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Concepção de Charles F. Kettering para a Feira Mundial de Chicago, de 1933, a “Parada do Progresso” representa até hoje um marco na história e cultura da GM. E, sem dúvida, a porção mais visível do projeto foram os Futurliners, gigantescos “ônibus” produzidos pela empresa especialmente para o projeto. Apesar de não serem veículos de passageiros, serviram de referência para o desenvolvimento dos ônibus GM Silverside, além de terem sido emissários da tecnologia durante duas décadas. A história por trás destes veículos é uma das mais interessantes sagas na história da GM.

Inventor e pesquisador, Kettering foi o fundador da Flexible Company, em Loudonville, Ohio, em 1915. Dono de muitas patentes de invenções, talvez as mais conhecidas sejam nada menos que o motor de partida elétrico para automóveis e o gerador automotivo (dínamo). Também fundou a Dayton Electric Research Labs, cujas iniciais mais tarde dariam origem à Delco. Usado pela primeira vez num Cadillac, o motor de partida (ou motor de “arranque”) fez tanto sucesso que a General Motors decidiu comprar a Delco, garantindo assim o fornecimento de motores de partida e componentes elétricos para os modelos GM, além de transformar Kettering em vice-presidente de pesquisas da marca.

Em 1933, na abertura da Feira Mundial de Chicago, a GM era um dos maiores expositores. Kettering teve a idéia de literalmente  colocar a exibição na estrada para que os norte-americanos que não puderam ir a Chicago tivessem acesso às maravilhas da ciência e da tecnologia apresentadas pela GM. Apenas por posicionamento histórico, era o fim da grande Depressão, televisão ainda era coisa do futuro e os norte-americanos como sempre estavam  interessados em um futuro melhor. Logo após o final da Feira, com a aprovação  do comando da GM, começaram os trabalhos do que seria a “Parada do Progresso”.

OITO VEÍCULOS

A estrutura básica da Parada era uma frota de oito veículos especiais, denominados “Silver-topped Streamliners”. Eles tinham 10 metros de comprimento, montados sobre chassis de caminhões, com entre-eixos de 6 metros, movidos por motores GMC a gasolina. Construídos pela Fisher Body´s leetwood em Detroit, mais pareciam enormes vagões de trem, e eram reconhecidos como os maiores veículos em operação nas estradas norte-americanas.

A caravana contava também com nove caminhões-reboque Chevrolet e GMC (para transporte de acessórios das mostras, como material elétrico, geradores e palcos), além de muitos carros. Após chegar ao local do evento, a equipe da Parada montava um “palco central”, uma enorme tenda. Próximo eram colocados seis Streamliners lado a lado, formando um corredor pelo qual os visitantes caminhavam para ver as apresentações. O sétimo Streamliner era aberto para formar um palco, e o oitavo servia de transporte para equipamentos extras. O show resultante de todo o trabalho era grátis para o público, já que tinha fins educacionais e científicos, tal como visto na Feira de Chicago.

A primeira “Parada do Progresso” caiu na estrada pela primeira vez em 11 de fevereiro de 1936, partindo de Detroit para um compromisso inicial em Lakeland, Florida. Deste então, permaneceu na estrada por quatro anos e talvez a viagem mais notável dos antigos Streamliners aconteceu em 1938, quando a caravana deixou Laredo, no Texas, em direção ao sul, na inauguração da estrada Pan American Highway, com destino à cidade do México.

Segundo fontes da GM, quando os Streamliners da “Parada do Progresso” original foram substituídos por novos “ônibus”, em 1941, cerca de 10 milhões de pessoas e 220 cidades haviam visto as apresentações da caravana. Não há informações sobre o paradeiro dos Streamliners originais, talvez nenhum tenha sobrevivido.

Como aconteceu na concepção da Parada, a ideia de substituir os veículos veio de Kettering, durante outra feira mundial, desta vez em Nova Iorque, no ano de 1939. A GM apresentou no seu Futurama o protótipo para o que logo seriam os ônibus “Silversides”, e este era o caminho para a renovação da frota da Parada.

OS FUTURLINERS

Os novos veículos ganharam o nome de Futurliner. Um total de 12 unidades foram construídas na linha de produção de ônibus em Pontiac, Michigan, então denominada “Yellow Coach Bus Division”, nome logo trocado para GMC Truck Coach, mantendo os 10 m de comprimento e 2,4 m de largura do protótipo Silverside. Por conta da elevação do posto de direção do veículo, a altura ficou em 3,5 m, enquanto o entre-eixos tinha pouco mais de 6 m. Um arranjo incomum foi usado no eixo dianteiro, com dupla rodagem paralela e cada roda com seu sistema de freios, o que levou à utilização de direção assistida.

Os Futurliners eram movidos por motores de quatro cilindros diesel (os Detroit Diesel 4-71), com transmissão manual de quatro velocidades, o mesmo conjunto utilizado nos ônibus diesel produzidos pela GM na época. Vazio, cada veículo pesava cerca de 15 toneladas, e, após finalizados, recebiam pintura nas cores vermelha e branca, com detalhes dourados e prateados.

Após o trabalho em Pontiac ser finalizado, os Futurliners eram levados à Fisher Body Fleetwood para  acabamento, recebendo, por exemplo até 19 portas de acesso ou exposição.  Displays eram instalados em alguns, visualizados depois nos eventos por meio de  enormes portas laterais, enquanto outros eram equipados com geradores para produzir a energia elétrica necessária às apresentações.

As semelhanças com a Parada original continuavam. Por exemplo, a nova versão foi para a estrada também em fevereiro, desta vez em 1941, exatos cinco anos após a primeira, indo para a mesma Florida, porém fazendo seu show em Miami, em vez de Lakeland.

TUDO NOVO

A nova “Parada do Progresso” era  maior, mais moderna e tinha muitas novidades. Se na anterior eram cinco grandes temas, nesta eram 15, além de dois veículos militares, que faziam parte da  “Mostra da Defesa”. Um dos mais importantes acréscimos foi a inclusão do “Aer-O-Dome”, uma enorme tenda com estrutura externa de alumínio que, uma vez erguida,  acomodava 1.500 pessoas sentadas, sem qualquer tipo de interferência de visão,  como postes ou colunas.

Viajar com a Parada deve ter sido uma  experiência interessante e divertida. A GM contratou 50 jovens universitários recém-formados de todo o país, além de motoristas que “escalavam” uma escada  para chegar ao volante do Futurliner, guiando a mais de 3 m de altura do solo, cercado por um vidro panorâmico. O assento ficava posicionado ao centro, com um moderno console de  controles à frente e dois assentos para passageiros logo atrás. Nesta configuração, com o vidro enorme na dianteira e sem ar condicionado, dirigir o veículo era terrível.

Uma vez formada a caravana na pista, o resultado era um comboio de mais de 50 veículos. Um novo GM conversível liderava a fila de pelo menos 12 caminhões, carregados de tendas, cadeiras e outros detalhes; um informativo diz que os 50 veículos consistiam de 12 Futurliners, 24 caminhões, 11 carros de passageiros e três station-wagons. Todos Futurliners tinham receptores de rádio, mas só um –o líder- podia transmitir. A velocidade máxima do comboio, em geral, era de pouco mais de 60 km/h (40 mph), limitada pela velocidade justamente dos Futurliners.

Chegando a uma cidade, a Parada sempre percorria a rua principal do local, levando o prefeito e outras autoridades no conversível líder. Depois, seguia para o local onde seria montada a mostra, em geral próximo a escolas ou áreas específicas para eventos.

A fase mais trabalhosa era erguer o “Aer-O-Dome” e colocar os assentos, pois alguns dos veículos continham displays que podiam ser vistos pelo simples abrir de portas laterais. Também tinham painéis nas capotas, que se erguiam e forneciam iluminação ao local, o que permitia a continuação das apresentações durante a noite, além de criar uma atmosfera de “parque de diversões”.

Não eram cobrados ingressos, e a GM aproveitava para também mostrar seus novos automóveis, dream-cars e outros produtos e utilidades, embora nenhuma ação direta de venda fosse realizada. Muitas das apresentações eram de cunho científico, tecnológico ou de tendências para o futuro, como “modernos” televisores, luz negra, cozinhas e salas de estar do futuro, ou um forno. Havia também uma demonstração de som estereofônico usando como exemplo um jogo de ping-pong, ou uma outra mostrando como o som poderia viajar em um feixe de luz.

Nos nove meses decorridos desde a partida, em fevereiro de 1941, a Parada do Progresso atraiu perto de 2,5 milhões de pessoas, em 30 cidades de 10 estados. Isso tornou o evento ainda mais popular que a primeira Parada, já que a Depressão era coisa do passado e os norte-americanos experimentavam o começo de uma nova era de prosperidade. Mas o ataque a Pearl Harbor e a consequente declaração de guerra aconteceram quando a Parada estava em San Antonio, Texas, o que levou a suspensão da atividade e os Futurliners foram colocados em um depósito. Com algumas raríssimas exceções, os Futurliners permanceram guardados por mais de 10 anos. Alguns apareceram brevemente em 1946 para participar, em Detroit, do desfile comemorativo do jubileu de ouro do automóvel.

A renovada caravana foi oficialmente lançada em 12 de maio de 1953, dando início à terceira fase da “Parada do Progresso”, com muitas apresentações novas ou evolução das anteriores, entre elas a apresentação do próprio Corvette. Esta caravana rodou por três anos, mas a curiosidade e a frequência de público já não eram mais tão grandes, por conta em especial da competição com a televisão. Em 1956, oficialmente encerrada a parada, 11 dos 12  Futurliners foram colocados à disposição para venda ou doação, já que um se envolveu num acidente e acabou destruído e foi usado como “fornecedor de peças”.

 O DESTINO DOS FUTURLINERS

Um dos Futurliners foi transformado em motor-home customizado, tendo aparecido em diversas publicações da época, e nelas o destaque foi sempre para o trabalho de restauração, realizado quase totalmente pelo próprio dono. A Peter Pan Bus, empresa da cidade de Springfield, Massachusetts, possui hoje dois, sendo que um foi parcialmente desmontado para doar peças ao outro, este restaurado não na condição original, mas com as cores da empresa (verde-escuro e branco), modernizado para uso como veículo promocional. A restauração terminou em meados do ano 2000.

O quarto dos 11 Futurliner está no Canadá, e era usado como veículo promocional de uma empresa de telefonia celular. Esta unidade foi doada pela GM em 1959 para a polícia de Michigan, usado em campanhas de trânsito com no nome de “Safetyliner”. Depois –acredite- ele foi levado, rodando, a um ferro-velho, em Spring Lake, também no estado de Michigan, e lá ficou por alguns anos. Mais tarde foi para Chicago, ainda rodando, quando acabou comprado pela empresa canadense e restaurado. Em 2005, foi novamente restaurado para o visual original e, em 2006, vendido em leilão por pouco mais de US$ 4 milhões!

O quinto conhecido está em más condições, em fase de (longa e demorada) restauração, nas mãos de um colecionador de caminhões de bombeiros feitos entre 1940 e 1970. Outros dois foram comprados por um colecionador, também para utilizar um como doador de peças. Em 1956, um dos
Futurliners sofreu um acidente após ficar sem freios e bateu no outro que ia à frente. O estrago foi grande e a GM resolveu não recuperar o veículo, que  também foi doado à polícia de Michigan para eventual retirada de peças. Esta unidade foi ”abastecida” por um grande estoque de peças de reposição, colocado dentro do veículo avariado. Após aposentar o Futurliner “bom”, o outro foi rebocado para o mesmo ferro-velho em Springlake, indo depois também para Chicago e mais tarde para outro ferro-velho em Yuma, Arizona. Em 1999 foi comprado por este colecionador, e incrivelmente ainda continha algumas das peças de reposição em seu interior.

O oitavo Futurliner de que se tem notícia estava em New Hampshire, com motor original, resquícios da pintura da época, mas bastante deteriorado pela ferrugem; foi recentemente vendido e levado para Harrison, Maine. Por fim, o Futurliner de número 10, que está sendo carinhosamente restaurado nos padrões originais desde 1999, tendo passado antes pelas mãos de uma cervejaria de Chicago, que o transformou em uma espécie de palco para shows musicais, além de portar um display mostrando o processo de produção da cerveja.

Felizmente, boa parte desta história foi preservada.


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