TOP 10 da vergonha: o que arruinou com a Fórmula 1

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Seja qual for o esporte profissional que você acompanha com mais atenção, provavelmente já presenciou ou ouviu falar de uma controvérsia ou escândalo. A Fórmula 1 não é exceção, bem longe disso. A Fórmula 1 moderna é comandada por verdadeiros mafiosos, dos dois lados do balcão, e há muito tempo deixou de ser esporte para ser apenas um espetáculo para a televisão.

Desde pilotos batendo de propósito para ajudar o colega de equipe a vencer, espionagem industrial, presidente da FIA flagrado em orgia sadomasoquista com cinco prostitutas, equipes mentirosas, pilotos que param em pista para ficarem à frente num treino ou pilotos que param descaradamente a metros da chegada para deixar o companheiro de equipe vencer, houve de tudo. Escolhemos 10, que mostram com clareza o porque da Fórmula 1 ter chegado ao fundo do poço…

 

1 – SINGAPURA 2008 – O “CRASHGATE” DE PIQUET


Nelson Piquet Jr. era um bom iloto, em franca ascenção, mas ganhou um lugar ímpar na história da Fórmula 1, mas não da mesma forma que o seu pai tinha feito há duas décadas e que ambicionava para o seu filho.

Sob enorme pressão e após uma primeira temporada particularmente decepcionante, em que o segundo lugar em Hockenheim, conseguido com sorte, foi o ponto alta do ano, e o sétimo lugar em Magny-Cours o seu verdadeiro melhor desempenho, o piloto brasileiro teve um final de semana desastroso em Singapura, enquanto o seu companheiro de equipe, Fernando Alonso, lutava pelos primeiros lugares.

Para desespero da Renault, o carro do espanhol teve um problema na classificação e acabou por conseguir apenas o 15º lugar no grid, numa pista onde ultrapassar era difícil. O futuro da equipe não estava assegurado e os objetivos impostos pela direção da Renault ainda não tinham sido alcançados, por isso Flavio Briatore e Pat Symonds criaram um plano para ajudar Alonso a chegar aos lugares da frente.

Ambos decidiram que o espanhol deveria iniciar a corrida com pouco combustível no carro, para que fosse o primeiro a entrar nas boxes para reabastecer. Mais adiante necessitariam de um período de Safety Car na pista para agrupar todos os carros e permitir ao espanhol alcançar o final da fila, antes do box ser aberto e todos parassem nas boxes para reabastecer, ficando Alonso na liderança.

Para assegurar que existiria mesmo essa entrada do Safety Car na pista, logo após Alonso ter parado sem que mais ninguém o tivesse feito, os homens da Renault necessitariam da ajuda de Piquet e, assim sendo, o brasileiro foi convocado para uma reunião com Briatore e Symonds onde lhe foi dito que deveria bater no muro na saída da curva 17, local onde os carros andam sobre uma ponte e não existem postos de comissários nas proximidades, logo que lhe fosse dado um sinal pelo rádio.

Temendo pelo seu lugar na Renault, Piquet aceitou a ordem e, quando ouviu no rádio “é preciso forçar agora”, derrapou de imediato na frente do Force India de Sutil e bateu violentamente no muro interno.

O plano deu certo, já que Alonso passou a liderar a corrida, acabando por vencer e, fora alguns comentários maldosos no paddock após o GP, com algumas pessoas questionando o fato de ter sido tão conveniente para a Renault a batida de Piquet, ninguém mais pensou no assunto.

Até que Briatore se fartou da falta de competitividade do piloto brasileiro e o demitiu após o GP da Hungria, substituindo-o por Romain Grosjean. Aí entrou em cena Nelson Piquet,  que já tinha mencionado o acontecido em Singapura a Charlie Whitting, mas até que o seu filho estivesse pronto para testemunhar, a FIA decidiu tomar qualquer providência, optando pela sua política habitual de manter os escândalos bem guardados, até que a sua divulgação fosse conveniente aos propósitos de Max Mosley.

Livre de qualquer compromisso com a Renault e sabendo que a sua carreira na F-1 estava em risco, Piquet Jr. seguiu o conselho do pai e escreveu uma declaração dirigida à FIA onde apresentou a sua versão do evento.

Esta situação apanhou a Renault desprevenida e Pat Symonds ficou bastante surpreso por ter sido convocado pelos Comissários Desportivos em Spa, mesmo antes do fim-de-semana ter início, com o intuito de explicar o seu papel neste escândalo. Sem ter disponível apoio jurídico ou da Renault, Symonds recusou-se a responder à maior parte das perguntas, enquanto Briatore, que só foi chamado no dia seguinte –e que já estava prevenido quanto ao que se ia enfrentar– negou tudo.

Mas a FIA tinha o testemunho dos Piquet e todos os dados sobre o acidente, e concluiu que tanto Briatore como Symonds sabiam o que se estava acontecendo e eram, provavelmente, os mentores do plano. O engenheiro britânico depressa percebeu que estava enfrentando uma batalha perdida e apresentou seu depoimento por escrito para a FIA, onde admitia ter feito parte da conspiração, mas insistindo que a ideia original tinha sido de Piquet, já que, pessoalmente, nunca tinha sequer admitido alguma vez fazer semelhante coisa.

Apesar de tudo foi considerado culpado e banido do automobilismo por cinco anos, sentença da qual recorreu nos tribunais civis.

O folclórico Briatore, pelo seu lado, nunca aceitou as alegações, ignorou a reunião do Conselho Mundial da FIA e foi banido para sempre do automobilismo. A sua reação foi dura e processou a FIA, pedindo elevada indenização pelos danos causados à sua carreira e reputação, afirmando que tinha sido feito um acordo entre Mosley e a Renault para fazer dele e de Symonds os “bodes expiatórios”.

Ambos foram despedidos pela Renault poucos dias antes da audiência e existiram reuniões entre a FIA e executivos da Renault, razão pela qual todos aguardam com expectativa a decisão dos juízes cíveis de Paris. Por enquanto, Briatore e Symonds continuam fora do circuito da F1 mas não será surpreendente que outro acordo nos bastidores venha a ser feito e, mais que depressa, eles voltem aos boxes.

Nelsinho Piquet segue carreira no automobilismo norte-americano.

2 – TEMPORADA DE 2007 – O “STEPNEYGATE”


O campeonato de 2007 tinha todos os ingredientes para ser uma grande temporada, com três pilotos lutando pelo título até a última corrida, altura em que Raikkonen conseguiu bater Hamilton e Alonso por apenas um ponto. Infelizmente o que se passou fora da pista ultrapassou a competição e o ficará na história da Fórmula 1, como o ano em que uma multa recorde foi imposta a um participante, já que a McLaren foi condenada a pagar US$ 100 milhões por ter espionado a Ferrari.

Numa primeira abordagem este parecia um caso simples. Descontente com a sua situação em Maranello, não tendo sido promovido tal como lhe tinham prometido, Nigel Stepney levou todos os projetos do Ferrari F2007 para um encontro –nos arredores de Barcelona e durante uma sessão de testes– com o seu amigo Mike Coughlan, na época diretor-chefe de projetos na McLaren. Foram tão cuidadosos na escolha do local para se encontrarem que acabaram indo ao mesmo local onde Mike Gascoyne (da Toyota) e a sua namorada estavam tomando café, sendo assim vistos juntos.

O ex-homem da Toyota não deu grande importância ao fato mas, no decurso desse encontro, Stepney entregou o projeto do F2007 a Coughlan, que o trouxe para Inglaterra e pediu à mulher para xerocar tudo numa loja em Guilford. Mais tarde utilizou a informação dentro da McLaren, com o conhecimento do departamento técnico e, em breve, algumas das peças do F2007 apareceram no McLaren MP4/22.

Ninguém se questionou sobre o sucedido, já que as equipes copiam diversas soluções umas das outras regularmente, até que a Ferrari descobriu o que Stepney andava fazendo e o suspendeu de suas funções.

Aparentemente tudo foi desmascarado quando um funcionário da loja de fotocópias de Guilford percebeu o que estava xerocando e telefonou para Maranello. Como é que alguém consegue chegar aos mais altos executivos da Ferrari por meio de um simples telefonema pedindo para falar com a pessoa encarregada de um projeto é algo que nunca foi explicado, já que ali as chamadas são mais filtradas do que na Casa Branca. Aparentemente foi assim que aconteceu e, de imediato, a Ferrari acusou a McLaren de espionagem e levou o assunto ao conhecimento da FIA.

Detestando profundamente Ron Dennis, então chefão da McLaren, Max Mosley viu nesse caso a oportunidade ideal para pedir a cabeça do seu antagonista e lançou, em seguida, uma investigação total sobre os acontecimentos.

A princípio a McLaren negou tudo, afirmando que Coughlan agiu por conta própria –como de fato fez– mas tornou-se claro, por meio de mensagens e telefonemas internacionais, que as informações tinham sido divulgadas dentro da equipe e Ron Dennis teve que voltar atrás e obrigar os seus homens a admitir que sabiam o que se estava acontecendo. A situação piorou depois dos problemas surgidos entre Alonso e Hamilton nos treinos da Hungria. Dennis tomou o partido de Hamilton e Alonso enviou, de imediato, relevantes e incriminadores emails para a FIA, prejudicando a equipe que ia deixar, em conflito com a respectiva gestão.

A multa imposta à McLaren foi a maior na história do esporte –US$ 100 milhões– e a equipe foi banida da Fórmula 1, mas com a pena suspensa por dois anos. Stepney e Coughlan não foram penalizados pela FIA mas ambos perderam os empregos: o ex-ferrarista começou logo a trabalhar numa equipe de GT, e o homem da McLaren foi contratado como consultor para diversas áreas em outras categorias do automobilismo.

Como efeito colateral, Alonso foi colocado de lado pela McLaren e com o carro a ser desenvolvido especificamente para o estilo de condução de Hamilton, teve que lutar muito nas últimas corridas da temporada e estava completamente fora do ritmo no GP do Brasil.

Alonso perdeu o Mundial e teve de regressar à Renault, onde teve dois campeonatos frustrantes, enquanto Hamilton sagrava-se o mais jovem Campeão do Mundo de todos os tempos, um ano mais tarde. Hoje Alonso corre pela McLaren…

3 – TEMPORADA DE 1994 – CAMPEÃO COM CARRO ILEGAL

Antes do Mundial de 1994 começar, todos garantiam que Ayrton Senna iria conquistar o seu quarto título, pois agora que estava na Williams-Renault. O melhor piloto ao volante do melhor carro e com o melhor motor deveria ser imbatível e apenas os loucos apostariam contra o brasileiro.

A FIA estava consciente que a Williams estava a caminho de esmagar a concorrência pelo terceiro ano consecutivo e com um terceiro piloto –Mansell e Prost tinham vencido com facilidade em 1992 e 1993– e preocupava-se com as audiências televisivas e com a popularidade do esporte, que poderia cair. Desta forma sentia-se na Benetton –a segunda equipe mais competitiva– que muitos olhos poderiam se fechar em relação a algumas inspeções técnicas aos seus carros. Não era conveniente na cabeça dos cartolas que Senna fosse campeão.

Na pré-temporada tinham acontecido coisas estranhas quando os pilotos testaram o controle de tração, o controle de largada e sistemas de arrancada laser, dispositivos banidos para 1994. Schumacher conseguiu bater Senna em Interlagos graças a uma parada super rápida no box, na primeira vez que o reabastecimento voltava a ser autorizado na F-1 desde 1983.

Algumas semanas mais tarde, em Aida, Senna bateu logo na primeira curva e passou algum tempo assistindo e observando a corrida, e chegou à conclusão de que Schumacher estava utilizando algum tipo de controle de tração, o que estava proibido. Reclamou com a Williams, que contemporizou. Previa-se que ia iniciar-se mais uma grande confusão na Fórmula 1 quando a morte de Senna desviou a atenção de todos para situações mais graves e, quando a FIA exigiu que a Benetton retirasse os dispositivos ilegais do carro nada aconteceu, dado que a equipe tinha provas de que a FIA tinha estado de conluio com eles desde o início da temporada.

Como consequência, a FIA teve de encontrar outras formas de penalizar a Benetton e, quando o carro de Verstappen foi engolido pelas chamas durante um “pit stop” no GP da Alemanha, os técnicos da federação constataram que tinha sido retirado um filtro da máquina de reabastecimento para aumentar a velocidade do fluxo de combustível para o tanque do carro, o que explicava qual a razão dos reabastecimentos da Benneton serem sempre tão rápidos.

Na época a popularidade da categoria entrou em descendente como consequência da morte de Ayrton Senna, e a FIA percebeu que retirar Schumacher e a Benetton do campeonato seria ainda pior. Assim sendo, Mosley contatou diretamente o advogado da equipe, George Carman, e num encontro secreto aconselhou que a Benetton se declarasse culpada, garantindo que assim a equipe não seria punida. O que de fato aconteceu, deixando todos envolvidos com a categoria irados com uma decisão tão absurda.

A verdade é que Senna morreu pois estava andando acima do limite permitido pela Williams, tentando enfrentar Schumacher com um carro todo fora de regulamento, e com anuência da FIA.

4 – MOSLEY, O DEVASSO


A Fórmula 1 esteve nas notícias em todo o mundo da pior forma possível quando, em 30 de março de 2008, o chefão Max Mosley foi capa do tablóide britânico News of the World, graças a uma foto-espiã feita durante uma orgia sadomasoquista com cinco prostitutas. O fato do jornal ter afirmado que esta era uma orgia com temática nazista piorou ainda mais as coisas. No fim das contas, o presidente da FIA se safou, porque não foi possível provar que era esse o caso.

A notícia caiu como uma bomba na Fórmula 1, com quase todos os construtores envolvidos (excepção feita à Renault) exigindo que Mosley renunciasse ao cargo para que a federação voltasse a ganhar credibilidade. Mas Mosley manobrou bem, admitindo imediatamente que praticava atos sadomasoquistas há mais de 40 anos, mas negando veementemente que tivesse existido qualquer conotação nazista naquela orgia.

Levou o caso aos tribunais e ganhou, já que a principal testemunha do News of the World não compareceu e, mais tarde, Mosley usou o seu poder na FIA para garantir um voto de confiança que quase levou a uma séria divisão na entidade federativa, dado que 66 membros votaram contra ele e estiveram à beira de constituir uma federação paralela.

Furioso com os construtores que o tinham tentado retirar da posição que pretendia conservar para o resto dos seus dias, Mosley iniciou uma cruzada contra eles; queria todos os construtores fora da Fórmula 1 e até mesmo a Ferrari foi um dos seus alvos, mesmo sabendo que seria muito difícil conseguir que a categoria sobrevivesse sem a mítica equipe italiana.

A consequência das suas ações levou à formação da FOCA, rapidamente apoiada por todas as equipes de F-1 e a iniciar uma guerra que quase matou a categoria, mas que foi bem sucedida, pelo menos ao convencer Mosley de que seus dias à frente da FIA tinham acabado, optando por apoiar como seu sucessor Jean Todt em detrimento de Ari Vatanen que se candidatava com o claro objetivo de mudar a forma da FIA operar.

O que falta apurar é quem “armou” para Mosley e o expôs como um ser perverso aos olhos do mundo. O ex-presidente da FIA disse, na época, que sabia quem pagou a uma das prostitutas para filmar a orgia e vender as fotos ao tablóide, e que em breve iria desvendar quem eram os culpados. O que não aconteceu.

5 – JEREZ 1997 – SCHUMACHER DE NOVO


Muita gente riu durante o GP do Luxemburgo de 1997 –realizado em Nurburgring– quando Frank Williams, questionado sobre o que faria a sua equipe se Jacques Villeneuve estivesse a apenas um ponto de Schumacher na largada para a última corrida da temporada, respondeu: “apenas faremos uma coisa, reforçar os triângulos de suspensão do nosso carro”. Uma referência direta à forma sobre como o piloto alemão tinha ganho o seu primeiro título em 1994, quando no GP da Austrália atirou com o seu carro contra o de Damon Hill, forçando ambos a desistirem e assegurando desta forma a vitória no campeonato.

Quatro semanas mais tarde já não existiram motivos para sorrir. Tendo liderado desde o início, Schumacher conseguiu alcançar uma confortável distância sobre Villeneuve e Frentzen na primeira parte da corrida, mas após todos terem parado nas boxes o canadense iniciou forte ataque e, no início da volta 48, das 69 que constituíam o GP, estava a menos de um segundo do seu rival. Sabendo que Schumacher iria ser tremendamente defensivo, Villeneuve optou por uma manobra de surpresa e mesmo sabendo que estava bastante atrás do alemão, à aproximação da curva Dry Sack efetuou uma manobra arriscada, mergulhando para o interior da curva e apanhando o piloto da Ferrari desprevenido.

Quando Schumacher viu o Williams por dentro atirou com o seu carro contra ele, mas os resultados não foram os que esperava. Enquanto que em Adelaide, três anos antes, tinha atingido o Williams de Hill na roda dianteira esquerda danificando a suspensão e a direção do carro britânico, em Jerez Schumacher só conseguiu atingir o carro de Villeneuve na lateral,o que não provocou danos maiores. Na verdade, foi o Ferrari que saiu de pista e abandonou, entregando o título ao canadense.

Após a corrida Schumacher -espécie de Dick Vigarista da categoria- tentou culpar Villeneuve, afirmando que ele o tinha atirado para fora de pista, mas a reação de todos foi de 99% contra ele, já que mesmo os que tiveram dúvidas em relação aos acontecimentos de 1994 perceberam que Schumacher tinha tentado a mesma armadilha. O rebuliço na mídia foi grande, e a FIA foi forçada a tomar decisões.

Como de hábito, Mosley fez muito barulho e realizou muito pouco, já que a última coisa que queria era uma penalização ao alemão que comprometesse seu passado. Desta forma Schumacher foi desqualificado do campeonato de 1997 –o que pouco ou nada significava para o piloto– mas manteve todas as vitórias alcançadas na temporada, permitindo ainda que iniciasse o campeonato seguinte com a ficha limpa.

A partir deste acontecimento Schumacher tornou-se uma figura que dividiu o mundo da Fórmula 1  fãs do automobilismo, parte afirmando que ele era um grande campeão e que apenas cometeu um erro, enquanto outros não perdoavam as suas ações sujas e estavam sempre prontos para apontar a dedo qualquer sinal de comportamento anti-desportivo cometido pelo piloto alemão até ao seu abandono, nove anos mais tarde.

6 – AUSTRÁLIA 2009 – O “LIARGATE”


Os dois últimos anos de Ron Dennis como chefão da equipe McLaren foram uma sucessão de cataclismas que fizeram ruir parte importante da fachada que construiu com tanto esforço desde que chegou à Fórmula 1 no início da temporada de 1980. O golpe final aconteceu no GP da Austrália de 2009 quando contemporizou com uma mentira estúpida envolvendo Hamilton e Jarno Trulli (da Toyota).

Durante o último período de Safety Car na prova, Trulli que estava à frente de Hamilton, saiu ligeiramente de pista na penúltima curva e ficou atrás do jovem britânico. Hamilton perguntou à sua equipe o que devia fazer e informaram-no que era melhor deixar Trulli passar, mesmo que de acordo com as regras não tinha que fazer isso, já que o italiano não estava dentro dos limites da pista quando Hamilton o ultrapassou.

Mais tarde, alguns abandonos proporcionaram a Trulli o terceiro lugar final com Hamilton terminando a corrida em quarto. Dennis afirmou de imediato dito aos jornalistas que tinha autorizado o italiano a passá-lo para recuperar a posição que tinha atrás do Safety Car. Por razões que superam o nosso conhecimento, a McLaren decidiu protestar a manobra de Trulli afirmando que o italiano tinha ganho uma posição de forma ilegal, já que o Safety Car comandava o pelotão e ninguém estava autorizado a ultrapassar.

Hamilton foi convocado pelos Comissários Esportivos, em conjunto com o Diretor Eesportivo Dave Ryan, e disse que Trulli pura e simplesmente o tinha ultrapassado, enquanto o italiano insistia que tinha sido convidado a fazê-lo por meio de um gesto de mão de Hamilton. Desta forma o piloto da Toyota foi penalizado em 25 segundos, caindo para o 12º posto, mas o assunto não estava encerrado.

Quando foi dito à FIA que Hamilton tinha admitido em entrevistas à televisão que tinha sinalizado para Trulli passar, iniciou-se uma nova investigação, antes do início do GP da Malásia. Confrontado com provas que incidiam nas transmissões de rádio e da telemetria, bem como com as gravações das entrevistas, Hamilton admitiu ter mentido.  Foi desclassificado do GP da Austrália e Trulli recuperou o terceiro lugar.

Mosley, pelo seu lado, utilizou esta mentira como uma forte alavanca para conseguir o que pretendia :Ron Dennis fora da Fórmula 1. Chantagem pura. Se a McLaren tivesse mantido o seu chefão , a penalização poderia ter sido a exclusão do Mundial, uma vez que a equipa ainda estava em “liberdade condicional” devido ao “Stepneygate” anterior. Sem alternativa Dennis deixou a categoria abatido e humilhado.

Mas a McLaren também despediu Dave Ryan, que apenas tinha seguido ordens, o que tornou a equipe ainda mais impopular, já que o neozelandês nem sempre era admirado pela categoria, mas era um homem respeitado. A confissão pública de Hamilton teve diversas interpretações e afetou seu desempenho durante algumas corridas, já que não esteve ao seu melhor nível em Sepang e em Xangai, só recuperando a sua habitual performance no Bahrain.

7 – POLÍTICA EM 2009 – À BEIRA DO DESASTRE


A linha de atuação de Max Mosley para se livrar de todos os construtores na Fórmula 1, como resultado da sua posição quando do caso da fardinha nazista, quase levou à morte o Campeonato Mundial de Fórmula 1. Pela primeira vez na sua história todas as equipes se revoltaram contra a FIA e suas exigências na determinação das regras futuras, e até mesmo quando a Williams e a Force India abandonaram o barco e apoiarams Mosley, por conta de pagamentos prévios feitos pela FIA e por Ecclestone. As restantes oito equipes uniram-se contra o teto orçamental e as outras orientações lunáticas que Mosley queria impor.

O ponto de ruptura final surgiu durante o GP da Inglaterra, quando a FOCA declarou que os seus membros iam deixar a F-1 e criariam uma nova categoria a estrear em 2010, com novas regras e também novas equipes, que tinham sido negligenciadas pela FIA no processo de seleção para a próxima temporada.

O império de Ecclestone corria o risco de extinção, já que um campeonato com a Williams, Force India e mais oito equipes desconhecidas não tinha chance de enfrentar um outro campeonato, do qual faziam parte a Ferrari, McLaren, Renault, Toyota, Brawn, Red Bull, Toro Rosso e BMW, a que se juntavam outros nomes, tais como a Prodrive e a Epsilon Euskadi.

Não foi tarefa fácil, já que a visão deturpada de Mosley apontava para que esta ruptura não faria mal à F-1 e a sua vontade iria prevalecer, mas confrontado com o fato da FOCA já ter na sua lista 14 bons circuitos para 2010 e estar a um passo de estabelecer acordos com as maiores empresas de televisão do planeta para a transmissão do novo campeonato, Mosley sucumbiu e aceitou deixar a FIA no final do mandato.

A FOCA tinha ganhado a guerra mas perdeu muitas batalhas pelo caminho, e como consequência da má publicidade gerada na F-1 em 2009, BMW e Toyota abandonaram a competição, ambas culpando a crise econômica pelas suas decisões. Muitos acreditam que sem a guerra FIA/FOCA ambas teriam permanecido na F-1 por muitos e bons anos.

8 – MÔNACO 2006 – SCHUMACHER PERDE OUTRA JOGADA
A ética de Michael Schumacher voltou a ser mais uma vez colocada em dúvida perto do final da sua carreira, quando tentou interromper o treino do GP de Mônaco de 2006. Isso quando faltava apenas um minuto para o final da sessão, o que lhe permitia segurar a pole position, depois de ter cometido um pequeno erro na sua última volta lançada.

O alemão tinha sido o mais rápido até à então, mas estava sobre forte ameaça de Alonso e outros pilotos. Forçou ainda mais o carro na derradeira volta mas, ao cometer um pequeno erro no complexo das piscinas, percebeu de imediato que não conseguia melhorar o seu tempo. Estando os principais rivais inciando as suas voltas finais, a sua pole provisória estava bastante vulnerável e, numa fração de segundo, decidiu parar seu carro no meio da pista, simulando uma quebra do F2007 na Rascasse. Schumacher nem tentou fazer a curva, mesmo sabendo que estava bastante devagar, evitou o contato com o guard-rail e deixou que o motor apagasse.

Com bandeiras amarelas na área e o carro parado na pista, Schumacher estava certo que ninguém ia bater o seu tempo e celebrou a conquista de mais uma pole position. Mas do lado da Renault ninguém estava feliz, pelo contrário: estavam todos furiosos, e Alonso reclamou na conferência de imprensa após o treino. Briatore, picareta de longa data, pelo seu lado defendia o ponto de vista do seu piloto em todas as entrevistas que conseguia dar, e no paddock todos condenavam Schumacher pelo seu comportamento anti-esportivo.

Era tanta reclamação que os Comissários Esportivo não tiveram outra alternativa a não ser investigar o assunto e, após longa reunião (que durou até às 11 horas da noite) consideraram o alemão culpado e o mandaram para o final do grid.

O surpreendente Schumacher contestou a decisão, afirmando ser inocente, apesar de não conseguir explicar como perdeu o controle de seu carro quando seguia a 16 km/h. Ninguém acreditou nele.

9 – SAN MARINO 2005 – O CASO DO TANQUE DE COMBUSTÍVEL
A BAR-Honda não tinha iniciado a temporada de 2005 tão bem quanto tinha acabado o campeonato anterior, mas as coisas começaram a correr melhor em Imola, quando Jenson Button terminou a corrida em terceiro lugar e Takuma Sato foi quinto. Eram muitos os sorrisos no box da equipe no final do GP, mas o bom ambiente durou pouco. Nos dois carros foram encontrados tanques ilegais de combustível –na verdade depósitos duplos, o que permitia correr abaixo do peso legal na maior parte da prova e, posteriormente, regressar ao peso correto após a última parada no box– e os dois pilotos foram desclassificados.

A FIA teve ainda mão mais pesada para a BAR e para a Honda, proibindo-os de participar das duas corridas seguintes quando a equipe tentou reverter a decisão de desclassificação no Tribunal de Apelo, o que fez com que Button e Sato faltassem aos GPs da Espanha e de Mônaco.

Foi óbvio para todos que a BAR-Honda praticou uma fraude, mas na época comentouse que muitas outras equipas utilizavam idêntico dispositivo e que a entidade federativa sabia disso. De fato, sete das dez equipes que participavam no mundial de F-1 alteraram os tanques de combustível dos seus carros durante as duas corridas seguintes, o que tornou claro que a FIA sabia do que se passava, mas decidiu selecionar a BAR-Honda como equipa a penalizar, por razões políticas.

O construtor japonês era, na época, um dos líderes da defunta associação GPMA (Grand Prix Manufacturers Assocation), que pretendia forçar a discussão de alguns assuntos com a FIA, e esta foi a forma de Mosley demonstrar que podia fazer tudo aquilo que quisesse se insistissem em afrontá-lo fora das pistas. Em pouco tempo a GPMA acabou, mas a temporada da BAR-Honda ficou comprometida, mesmo que Button tenha conquistado pontos nas 10 corridas seguintes, incluindo dois pódios, demonstrando que a equipe não necessitava de dispositivos ilegais para ser competitiva.

10 – ÁUSTRIA 2002 – O DEBOCHE DA FERRARI


A temporada de 2002 mais parecia um passeio no parque para Michael Schumacher, que tinha ganho com facilidade quatro das cinco primeiras corridas e chegou ao GP da Áustria na liderança, com 21 pontos de vantagem sobre Montoya e 24 sobre o seu irmão Ralf. Tal como se esperava as Ferrari F2002 dominaram no A1-Ring mas desde o início do fim-de-semana, e Rubens Barrichello tinha pequena vantagem sobre o seu companheiro de equipe, tendo alcançado a pole e liderado a corrida desde o princípio.

Schumacher ainda conseguiu diminuir a desvantagem para o brasileiro mas nunca esteve em posição de o ultrapassar. Faltando 10 voltas para o final, as atenções voltaram para o box da Ferrari, já que no ano anterior Barrichello tinha sido forçado a entregar o segundo lugar nos derradeiros metros da corrida, para oferecer a Schumacher dois pontos extra no Campeonato, num GP que Coulthard venceu. Iria a Ferrari fazer o mesmo? Não poderia ser tão canalha a esse ponto.

Claro que foi, apesar de Barrichello ter contestado a decisão via rádio até à última volta, quando foi tornado claro que perderia o seu lugar na Ferrari se não deixasse Schumacher passar. Entregou a vitória na última curva do circuito, ato que provocou a maior reação negativa do público que se viu num GP.

Schumacher foi vaiado e xingado desde que parou o carro até ao momento em que saiu do pódio, por uma multidão enraivecida e ainda tentou compor as coisas ao forçar Barrichello a subir para o degrau mais alto enquanto soava o hino nacional alemão. A reação dos jornalistas também foi extremamente negativa, mas dado que ordens de equipe eram permitidas, o máximo que a FIA pode fazer foi multar os pilotos e a Ferrari em US$ 1 milhão pelas atitudes grotescas no pódio, antes mesmo de alterar as regras para ter a certeza que uma situação destas não voltaria a acontecer. Ao menos de forma tão descarada.

 
 

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