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Primeiro carro a álcool de grande produção? É o Ford T, e não o Fiat 147…

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Recentemente a FCA celebrou uma data importante, com o tema “Fiat comemora 40 anos do primeiro carro a etanol produzido em série no mundo”. Será verdade? Com certeza não, a FCA se enganou. A maioria dos carros produzidos até os anos 1920 eram elétricos ou movidos a algum tipo de álcool, incluindo etanol, metanol, butanol e propanol.

O exemplo mais marcante disso é o Ford T, cujo motor funcionava com álcool ou gasolina (ou mesmo a mistura dos dois, além de querosene), que em 1908 não só  usava o combustível vegetal, como também era produzido em grande série. Nos anos 1930 a China também produziu veículos movidos a álcool.

Ford T, lançado em 1908, funcionava com álcool ou gasolina.

Aqui no Brasil,  primeiro carro moderno a rodar com etanol, então chamado apenas de álcool, foi um Dodge 1800 azul metálico, em 1976, na esteira do Proálcool, Programa Nacional do Álcool, criado em 14 de novembro de 1975 pelo decreto n° 76.593, com o objetivo de estimular a produção do álcool combustível, visando o atendimento das necessidades do mercado interno e externo, bombardeado pela crise do petróleo. Todas as marcas passaram a trabalhar no álcool hidratado, como combustível alternativo à gasolina, e cabe a Fiat ser a primeira a colocar em ampla produção aqui no Brasil esse tipo de motor.

Henry Ford: implacável e genial.

A receita era simples e conhecida: maior taxa de compressão, ajustes no carburador para obter mistura mais rica, recalibragem do avanço do distribuidor e proteção de toda a linha de combustível, a partir do tanque. A partida a frio era um assunto também a ser resolvido, com injeção de gasolina. Mas vamos voltar no temo para entender um pouco do pioneirismo da Ford

No inverno de 1917, quando as tropas  dos Estados Undos para a Europa para se unir à guerra mais sangrenta da história, Henry Ford (30 de julho de 1863 – 7 de abril de 1947)  dirigiu um Modelo T construído especialmente para uso em terrenos ruins, pelas estradas da zona rural da Flórida, à procura de plantações de cana e terras adequadas para o cultivo de culturas que poderiam ser transformadas em combustível para motores.

A Ford foi responsável por inaugurar uma era moderna, acelerada e motorizada nos Estados Unidos, que começava a ficar cada vez mais dependente da gasolina e do petróleo. Mas, fazendeiro de origem, ele desdenhou os barões do petróleo e os mercadores de animais, cujos lucros possibilitavam e dependiam do crescimento estratosférico da indústria automotiva.

Ford e Edison: que dupla!

No pensamento de Ford, os petroleiros eram especuladores sem princípios, cuja obsessão com a rápida riqueza pouco fizeram para beneficiar as cidades e comunidades agrícolas que abriram suas terras para a perfuração dos poços. Além disso, Ford acreditava, presumidamente, que os gases de escapamento da gasolina poluíam muito o ar. Por ser forçado a depender do tal combustível insalubre, a montadora estava decidida a encontrar alternativas para seu popular Modelo T. Como muitos outros, no rápido amadurecimento dos negócios de automóveis Ford ficou intrigado com as perspectivas do álcool. Ele não só queimava mais limpo que a gasolina, mas também era um recurso renovável derivado de grãos e outras culturas anuais.

Embora Ford tivesse escapado do trabalho físico pesado das fazendas de seus pais, focalizando Detroit e suas movimentadas fábricas mecanizadas, ao longo de sua carreira ele manteve um apego sentimental à vida rural e ao bem-estar da família e dos agricultores americanos.

O primeiro flex: motor do Ford T funcionava com gasolina e/ou álcool. 

Promover o álcool como combustível beneficiaria não apenas a indústria automotiva, imaginou Ford, mas também ajudaria os agricultores a encontrar um mercado pronto e lucrativo para seus produtos excedentes. A Flórida, com seu clima tropical e abundantes áreas de terras aráveis, era intrigante para os propósitos de Ford, e na verdade estava começando a atrair a atenção dos produtores de cana da Louisiana. A missão de Ford naquele inverno foi explorar a Flórida para o trabalho de plantações e terrenos grandes o suficiente para plantar cana-de-açúcar suficiente para assustar os industriais de petróleo e os encarregados da gasolina, que haviam dominado o mercado de combustível para motores.

Sentado ao lado da Ford no banco dianteiro do Modelo T estava outro gênio americano do progresso e da indústria do século XX, Thomas Alva Edison. Como muitos americanos vivendo a expectativa da virada do século 19 para o 20, o jovem Ford idolatrava Edison, maravilhando-se com as engenhosas invenções e o empreendedorismo do famoso cientista. Ford conheceu Edison enquanto trabalhava como engenheiro-chefe na Detroit Edison, em meados dos anos 1890. Convidado para ir a Nova Iorque como membro da delegação de Detroit para a convenção anual da Associação das Empresas de Iluminação de Edison, em 1896, Ford -então com  33 anos- foi apresentado a Edison como um promissor pioneiro da “carruagem sem cavalos” e obrigado a esboçar suas mais recentes idéias no verso de um menu. 

Mais tarde, à medida que a Ford ganhou destaque como principal montadora do mundo, os dois se tornaram grandes e inseparáveis amigos. Que dupla! Foi Edison, na verdade, quem apresentou pela primeira vez a Ford o clima ameno da Flórida, em 1915, quando Ford e sua esposa Clara, permaneceram hospedados na casa de verão de Edison em Fort Myers, na costa oeste da Flórida. Ford comprou sua própria casa de férias em Fort Myers, ao lado de casa de Edison, e ali passou o inverno com sua família até o início da década de 1930. Foi durante uma escapada anual na Flórida que a Ford e Edison viajaram pelo Estado para avançar no plano da Ford de produzir combustível para motores a partir de álcool extraído de plantas.

Ao contrário de Ford, Edison não tinha interesse pessoal no assunto. Seu negócio era a energia elétrica, não combustível líquido. Mas o chamado “Mago de Menlo Park” (a cidade de Nova Jersey onde Edison tinha seu famoso laboratório) estava certamente ciente do crescente interesse científico e público em busca de alternativas à gasolina, impulsionada em grande parte pelos textos que o jornalista Frederic Haskin escevia no “Los Angeles Times”, ressaltando o “terrível terror” de uma iminente escassez de gás.

A guerra na Europa foi única não apenas por ser a primeira “guerra mundial”, mas também por ser a primeira guerra alimentada pelo petróleo e pelo gás. E os milhares de aviões, carros, caminhões, tanques e outros veículos motorizados consumiam milhões de litros de combustível produzidos e importados em grande parte dos Estados Unidos. A pressão sobre a indústria petrolífera americana para produzir quantidades cada vez maiores de gasolina durante a guerra levou Haskins e outros jornalistas a relatar que, segundo os “especialistas do governo”, os poços de petróleo -e, portanto, o fornecimento de gasolina- logo esgotariam. “Portanto, precisamos agora descobrir uma fonte permanente de combustível para substituir o combustível temporário em que estivemos apostando”, escreveu Haskins em 1919. “Os cientistas parecem concordar que o álcool fornecerá essa fonte permanente de combustível”. 

Antes mesmo das viagens com Edison pela Florida, Ford sempre se interessou pelo álcool combustível. Ele sabia que, em 1826, Samuel Morey havia desenvolvido um motor que funcionava com etanol e terebintina. Setenta anos depois, em 1896, o Quadricycle de Henry Ford usava motor movido a etanol e, em 1908, quando lançou o Modelo T, o projeto incluia o uso de álcool e/ou gasolina. Poucos anos depois, em 1971, aprofundou as pesquisas para popularizar o uso do combustível vegetal. Uma curiosidade: em 1920 a Standard Oil começou a misturar etanol na gasolina, para aumentar a octanagem e reduzir a pré-detonação dos motores. O que o Brasil faz até hoje, mas também para economizar petróleo.

Resumindo: o primeiro carro de grande produção movido a álcool foi o Ford T 1908, produzido até 1927, com seu motor de quatro cilindros em linha, 2.894 cm³, 17 cv/20 cv de potência (gasolina/álcool) e velocidade máxima de 75 km/h. E não o Fiat 147 brasileiro, que nem por isso deixa ter ter seu mérito: foi o primeiro nacional de grande produção movido com combustível vegetal.


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