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A história do Neon, o revolucionário e esquecido Chrysler

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Um carro que entrou para a história pelo seu desenho de muita personalidade, teve três marcas com o mesmo nome, duas gerações, versões de alto desempenho e foi vendido com sucesso também no Brasil. E foi ressuscitado pela Fiat…

Os anos 1990 marcaram uma época de grande atividade para a Chrysler. Depois de escapar de mais uma crise, nos anos 1980, com modelos como Dodge Aires e Plymouth Reliant, picapes RAM, minivans Dodge Caravan e outros, a empresa decidiu que a única saída era se aventurar em projetos mais atrevidos, como o supercarro Dodge Viper mostrado em 1989 e que três anos depois desembarcava no mercado. A década de 1980 permitia imaginar que a Chrysler havia recebido uma praga de alguma divindade egípcia, mas não. Os problemas eram resultado do puro conservadorismo e administração capenga.

por Ricardo Caruso

Nessa onda de renovação, muita coisa boa surgiu. Entre os sedãs surgiram os modelos de “cabine avançada”, inicialmente os da série LH, com novidades como os Chrysler Concorde, New Yorker e LHS, e nos Dodge os Intrepid e Eagle Vision. Na sequência vieram os carros da linha JA, como Chrysler Cirrus, Dodge Stratus e Plymouth Breeze. Mas antes deles chegarem às ruas, foi mostrado um carrinho compacto, ainda cimi conceito e exibindo desenho bastante interessante: era o Neon, com seus faróis redondos quase ovalado, enorme e inclinado para-brisa e portas de correr. O conceito Neon foi projetado por desenhistas da Chrysler que ingressaram na empresa após a aquisição da American Motors Corporation (AMC) pela Chrysler em 1987. 

As portas corrediças -caras de implantar- ficaram só no conceito, e assim, no Salão de Detroit em janeiro de 1994 o Neon era oficialmente apresentado, com linhas próximas do protótipo. O desenho era assinado por Thomas Gale, o mesmo criador das linhas do Viper, do Plymouth Prowler e da Dodge Ram. Curioso é que, ao contrário de outros produtos compartilhados da Chrysler, ele usava o mesmo nome nas versões para as três divisões do Grupo; Chrysler, Dodge e Plymouth Neon.A primeira geração do Neon foi lançada em janeiro de 1994 e fabricada até agosto de 1999.

Estranho para quem estava acostumado com os Chrysler grandalhões, mas agradável para a maioria. Seu visual recebeu poucas críticas. A frente era limpa e simples; a carroceria arredondada, limpa e com curvas suaves; a base de para-brisa bem inclinado era avançada e o interior espaçoso. Havia disponibilidade do sedã de quatro portas ou cupê de duas, ambos sem molduras nos vidros das portas, com 4,36 metros de comprimento e generosa distância entre-eixos de 2,64 m. O Cx (coeficiente e penetração aerodinâmica) de 0,32 era bom para os padrões da época e ainda hoje. O interior era simples de desenho, mas bastante funcional. Como não existe milagre no mundo do automóvel, o porta-malas tinha apenas 330 litros de capacidade, suficiente mas não impactante.

O motor usado era de quatro cilindros em linha, de 2,0 litros e 16 válvulas (quatro válvulas por cilindro). Era disponível em duas versões: com comando de válvulas único, 131 cv de potência máxima e 17,7 mkgf de torque, e com comando duplo, 150 cv e 18,3 mkgf. Alguns mercados receberam o carro com motor 1.8 de 115 cv. Em todos os casos, bons números para a proposta do carro já que o peso era de 1.145 kg.

Neon ACR.

O câmbio era manual de cinco velocidades ou automático de apenas três marchas. Isso foi motivo de reclamações, pois o câmbio não estava bem calibrado para o motor e as transmissões mais comuns já eram de quatro velocidades. Menos uma marcha, mas boa potência colocava o pequeno Chrysler como concorrente forte na categoria onde reinavam Chevrolet Cavalier (uma das versões do Monza americano), Nissan Sentra, Honda Civic, Toyota Corolla e Ford Escort, com algo entre 100 e 130 cv.

Neon R/T

Um dos destaques do modelo na briga dentro de sua categoria era o espaço interno. Tinhas 8 cm a mais de altura que o Civic, quase 20 cm a mais de entre-eixos que o Corolla e acelerava de zero a 100 km/h abaixo de oito segundos. Era pequeno, mas tinha a alma dos Chrysler, sempre divertidos de dirigir.

O Dodge Neon SRT-4 da segunda geração, esportivo com motor turbo de 215 cv, acelerava de 0 a 100 km/h em menos de 6 segundos: o mais rápido Dodge da época depois do Viper

Esta primeira geração do Neon ganhou versões com apelo mais esportivo. A ACR (American Club Racer), tinha rodas esportivas, suspensão mais firme e transmissão final encurtada. A R/T surgiu na linha 1998 com faixas decorativas no capô e teto, aerofólio, rodas esportivas e sistema de som melhorado, mais alguns itens do ACR. Existiu ainda a versão Sport para o sedã.

SEGUNDA GERAÇÃO

A segunda geração foi lançada em 2000 apenas como sedã, e na verdade era uma atualização do estilo original, que ficou mais moderno e elegante, claramente remetendo ao anterior. O carro cresceu um pouco, indo para 4,43 m de comprimento, com 2,67 m de distância entre- eixos e mais 5 cm na largura. A base do para-brisa foi posicionada 7 cm mais à frente, ressaltando o conceito de cabine avançada dos Chrysler da época, e as janelas das portas ganharam molduras. O porta-malas melhorou de capacidade e foi para 370 litros, mas o Cx pagu a conta, subindo para 0,34.

Nos Estados Unidos apenas o motor de 2,0 litros com comando de válvulas único estava disponível, com 132 cv e 18,3 mkgf. Quando equipado com coletor de admissão variável, saltava para 150 cv e 18,6 mkgf. Mercados europeus e asiáticos -não todos- recebiam o Neon equipado com o 1.6 16 válvulas, que era fabricado no Paraná pela Tritec, joint venture Chrysler-BMW. Fora dos Estados Unidos o Neon era comercializado só como Chrysler.

Neon ACR

O Neon foi vendido no Brasil em ambas as gerações, com mais procura na primeira série, que chegou em 1996 como sedã e cupê, motores 1.8 e 2.0 e caixas de câmbio manual e automática. A segunda geração, de 2000, foi trazida só em sedã 2.0 automático, mas essa importação durou apenas um ano.

O Neon R/T voltou ao mercado ainda em 2000 com o motor de 150 cv, rodas aro 16, aerofólio traseiro e suspensão com calibragem mais esportiva. O ano de 2001 foi o último para a versão da Plymouth, marca que a Chrysler matou sabe-se lá porquê. Uma caixa de câmbio automática de quatro velocidades foi enfim disponibilizada em 2002.

O Neon de melhor desempenho na sua história foi o Dodge Neon SRT-4, esportivo nervoso, com motor 2.4 turbo de 215 cv e interessantes 33,9 mkgf. Lançado em 2003, ele trazia um scoop (tomada de ar) funcional no capô, asa traseira alta, rodas aro 17, bancos esportivos, freios com discos maiores e outros detalhes. A velocidade máxima era de 240 km/h e aceleração de zero a 100 era feita em pouco mais de 5 segundos. Uma curiosidade: era o mais rápido Dodge em produção depois do Viper.

Neon R/T

Para 2003, a grade dianteira foi redesenhada, com quatro elementos; faróis e para-lamas mudaram em toda a linha mas, dois anos mais tarde, o Neon se despediu do mercado, entrando para a história como um Chrysler (mais um!) que recuperou a moral da marca graças às incontáveis inovações e ousadia que trouxe. No total, entre as duas gerações, foram fabricados 2.076.136 unidades.

TERCEIRA GERAÇÃO?

O que poucos sabem é que houve uma terceira geração do carro, mas que usava apenas o nome Neon. Na verdade era o modelo sedã do “Projeto Aegea” da Fiat (que havia adquirido em 2014 a Chrysler, formando a FCA – Fiat Chrysler Automobiles) adaptada para os mercados mexicano e do Oriente Médio, que marcou o retorno do nome Neon após uma ausência de 11 anos.

Lançado como ano-modelo 2017, o novo “Neon” foi posicionado para o mercado mexicano como uma “nova geração de sedã compacto”. O novo carro foi lançado em 2016, na mesma época em que se esperava que o Dodge Dart encerrasse a produção, e houve boatos de que ele seria vendido nos mercados dos Estados Unidos e do Canadá em 2018 como um substituto para o Dart. 

O Dodge Neon 2017 turco, que do Neon original só tinha o nome…

Como os planos da FCA eram de investir na produção dos Estados Unidos nos Jeep e Ram enquanto usava o “Acordo de Livre Comércio da América do Norte” para fabricar carros de passageiros Chrysler e Dodge no Canadá e no México, o Neon foi planejado para ser construído e importado da Turquia. Utilizava a plataforma do Fiat Tipo (de 2015) e foi desenvolvido e produzido em Tofaş pela Fiat e pela Turkish Koç Holding. Embora comercializado na Turquia, Europa, Oriente Médio e África, apenas o México recebeu a variante Dodge Neon.

Os planos para comercializar o veículo Neon de terceira geração no México foram abandonados depois que General Motors e Ford reduziram suas próprias linhas de automóveis de passageiros nos Estados Unidos, incluindo o encerramento das vendas de potenciais concorrentes de tamanho compacto Chevrolet Cruze e Ford Focus na América do Norte. O Neon foi descontinuado no México após o ano-modelo 2020, com as 70 unidades finais vendidas em 2021. Agora curte o merecido descanso…


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