A McLaren Lamborghini que impressionou Ayrton Senna

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Era um carro rápido, promissor e que seduziu Ayrton Senna, mas nunca chegou a correr na Fórmula 1. O brasileiro testou a McLaren-Lamborghini MP4/8B -toda branca- em 20 de setembro de 1993, no autódromo português do Estoril. AUTO&TÉCNICA conta a história da “McLambo” e porque o projeto não foi adiante.

por Ricardo Caruso

Senna Lamborghini Estoril F1 1993

A Fórmula 1, como quase todos os esportes -motorizados ou não- está repleta de suposições, histórias e promessas. De pilotos que eram campeões em potencial e carros criados para dominar as pistas, mas que nunca conseguiram. E também de parcerias quase fechadas, que acabaram antes de começar. A McLaren Lamborghini é um excelente exemplo disso.

Este carro, que continua a ser um dos mais fascinantes casos de “e se…”da história da Fórmula 1, reunia um excelente chassi da McLaren a um potente motor V12 da Lamborghini. Esta McLaren não ficou apenas no papel. Ela se materializou, mostrou ser muito rápida e até a aprovação de Ayrton Senna, que a avaliou no Circuito do Estoril, Portugal, em 1993. Mas Ron Dennis, o chefão da McLaren na época, tinha outros planos e não deixou que ela chegasse às pistas. Mas, por quê?

Primeiro é preciso lembrar que a temporada de 1993 não foi exatamente fácil para a equipa britânica, que viu a Honda (que lhe fornecia os motores) anunciar de forma repentina que ia deixar a Fórmula 1. Isto deixou a McLaren numa situação complicada, obrigada a encontrar, em poucos dias, um novo fornecedor de motores.

Como se este cenário não fosse já suficientemente complicado, a McLaren enfrentava uma equipe Williams fortíssima, avassaladora, empurrada pelo motor V10 da Renault, numa relação de exclusividade que inviabilizava qualquer eventual acordo entre a Renault e a McLaren.

Máquinas Eternas #10: a McLaren-Lamborghini branca que agradou até a Senna,  mas nunca correu | f1 memória | ge

Ciente de tudo isso, Ron Dennis acabou por acertar uma parceria com a Ford-Cosworth, para o fornecimento do seu motor V8. Mas reza a história nos bastidores que estes blocos eram bem menos potentes do que aqueles que a Ford fornecia à Benetton, que era a sua principal equipe.

Somando a tudo isso, o ambiente dentro da equipe começou a não ser dos melhores. Ayrton Senna, esperto, já antevia os tempos difíceis que teria pela frente e mostrou vontade de querer sair. Dizem que o piloto brasileiro chegou a renovar contrato de corrida em corrida, deixando sempre aberta a possibilidade de uma mudança.

Rapidamente percebeu que continuar com os motores V8 da Ford-Cosworth não era uma opção minimamente para a temporada de 1994, e Ron Dennis começou a procurar alternativas. E é aqui que entra a Lamborghini, que estava presente na Fórmula 1 desde 1989, como fornecedora de motores V12 de várias equipes menores, como a Larrousse, que era vista como uma espécie de equipe de fábrica da construtora da marca italiana.

Minardi M191B V12 Lamborghini
Minardi M191B, equipada com um motor V12 da Lamborghini.

Em qualquer das equipes em que o V12 da Lamborghini foi montado, o resultado não foi além de muitas dores de cabeça, mostrando-se sempre pouco confiável. Mas todos admitiam que aquele motor tinha potencial para oferecer muito mais do que mostrava.

E foi com base nesse potencial que Ron Dennis acabou por negociar com o lendário Bob Lutz, então vice-presidente da Chrysler, que foi a proprietária da Lamborghini entre 1987 e 1994. E assim nasceu o McLaren MP4/8B (este era o nome oficial), derivado do MP4/8 que correu naquele ano de 1993.

Do lado da equip McLaren, com sede em Woking, foi necessário adaptar o chassi (tiveram que alongar o carro) para acomodar o monstruoso V12 da Lamborghini. Do lado dos engenheiros italianos, foi preciso reduzir ao máximo o peso e tamanho do motor, bem como instalar-lhe uma nova parte eletrônica, desenvolvida pela TAG Electronics.

E a McLaren Lamborghini estava finalmente pronta para rodar, algo que acabou acontecendo no final de setembro, em 1993, no Circuito do Estoril, logo depois do GP de Portugal. Ayrton Senna foi o escolhido para este primeiro teste, e os resultados não podiam ter sido melhores.

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Ayrton Senna no Circuito do Estoril, em 1993.

O piloto rodou cerca de um segundo mais rápido do que tinha feito na corrida, ainda com o V8 da Ford-Cosworth, e no final do teste até já falava do que o McLaren podia ser na próxima temporada, com aquele motor. “Talvez precise de um pouco de potência, mas tenho a certeza que a próxima temporada será melhor”, disse.

Uns dias depois, em Silverstone, resultado semelhante, mas desta vez com Mikka Häkkinen ao volante, que conseguiu melhorar em 1,4s os tempos que tinha feito com o V8 em corrida.

Com resultados tão bons, tudo parecia estar bem encaminhado, e aquilo que começou sendo um problema (a saída da Honda), parecia ser o início de uma nova página de sucesso na história da McLaren. O novo motor mostrava-se muito rápido, mesmo num carro que não tinha sido desenhado para ele, e Senna e Häkkinen estavam totalmente satisfeitos. Mas Ron Dennis tinha outra ideia…

Enquanto tudo isto acontecia, a verdade é que o chefão da equipe de Woking finalizava um contrato com a Peugeot para o fornecimento dos seus motores V10 para a temporada de 1994. Ron Dennis teria sido seduzido pela ideia de vencer a Williams com a Peugeot, o eterno rival da sua fornecedora de motores, a Renault.

Parece um quebra-cabeças difícil de entender, mas para Dennis já estava tudo decidido. Por isso mesmo, o pior que lhe podia acontecer era este V12 italiano começar a apaixonar tudo e todos. E só mais tarde se veio a saber, pela boca de Martin Whitmarsh, o braço direito e sucessor de Ron Dennis na McLaren, o que estava verdadeiramente em jogo.

De acordo com Whitmarsh, Ron Dennis deu ordem aos mecânicos e engenheiros da equipe para que o carro fosse testado em Estoril e Silverstone com o máximo de combustível possível, para assim ser menos competitivo. “O engenheiro-chefe ligou de Estoril e disse: ‘Escuta, não posso fazer nada para impedir este carro de acelerar. É realmente rápido. Está indo muito bem e tem o Ayrton ao volante’”, contou anos depois Whitmarsh.

Os pilotos, que aparentemente eram os únicos que não sabiam desta sabotagem, limitaram-se a andar e o carro não podia ter dado melhor resposta. Senna chegou mesmo a exigir que o restante da temporada fosse corrido com este motor, mas a história acabou muito diferente.

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Na temporada de 1994, as McLaren correram com motores da Peugeot.

Ron Dennis acabou mesmo por fechar o acordo com a Peugeot para a temporada de 1994, e Ayrton Senna saiu da McLaren e foi para a Williams, para assumir o lugar de Alain Prost. Seria a última temporada de Senna, que teria um destino fatídico na terceira corrida do ano, no dia 1 de maio de 1994, em San Marino.

A McLaren acabou por ter uma temporada desastrosa, terminando na quarta posição do Mundial de Construtores, atrás da Williams-Renault, da Benetton-Ford e da Ferrari. Sem surpresa, os caminhos da McLaren e da Peugeot voltaram a se separar no final da temporada, com a McLaren passando a usar motores Mercedes.

F1 in the 1990s 🚦🏎🏁🏆🍾 on Twitter: "Mika Hakkinen (McLaren-Lamborghini  V12, MP4/8B). Silverstone Test, 1993. #F1 https://t.co/1kWKXqm0vM" / Twitter
Mika Hakkinen em Silverstone.

Já a Lamborghini acabou desistindo da sua aventura pela Fórmula 1 e, no final de 1993, abandonou de vez a categoria. Para a história, fica a história desta McLaren Lamborghini e seu imenso potencial, que poderia ter ajudado a acabar com a hegemonia da Williams-Renault na época. E temos de volta o ” e se…”. E se tudo tivesse dado certo, Senna continuaria na McLaren em 1994 e seu trágico destino, com quase toda certeza, teria sido outro.


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