e que nada poderia acontecer, além de aumentar seus lucros.

Depois da polêmica ter sido deflagrada em setembro, é hora de começar a fazer contas e cortar tudo o que não seja “essencial”. A cada ano, os cortes nos investimentos será de US$ 1,2 bilhões. Onde? Esta é a questão, pois no Brasil a empresa demonstrava enfrentar penúria de dar dó, apesar de jogar dinheiro fora investindo, por exemplo, no Rock in Rio. Mas do dinheiro é dela e ela gasta como quiser. Depois vem a conta…

FESTAS E ROYALTIES

Ao longo dos anos, o Grupo Volkswagen foi extravagante em alguns setores, e nunca fez questão de esconder isso. Típico dos arrogantes. A cultura de gastos foi assumida sem medos. A cada lançamento internacional de um novo modelo, uma festa luxuosa, sempre com artistas de renome, do quilate de Pet Shop Boys, Robbie Williams, Justin Timberlake ou Lenny Kravitz. Carros pagando royalties caro para usar marcas como Rolling Stones (no Gol, lembra?) ou Pink Floyd (no Golf). Isso custa muito caro.

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Bares abertos nos hotéis para os convidados, brindes em profusão, buffets nababescos, telões gigantes, plataformas giratórias, modelos magérrimas em desfile sem fim… Muitas montadoras trabalham assim. Fora do Brasil, a carteira da Volkswagen nunca se fechou, na busca de chamar atenção e fazer a diferença na hora de apresentar ou vender um carro. No fundo, transformou os eventos de lançamento em experiências memoráveis. AUTO&TÉCNICA participou de várias delas. No recente Salão de Frankfurt, por exemplo, o pavilhão da Audi contava com um corredor feito de gelo. Isso tudo custa muito dinheiro, despesas que são incorporadas e quase sempre diluídas no preço final dos carros e pagas pelo comprador.

DOMINGO NO PARQUE

Wolfsburg, a cidade fundada por Hitler em 1938, é mais do que um mero centro produtor de automóveis Volkswagen. Inclui o Autostadt, parque de diversões para os compradores da marca. Impecável, como manda a tradição alemã, o Autostadt conta com oito pavilhões e recebeu mais de dois milhões de visitantes em 2014.

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Você passeia por lagos, jardins cuidadosamente arborizados e encontra possibilidade de diversão a cada metro. Que pode ser ao volante de um luxuoso Porsche ou Lamborghini, duas das 12 marcas que integram o Grupo.

SALSICHAS E FUTEBOL

Na cidade alemã há ainda espaço para a cultura e para a gastronomia. A Volkswagen financiou um museu de ciências projetado pela reputada -e cara- arquiteta iraniana Zaha Hadid. A lista dos gastos contempla ainda o hotel Ritz-Carlton, que a VW financiou parte da construção como parte integrante do próprio parque de diversões. Nele está também instalado o restaurante Aqua, com três estrelas Michelin. Depois, há um conjunto de pequenos negócios, como lojas e mercados, que acabam dependendo dessa dinâmica criada pela VW. A empresa emprega 60% dos 125 mil habitantes da cidade. No Brasil, a Volkswagen nunca se preocupou sequer em criar um museu da marca.

Escândalos com prostitutas, turismo sexual, corrupção e “compra” de prêmios no passado recente da empresa não bastaram. Esta a seguir talvez seja a maior prova de insanidade deste grupo automotivo, ou pelo menos o investimento mais inesperado tendo em conta a sua área de atuação. A Volkswagen tem uma fábrica de salsichas em Wolfsburg. São 25 pessoas trabalhando ali, processando por semana mais de 10 toneladas de carne.

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Mas a “Salsicha Volkswagen” não é uma salsicha qualquer. Chama-se “currywurst” e resulta da combinação de carne de porco, especiarias e curry. Uma delícia, presença assídua em todos os lançamentos e grandes eventos da marca na Europa, integrando ainda os menus das fábricas e dos escritórios da região e chega até a ser vendida em supermercados.

Ficou espantado? Então se prepare para a surpresa ainda maior: a Volkswagen produz mais salsichas do que carros. Isso mesmo. Em 2014, foram 7,8 milhões de salsichas. Cerca de 1,7 milhões a mais de salsichas do que o número de carros que o Grupo fabricou. O negócio é estranho mas está com boas perspectivas de crescimento…

O futebol já é uma das únicas certezas quanto aos cortes. A Volkswagen decidiu suspender a construção de um centro de treinamentos para o Wolsburg. A marca é dona de 95% dos direitos do clube de futebol criado em 1945 e que integra a primeira liga alemã.

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Se a princípio o diretor-geral do clube Klaus Aloofs se mostrava confiante quanto à manutenção dos investimentos no Wolsburg, rapidamente teve que rever a sua posição e começar a se preocupar. Agora, com o passo atrás no centro de treinamentos, diz “compreender” a decisão porque “este não é o momento para investir”. Além do futebol, o Wolfsburg gasta dinheiro da Volkswagen em outras modalidades como o badminton, handebol e atletismo.

DESEMPREGO

Quando se esperam bilhões de dólares no escândalo das emissões, nem só nas extravagâncias veremos cortes. Apesar de afirmar politicamente não querer reduzir empregos, o chefão Matthias Müller já avisou os trabalhadores que este processo “não vai ser feito sem dor”. Isso mesmo, os chefões erram, sentam em cima e a conta vai para os trabalhadores.

Resta saber se as demissões serão feitas com ou sem música, salsichas ou jogos futebol. E com ou sem prostitutas, fraudes e  outros desperdícios.


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