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Trimotor: a Ford na aviação

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A história do Ford Model T é, invariavelmente, confundida com a própria história do automóvel. E com justiça. Mas não foi só no transporte rodoviário que a Ford deixou a sua marca. A marca teve grande importância no desenvolvimento da aviação moderna, como hoje a conhecemos. Isso mesmo. Do avião Ford Trimotor aos sistemas de comunicação, sem esquecer as infra-estruturas dos aeroportos, a Ford contribuiu de maneira decisiva em todos estes aspetos.

por Marcos Cesar SIlva

Recuando ao início dos anos 1900, ninguém olhava para o avião como um meio de transporte seguro, confiável e robusto; na verdade, era justamente o oposto disso. Henry Ford viu a oportunidade de mudar isso e acreditou que conseguiria fazer.

Na verdade, Henry Ford acreditava que o avião podia ser um meio de transporte seguro. E muito rentável, acima de tudo.

Desta vontade de fundador, nasceu o Ford Trimotor: o avião de passageiros que democratizou as viagens aéreas. Um avião acessível, robusto e razoavelmente seguro. Era o “Ford Model T voador”, como ficou conhecido.

Ford At-4 trimotor
Foram fabricados 199 exemplares do Ford Trimotor.

Desenhado por William Bushnell Stout, o Ford Trimotor tinha nos planos originais apenas um motor. Porém, foi a adoção de três motores —como veremos mais adiante — que determinou parte substancial de seu sucesso comercial.

Era uma solução que aumentava a segurança, a capacidade e também a confiabilidade deste avião, eliminando —ou pelo menos reduzindo— o receio que muitas pessoas ainda tinham de avarias mecânicas. O Ford Trimotor conseguia voar de forma estável mesmo perdendo dois dos seus três motores, sendo mesmo capaz de aterrisar em segurança com apenas um.

O fato de equipar o avião com três motores também permitia voar mais alto e mais rápido do que outros aviões do mesmo período, alcançando a velocidade de 240 km/h.

E como tudo isso começou? Temos que recuar até 1925, ano em que Henry Ford comprou a Stout Metal Airplane Company, por um valor que se estima em US# 1 milhão, para encontrar o início desta história. O negócio foi anunciado em 6 de agosto daquele ano. Um anúncio que foi acompanhado de uma carta de intenções de Henry Ford, e uma espécie de “aviso aos navegantes” para toda a indústria: “A primeira coisa que tem que ser feita com a navegação aérea é torná-la infalível… O que a Ford Motor Company quer fazer é provar que a aviação comercial pode ser segura e rentável”.

Henry Ford com o Quadricycle
Quadricycle, 1896. O primeiro automóvel construído por Henry Ford, aqui conduzido pelo próprio.

Tal como aconteceu com o automóvel, Henry Ford —que só voaria de avião pela primeira vez em 1927— queria resolver os problemas associados à aviação. E foi isso que fez. O Ford Trimotor foi concebido do zero para transportar passageiros e foi um dos primeiros aviões a ser construído totalmente em metal. Produziram 199 exemplares entre 1926 e 1933 —sendo 79 unidades da versão 4-AT e 117 da versão 5-AT- aos quais se somam ainda alguns modelos experimentais.

O sucesso do Trimotor pode ser comprovado pelas mais de 100 companhias aéreas em todo o mundo que voaram com o avião da Ford. Podia transportar entre 11 e 17 passageiros, dependendo da versão, aos quais se somavam três tripulantes: piloto, co-piloto e uma espécie de aeromoça.

O impacto desta aeronave na indústria da aviação comercial foi imediato e profundo, mas a influência da marca foi muito além das aviões. A Ford ajudou, por exemplo, a revolucionar toda a infraestrutura em torno das pistas de descolagem/aterrisagem da época e introduziu elementos como terminais para os passageiros, hangares para guardar os aviões, pistas asfaltadas e até sistemas de navegação por rádio.

Ford Trimotor At 4 interior
Com o Trimotor a Ford foi pioneira nas comunicações entre os pilotos e o pessoal”em terra.

O Trimotor foi também pioneiro nas tecnologias de comunicação entre avião e terra, com a Ford demonstrando pela primeira vez que era possível manter contato com a tripulação a partir do solo em distâncias de até 322 km (200 milhas).

Por causa destes testes pioneiros da Ford, algumas empresas aéreas começaram a usar sistemas de comunicação bidirecionais (piloto/terra e terra/piloto) já em 1929, naquilo que foi o início da criação do sistema aeroespacial norte-americano, com o Trimotor sendo o protagonista, ajudando a criar uma rede de rotas domésticas nos Estados Unidos.

Ford Trimotor 5At
Dependendo da versão, o Ford Trimotor podia acomodar entre 11 e 17 passageiros.

Foi também o primeiro avião a ser usado numa campanha de eleições, em 1932, por Franklin Roosevelt, que substituiu as até então comuns viagens de trem, aproveitando todas as capacidades do Trimotor. Não havia publicidade melhor do que essa!

O reinado revolucionário do Trimotor —que ficou celebriizado no filme “Indiana Jones e o Templo da Perdição” de Steven Spielberg— acabou em 1933, ano em que deixou de ser produzido, significando também o fim deste capítulo da Ford no mundo da aviação. Uma saída de cena justificada pela queda de vendas que coincidiu com a “Grande Depressão” e pelo foco principal da marca nos automóveis. Mas o Trimotor não desapareceu.

Ford AT 4 trimotor
A fuselagem em alumínio e os três motores ainda hoje fazem com que este avião da Ford tenha lugar de muito destaque na história da aviação.

Grande parte dos 199 exemplares construídos continuaram voando até à década de 1960, com muitos deles convertidos em aviões de transporte de carga. Antes disso, na Segunda Guerra Mundial, várias unidades do Trimotor foram adaptadas e usadas na aviação militar.

A Ford pode não fabricar aviões, mas não esquece o passado. A inspiração no mundo da aviação continua presente em alguns dos seus modelos. O Ford GT, por exemplo, tinha na carroceria inspiração clara na fuselagem de um avião e usava aerodinâmica ativa, cujo principal exemplo era a engenhosa asa traseira que ajustava a posição de acordo com a velocidade e modo de condução.

Ford GT Carbon Series
A carroceria do Ford GT tem clara inspiração aeronáutica.

Já a picape Ford F-150 foi a primeira do seu segmento a apresentar carroceria em liga de alumínio de alta resistência, material que foi desenvolvido originalmente para a aviação, pela maior leveza em relação ao aço.

Além disso tudo, a ligação da Ford com o setor da aviação é mantida por meio do apoio à “Experimental Aircraft Association Gathering of Eagles”, organização norte-americana que tem como objetivo incentivar os jovens a seguirem carreira na aviação.


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